
Quando uma oliveira é arrancada na Cisjordânia, isso significa eliminar um símbolo de paz e também um símbolo da resistência do povo palestiniano. Em época de apanha da azeitona, os ataques intensificam-se e nem a protecção de activistas e diplomatas, ou a presença de jornalistas, impede os colonos israelitas de exercerem violência sobre os agricultores palestinianos. Os colonos roubam azeitonas e queimam oliveiras, os militares levam buldózeres e arrancam-nas pela raiz. Mas, sabemos como a oliveira é resistente. Foi com um ramo de oliveira que Yasser Arafat se apresentou nas Nações Unidas, oferecendo a paz entre israelitas e palestinianos: “Hoje, trago comigo um ramo de oliveira e uma arma dos combatentes pela liberdade. Não permitam que o ramo de oliveira caia da minha mão. Repito: não permitam que o ramo de oliveira caia da minha mão”.
Esta declaração, que expressou uma vontade de paz e, simultaneamente, alertou para o apoio que a causa palestiniana precisava, não surtiu efeito. A chamada comunidade internacional, ou pelo menos uma parte dela, a que tem mais poder e influência, demonstrou ao longo dos anos que não tinha intenção de ajudar a manter o ramo de oliveira na mão de Arafat.
Agora, quando a fúria sionista se manifesta numa dimensão de terror absoluto, transformando a Cisjordânia numa selva em que os palestinianos dificilmente conseguem sobreviver à turba de colonos apoiados pelo exército israelita, a chamada comunidade internacional sai da habitual modorra, dizendo-se preocupada e exigindo que o governo israelita pare com a violência dos colonos.
Já não há forma de negar, muito menos justificar, o que está a acontecer à vista de todos. Os relatos, as fotografias e os vídeos, são elucidativos. Não há forma de dizer que são falsos, mesmo que o primeiro-ministro israelita diga que “é uma campanha de difamação” quando até o ministro Gideon Saar já dizia que se tratava de actos graves de violência de desordeiros israelitas. Estas reacções surgiram depois de uma jornalista norte-americana, Heidi Levine, ter sido violentamente agredida, e depois de um grupo de autarcas e diplomatas europeus (França, Bélgica e Polónia) ter sido também agredido.
O primeiro-ministro israelita também veio dizer que a situação não era clara e que “cerca de 200 árabes e activistas de extrema-esquerda confrontaram aproximadamente 40 jovens israelitas”. O editor executivo do Washington Post respondeu: “para que fique claro: alguns factos não são contestados nem obscuros. A nossa fotógrafa estava claramente identificada como ‘press’. Foi claramente agredida. Não são declarações partidárias ou ridículas, mas sim indiscutíveis”.
Se os colonos israelitas fazem isto a diplomatas europeus e a uma jornalista norte-americana (não é a primeira…), não é difícil imaginar o que fazem à população palestiniana na Cisjordânia. Atacados diariamente, os palestinianos estão impedidos de se defenderem porque se o fizerem, rapidamente passam a ser eles os “culpados” e são atacados pelo exército israelita que não hesita em disparar a matar. Tudo isto patrocinado pela “única democracia do Médio Oriente”.
Já ninguém acredita nos argumentos, detenções, investigações e justificações que chegam de Telavive. Até dos Estados Unidos chega a acusação de terrorismo para carimbar a violência dos colonos e o secretário de estado Marco Rubio confessou que os Estados Unidos ficaram muito perturbados com as imagens da agressão a Heidi Levine. O que também perturba, de facto, é que os Estados Unidos só fiquem perturbados quando está em causa uma cidadã norte-americana. Já tinha sido assim quando o embaixador norte-americano em Israel, Mike Huckabee, visitou (em meados de Agosto), perto de Nablus, a casa de família de um palestiniano-americano, cercada por colonos israelitas, mas nunca visitou outros palestinianos que sofreram os mesmos ataques e cerco na mesma região.
Quanto à União Europeia, o costume. Agora, um pouco mais empertigada porque houve diplomatas europeus envolvidos. O habitual é olhar para o lado, emitir comunicados, manifestar preocupação, mas continuando a ter como parceiro um Estado cada vez mais pária de onde não chega nenhum exemplo de humanismo ou democracia.
O descrédito do governo israelita e os ataques selvagens dos colonos na Cisjordânia, mereceram duras críticas de Barack Obama, que acusou Israel de “ter perdido a autoridade moral” e fez a leitura do que está a acontecer: “O povo judeu foi oprimido, discriminado e assassinado durante milénios. Compreensivelmente, procurou refúgio num lugar com o qual tinha laços históricos. Isso é inegável” (…) “Igualmente inegável é que tiraram terras a outros. Essas pessoas foram expulsas. E essas pessoas, compreensivelmente, disseram: Isto é uma injustiça e queremos as nossas terras de volta”.
As palavras do ex-presidente norte-americano provocaram a ira de Benjamin Netanyahu: “O povo judeu não é um ocupante estrangeiro na terra dos nossos ancestrais” (…) “A nossa história não é um empreendimento colonial. A nossa terra não é uma terra roubada” (…) “É a nossa pátria. Chama-se Judeia”.
O caminho traçado pelo governo de Benjamin Netanyahu já não oferece dúvidas: quanto menos palestinianos melhor, se todos forem expulsos, tanto melhor. É esse plano que está a ser executado.
Não tarda, vamos ter Mahmoud Abbas, líder da Autoridade Palestiniana, cercado na Mukata por tanques israelitas, tal como aconteceu a Yasser Arafat em 2002, onde ficou sem poder sair do seu quartel-general em Ramallah, até que, doente – ou envenenado – foi levado para Paris, onde morreu.
Pinhal Novo, 20 de Outubro de 2026
01h00
jmr
