Perguntem a Macron como a França chegou a isto

“Macron despreza a República”, manifestação em Paris, 19 de Janeiro de 2023. Foto: jmr/arquivo

Emmanuel Macron (lembram-se do “nem à esquerda, nem à direita”?) sofreu uma profunda derrota nas eleições europeias de 2024 e na sequência dessa derrota dissolveu a Assembleia Nacional convocando eleições parlamentares. Sofreu nova derrota. Do quadro parlamentar que resultou dessas eleições, em que a força política mais votada foi a Nova Frente Popular (coligação de esquerda) e o campo de Macron ficou em segundo lugar, o presidente francês sempre recusou nomear um primeiro-ministro de esquerda. Macron tinha duas possibilidades: um acordo com a esquerda ou um acordo com a extrema-direita (que tinha sido derrotada nas últimas presidenciais com a ajuda do voto da esquerda em Macron). Macron, que tinha prometido não se esquecer desse voto, esqueceu-se e virou costas à esquerda. Em Portugal temos o “não, é não” que de vez em quando é “sim”, em França, o “nem à esquerda, nem à direita”, transformou-se em “à esquerda, nunca!”. Desde essas eleições em 2024, a França já vai no quarto primeiro-ministro e a instabilidade é conhecida. Pensar que Emmanuel Macron, surdo a todas as reivindicações, poderia ter feito outra coisa, é ter a ilusão de que um representante da alta finança possa alguma vez preocupar-se com as reivindicações legítimas da grande massa popular.

Pilhagens e violência não resolvem os problemas da França, mas os “casseurs” (elementos violentos) são uma minoria entre as centenas de milhares de franceses que saíram à rua em protesto. Os sindicatos e associações que participam nas manifestações demarcam-se claramente do caos que os “casseurs” provocaram e se há um responsável político por este clima de violência, ele é o presidente francês.

Manifestação em Paris, 19 de Janeiro de 2023. Foto: jmr/arquivo

Marine Le Pen, líder da extrema-direita, promete libertar os franceses “das políticas tóxicas macronistas” e protegê-los “da violência da extrema-esquerda”.

Jordan Bardella, o número 2 de Le Pen, já veio apelar à “maioria silenciosa dos franceses” para que a partir de maio de 2027 (eleições presidenciais) a ordem possa ser estabelecida de forma duradoura.

Com o campo de Macron em grandes dificuldades face às políticas dos últimos anos e com a esquerda a ser diabolizada pela violência nas ruas, a extrema-direita tem terreno fértil para crescer. Foi a este ponto que Macron conduziu a França e será ele o maior responsável por uma eventual chegada de Marine Le Pen ao Eliseu.

Em Portugal, as manifestações não têm comparação e decorrem pacificamente, o que não significa menos determinação e menos legitimidade de protesto. Há manifestações porque as pessoas sentem o torniquete a apertar e porque o rendimento do trabalho não chega para ter uma vida digna. É este o grito que sai destas manifestações: por uma vida digna!

E ainda bem que temos os nossos jovens a reivindicar. Quem quer futuro, luta por ele. E quem não percebe os jovens e as suas reivindicações, não percebe nada. Os nossos jovens têm direito a um país em que ter acesso a uma casa, ensino público de qualidade, serviços de saúde e remunerações dignas, não seja uma miragem sempre adiada em nome de uma lei e de uma ordem, sempre invocadas, mas que apenas servem quem está bem instalado na vida. Há quem já esteja a utilizar em Portugal – ao mesmo tempo que dizem que está a ser importada a desestabilização e a conflitualidade – a mesma argumentação da extrema-direita francesa que acusa os grupos de extrema-esquerda de fomentarem as manifestações. Os que utilizam esta argumentação, muitas vezes com um discurso salazarento sobre lei e ordem, já salivam com uma eventual vitória da extrema-direita. O “diabo” que, para desespero de muitos, teimou em não aparecer na sequência da geringonça, já anda por aí.

Ver a extrema-direita chegar ao poder em Portugal, seria uma enorme tristeza num país que viveu a mais longa ditadura da Europa.

Pinhal Novo, 18 de Outubro de 2026

01h30

jmr

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