
Um decreto do presidente da Autoridade Palestiniana, de 9 de Julho, marcava as eleições para o (Parlamento) Conselho Legislativo Palestiniano para 28 de Novembro e, já antes tinha dito que as eleições presidenciais seriam no início de 2027; agora, o mesmo Mahmoud Abbas, através da agência de notícias palestiniana Wafa, adia as duas eleições para 11 Setembro de 2027, argumentando que há obstáculos impostos por Israel que impedem a realização das eleições na data prevista: é preciso “criar condições políticas e de segurança, para garantir eleições, livres, justas e inclusivas”. A Autoridade Palestiniana acusa Israel de ter recusado o acesso dos responsáveis eleitorais a Jerusalém Oriental e à Faixa de Gaza.
O ministro israelita, Gideoon Saar, foi rápido a reagir ao adiamento, acusando Mahmoud Abbas de voltar a enganar a comunidade internacional e refutando a responsabilidade atribuída a Israel, considerando que é “uma nova mentira ridícula”, com o objectivo de fugir à responsabilidade e evitar prestar contas.
É certo que não há eleições legislativas na Palestina desde 2006 (quando o Hamas venceu), mas o que está errado não é o adiamento agora decidido, é sim o ter sido exigido à Autoridade Palestiniana que se comprometesse com a realização de eleições, em nome de um acordo de cessar-fogo e de um plano de reconstrução da Faixa de Gaza (o Plano de Paz de 20 pontos de Donald Trump) que incluísse, no futuro, uma Autoridade Palestiniana “reformada” a governar Gaza.
Para além das acusações do governo de Israel, também algumas vozes palestinianas discordam do adiamento agora anunciado. Mohammed Dahlan, dissidente da Fatah (partido de Mahmoud Abbas), antigo “homem forte de Gaza”, de onde fugiu quando o Hamas tomou o poder (2007), exilando-se nos Emirados, qualificou o adiamento como “um crime contra a democracia”; Esmat Mansour, antigo dirigente da Frente Democrática de Libertação da Palestina, acusou Mahmoud Abbas de ter medo de eleições e de ouvir o que o povo palestiniano tem a dizer.

Ao lado de Mahmoud Abbas para o adiamento do acto eleitoral, está o Hamas. Segundo informação resultante de um encontro na semana passada, no Cairo, quatro facções palestinianas concluíram que as eleições deveriam ser adiadas e deve ter lugar um “diálogo nacional”.
Esta não é a primeira vez que as eleições palestinianas são adiadas. Em 2021, legislativas e presidenciais também foram adiadas porque Israel não dava garantias (na prática, impedia…) de realização das eleições em Jerusalém Oriental (onde vive um número substancial de palestinianos).
Mais recentemente, 25 de Abril de 2026, realizaram-se eleições locais (autárquicas). Na Cisjordânia, a participação rondou os 53% e na Faixa de Gaza, onde houve eleições apenas num município, dos 70 000 eleitores inscritos votaram apenas 23%.
Abbas tem razão, Israel não
O adiamento das eleições pelos motivos referidos pela Autoridade Palestiniana é perfeitamente compreensível, mesmo que esconda outras motivações de política interna. Fazer eleições de qualquer maneira, sem que existam condições mínimas para que o povo palestiniano se expresse democraticamente e em liberdade, não vale a pena e seria enganador.
As eleições apenas dão legitimidade política às lideranças se preencherem critérios de democracia e liberdade para os candidatos e para os eleitores. Precisamente em nome da necessidade de legitimidade e de reconhecimento internacional, a Autoridade Palestiniana não deve fazer eleições sem ter garantia de que elas ocorrem dentro de um mínimo de normalidade. Esse mínimo não está garantido – nenhum observador tem dúvidas – e, por exemplo, a Autoridade Palestiniana não pode escorregar na casca de banana de organizar eleições deixando de fora Jerusalém Oriental. Se isso acontecesse seria o reconhecimento da anexação da capital palestiniana por Israel, o que é contrário ao Direito Internacional.
Alô, União Europeia
Aqui chegados, é também o momento de todos os países que reconheceram o Estado da Palestina exigirem a Israel que as eleições palestinianas ocorram em Jerusalém Oriental (tal como aconteceu em 2005 e 2006). É verdadeiramente absurdo e revelador de desfasamento da realidade, ouvir o ministro dos negócios estrangeiros francês, Jean-Noel Barrot, considerar o adiamento “o pior serviço possível que poderia ser feito aos palestinianos, que têm o direito de manifestar a sua aspiração à autodeterminação e de o fazer através de eleições livres e democráticas”. O ministro francês nem se apercebe da enorme contradição – e do mau serviço que está a fazer – ao referir-se a “eleições livres e democráticas” numa Cisjordânia aterrorizada pelos colonos israelitas, onde há centenas de “portões” a encerrar estradas e postos de controlo israelitas, onde nem a colheita das azeitonas os palestinianos conseguem fazer sem serem assaltados por colonos e militares, onde casas e carros são pilhados, onde há milhares de deslocados dos campos de refugiados desde que Israel intensificou a presença militar, onde a lista de crimes, mortes e detenções, aumenta diariamente.

Na Faixa de Gaza arrasada, com as pessoas a viverem em tendas, desesperando por ajuda e por um sinal de futuro, continuamente sujeitas a ataques israelitas, quais são as condições para organizar eleições? E em Jerusalém Oriental, senhor ministro, deve ou não haver eleições palestinianas?
Também a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, disse que os Estados-membros “lamentaram o adiamento das eleições palestinianas” e que as eleições devem realizar-se o mais rapidamente possível, estando a União Europeia “disponível para apoiar o processo, incluindo através de uma missão de observação eleitoral”. Pois, ninguém lamenta mais do que os palestinianos. É só isso que a União Europeia tem a dizer? Nada a dizer a Israel sobre os obstáculos a que se refere Mahmoud Abbas?
Conhecem o terreno?
Estas questões são muito concretas. Existe alguém que conheça – um conhecer de sujar os sapatinhos no terreno – os territórios palestinianos e que consiga dizer que há condições para realizar eleições, com apresentação livre de candidatos e campanha eleitoral, e que traduzam a vontade dos palestinianos? Há alguém que consiga dizer que o recenseamento da população está feito e preparado para as eleições? Há alguém que consiga dizer que todos os palestinianos podem, se quiserem, apresentar-se a votos? Há condições para os candidatos fazerem campanha eleitoral nos territórios ocupados? Pode a Autoridade Palestiniana colocar assembleias de voto em todos os territórios que o Direito Internacional reconhece como seus?
Em vez de criticar o adiamento das eleições decidido por Mahmoud Abbas, a União Europeia e o chefe da diplomacia francesa deveriam exigir que Israel parasse com os crimes dos colonos na Cisjordânia, que parasse com os ataques a Gaza e deixasse entrar ajuda sem limitações, e que criasse condições para que as eleições pudessem ocorrer em Jerusalém Oriental. Então sim, as eleições poderiam ser livres e democráticas. Nada disso faz a diplomacia de uma Europa politicamente decadente.
Para além do desamparo de décadas, os palestinianos são ainda sujeitos à desfaçatez de políticos europeus que não têm um pingo de vergonha, nem de dignidade. Não consigo dizer isto de outra forma.
Pinhal Novo, 12 de Outubro de 2026
23h50
jmr
