
A Arábia Saudita está sob fogo Houthi e os sinais de ajuda externa são frágeis. Os Estados Unidos têm bases militares no Qatar, Omã, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrain e na própria Arábia Saudita, mas parece que não têm utilidade para travar os mais recentes ataques dos Houthis. A fragilidade defensiva dos países do Golfo já tinha ficado exposta nos últimos meses face aos ataques do Irão. Se, nessa fase, os ataques iranianos visaram especialmente interesses norte-americanos na região, desta vez os Houthis atacam directamente a Arábia Saudita, em particular o Aeroporto Internacional de Riad, Rei Khalid. Pelo menos 12 pessoas morreram, mais de 300 ficaram feridas, e o aeroporto está encerrado desde então. Em dois dias (10 e 11) os Houthis já reivindicaram quatro vagas de ataques à Arábia Saudita.
Um porta-voz Houthi disse que um outro aeroporto, Dammam (sauditas confirmaram), no leste, e duas instalações da petrolífera estatal Aramco, também foram atingidas. Estes ataques são a resposta Houthi ao recrudescer da intervenção saudita no Iémen, numa tentativa de recuperar zonas estratégicas, junto ao estreito de Bab El Mandeb, que tinham sido recentemente conquistadas pelos Houthis. Na versão Houthi, o estreito de Bab El Mandeb, as cidades de al-Mukha e a quase totalidade de Taiz, continuam na posse do governo rebelde de Sanaa. Ainda na versão dos Houthis, os ataques aéreos sauditas pretendem apoiar as forças governamentais do Iémen que tentam recuperar o controlo de zonas chave para controlar o acesso ao Mar Vermelho, mas as vitórias anunciadas pela Arábia Saudita são apenas para consumo da comunicação social porque no terreno o controlo é dos Houthis.

Nas últimas horas, a capital rebelde tem sido atacada pelos sauditas e o aeroporto apenas recebe alguns voos da ONU. Toda a frota iemenita foi destruída (em 2015, pela Arábia Saudita e, o que restou, por Israel, há menos de um ano).
Estratégia Houthi
Com os navios sauditas impedidos de passar Bab El Mandeb e com os aeroportos sauditas debaixo de fogo, o objectivo dos recentes ataques Houthis é forçar Riad a negociar com Sanaa a autorização dos voos que podem utilizar aeroportos sauditas. Dificilmente este objectivo será atingido, mas os Houthis querem inverter a situação que a Arábia Saudita chegou a impor, quando controlava o movimento aéreo do aeroporto de Sanaa, no Iémen.
A estratégia de Trump
Segundo o Axios, a 10 de Setembro, Mohammed Bin Salman (príncipe herdeiro da Arábia Saudita) telefonou a Donald Trump e solicitou a ajuda dos Estados Unidos, mas Trump recusou envolver-se directamente na guerra com os Houthis, apoiando Riad com informações sobre os alvos houthis que a Arábia Saudita poderia atingir. Para além disso, Washington deu apoio político a Riad. Ao recusar o apoio pretendido pela Arábia Saudita – um fiel aliado e comprador de armamento – a única leitura possível é que os Estados Unidos estão claramente a querer empurrar Riad para os Acordos de Abraão, que os sauditas recusam enquanto não houver Estado palestiniano. Para além da proximidade das eleições intercalares que desaconselham a entrada numa nova frente de guerra, o que Washington parece estar a dizer, é: para terem mais apoio norte-americano têm de aceitar integrar os Acordos de Abraão.
Escassez de mísseis interceptores
A Arábia Saudita tem reduzida capacidade para se defender através da utilização de mísseis que possam interceptar os ataques dos Houthis e pediu ajuda à França, Reino Unido, Egipto e Paquistão. Este último já terá enviado apoio militar ao abrigo do Acordo de Meca (Arábia Saudita, Paquistão e Turquia – que terá agora um primeiro teste). São conhecidos os alertas para a redução de interceptores nos países do Golfo devido a uma intensa utilização após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irão e a resposta iraniana que se seguiu. Apesar de ser um equipamento cuja reposição é demorada, esta falta de mísseis de intercepção poderá estar também relacionada com a mesma falta registada nas reservas norte-americanas, apesar de Washington desmentir essa alegada quebra nas reservas.
Sansão e Golias
A Arábia Saudita está entre as 20 maiores economias; o Iémen estará situado algures entre 160º e o 170º lugar. O Banco Mundial estima que três quartos da população iemenita vive abaixo do limiar da pobreza e ainda não há muito tempo a ONU dizia que o país vivia a maior crise humanitária a nível global. Não há comparação possível em termos de capacidade económica entre o Iémen e a Arábia Saudita. O problema é que o Iémen – neste caso, os Houthis – tem uma localização estratégica importante, sendo um país decisivo para a segurança das rotas marítimas, nomeadamente para o acesso ao Mar Vermelho.

Actualmente, a Arábia Saudita tenta contornar os estreitos (Ormuz e Bab El-Mandeb), através da exportação de petróleo via oleoduto Este-Oeste (Abqaiq-Yanbu, 1200 km de extensão e capacidade de transporte de 7 milhões de barris/dia, segundo a Saudi Aramco), mas também esta infraestrutura de exportação já foi atacada e apesar de estar operacional não está a utilizar a capacidade máxima.
Lições da história
Durante a Grande Guerra, o alto-comissário britânico no Cairo prometeu a Hussein, Xerife de Meca, que a Grã-Bretanha reconheceria a independência dos árabes se combatessem os Otomanos (aliados de alemães e austro-húngaros). Hussein assim fez. Tribos árabes, lideradas pelo filho de Hussein, Fayçal, combateram os otomanos e derrotaram o Império que dominava uma parte da região. Só que, os britânicos não cumpriram a promessa e, devido a isso, Hussein acabou deposto e exilado, sendo substituído por Ibn Saud, coroado rei da Arábia Saudita em 1932. Saud derrotou os rivais, uniu as tribos e assim nasceu a Arábia Saudita, precisamente a Arábia de Saud.
Os britânicos não cumpriram a promessa porque não queriam ver territórios independentes nas fronteiras de outros territórios que a coroa britânica dominava e queria continuar a dominar. Seria, para Londres, expor um “mau exemplo”. A potência colonial considerava normal fazer prevalecer a sua vontade porque tudo girava à volta da vontade das potências europeias.
Agora, a grande potência é outra, mas com esta História, não será difícil aos sauditas perceberem que há promessas que ficam por cumprir, mesmo tratando-se de aliados, e que o apoio que agora esperavam dos Estados Unidos poderá nunca chegar, a não ser que as eleições intercalares corram de feição a Donald Trump e que a vontade norte-americana seja cumprida: a Arábia Saudita tem de assinar os Acordos de Abraão.
Nas últimas horas (11 de Outubro) Trump disse que iria pensar se os Estados Unidos entram ou não nesta guerra Iémen-Arábia Saudita, mas nem sequer é novidade que Trump utilize a questão da segurança da Arábia Saudita como instrumento de pressão para obter concessões. Há pouco mais de dois meses Donald Trump disse que o acordo de cooperação nuclear com Riad ficaria dependente da adesão da Arábia Saudita aos Acordos de Abraão.
Pinhal Novo, 12 de Outubro de 2026
01h30
jmr
