
Acordei tarde naquele sábado, 7 de Outubro de 2023. Estava em Paris e preparava-me para viajar para Toulouse onde iria acompanhar o Portugal-Ilhas Fiji para o Mundial de Rugby, mas antes disso, o almoço com a família, em Suresnes, aqueles momentos em que tentamos equilibrar o trabalho com a vida familiar, num sítio que considerávamos acolhedor e onde, quando não estava frio, nos deixávamos ficar na esplanada. Era esse o programa.
Nessa manhã, o primeiro olhar para o telemóvel deu conta de um enorme número de “alertas” e depois de ligar a televisão percebi de imediato que “o mundo estava a arder”. Fiquei algum tempo a ver as imagens e confesso que tive dificuldade em acreditar que o Hamas e outros grupos palestinianos de Gaza tivessem a ousadia e a capacidade para desencadear um ataque com aquela envergadura. Mas, de facto, foi isso que aconteceu, colocando-se a dúvida sobre até onde iria o ataque e como reagiria Israel. Curiosamente, já tinham passado umas horas desde o início do ataque, mas o telemóvel ainda não tinha tocado. Estava ligado 24 horas. À medida que a vida se estende habituamo-nos a todo o tipo de critérios. Não nos rendemos, mas também não estranhamos. E a vida muda num instante.
Corria o almoço e estávamos a falar do que nos entusiasmava, dos problemas e também das preocupações de uma família normal, evitando tanto quanto possível o que estava a acontecer em Israel e Gaza. Ia a meio de uma garfada de um excelente Magret de Canard, quando o telefone tocou. Mais ou menos 13h30. Momento de suspense, trocámos olhares. O nome associado ao número era esclarecedor. “Rosendo, podes ir para Israel?”. “Olha que estamos acreditados e com viagens compradas para ir fazer a selecção de Rugby a Toulouse”, respondi. “Esquece isso, podes ir?”. “Claro”, respondi “e como? O espaço aéreo está aberto? Há companhias a voar para lá?”. Do outro lado: “Vamos tratar disso. Quando podes ir?”. “Quando tiver voo”, respondi. Parti cerca de três ou quatro horas depois. Eu, que tinha ficado apaixonado pelo Rugby e que tinha andado a estudar as regras e a ver quem eram os protagonistas, iria perder aquela que seria a primeira vitória de selecção portuguesa num Campeonato do Mundo (24-23, frente às Ilhas Fiji – para quem não sabe uma potência do Rugby). O jogo com as Ilhas Fiji foi a 8 de Outubro, dia em que cheguei a Jerusalém.
Humanidade das coisas
A única forma de ir de Paris a Jerusalém foi com uma escala em Belgrado. Recordo-me que a longa espera durante a escala foi suavizada com a companhia sérvia a servir sandes e bebidas. Havia vários jornalistas no voo da Air SERBIA e íamos conversando e tentando obter toda a informação possível sobre a situação no terreno. Era uma densa cascata de informação num momento em que ainda não era conhecida a verdadeira dimensão do que estava a acontecer.
Quando viajo levo sempre muitas coisas para ler. Muitas regressam a casa tal como saíram, mas preciso de sentir que tenho alguma coisa para ler. Quase como a necessidade de ter sempre à mão uma garrafa de água. Desta vez, entre Belgrado e Paris, aproveitei para ler “Raconter la Guerre”, da jornalista belga Françoise Wallemacq, grande repórter da RTBF, com 30 anos de reportagem em contexto de guerra e/ou conflito. É um texto de uma conferência para jovens, com a transcrição de perguntas e respostas que se seguiram. Nas duas últimas perguntas (qual é a relação que tem com a morte? E qual é o melhor elogio que se pode fazer ao seu trabalho?), Françoise responde que enquanto jornalista gosta que reconheçam que ela revela a “humanidade das coisas” e que tenta mostrar que mesmo numa guerra, encontra-se beleza e pessoas corajosas. Quanto à relação com a morte diz que gosta de partir em viagem sem estar zangada com ninguém e quase se reconcilia com todos antes de partir. Revela ainda que não tem filhos e, se os tivesse, não partiria em reportagem para os países para onde tem ido. Bebo as palavras de Françoise e questiono-me que beleza e humanidade vou encontrar após esta explosão dentro de uma guerra de décadas, com ódios em crescendo entre dois povos que as circunstâncias atiravam para o desencontro.
Primeiros directos
Chegado a Telavive, o aeroporto é um deserto. Até a aborrecida passagem no controlo de passaportes, foi feita com absoluta rapidez e tranquilidade. Se não me engano apenas um guiché para estrangeiros estava a funcionar. Visto à chegada quase sem perguntas.
Depois, Jerusalém, para o hotel de sempre. As necessárias conversas para saber as últimas e a preparação para os primeiros directos, rádio e televisão. O camarada repórter de imagem chegaria algumas horas depois e o directo para a televisão, já de noite, teve de ser à porta do hotel, onde havia alguma iluminação para poder utilizar a câmara do telemóvel. O local possível – foi assim porque não podia ser de outra forma – porque os jornalistas só podem trabalhar em Israel depois de autorizados pelos serviços de imprensa do gabinete do primeiro-ministro e com o cartão “press” na mão, porque há interpelações constantes em momentos como o que estávamos a viver. Arriscar um directo de um qualquer outro local, que não iria acrescentar nada e mostrar muito pouco, podendo hipotecar a reportagem que pretendíamos fazer, não compensava.

O que é aborrecido nestas circunstâncias – confesso que fico irritado – é ter de explicar tudo isso a um “rabo sentado” em Portugal (não é ofensa porque também já houve momentos em que fui eu o “rabo sentado”), como se o repórter não soubesse o que está a fazer ou, se calhar, por pensarem que não quis ter o “incómodo” de procurar outro local para o directo.
Primeiro impacto
A reportagem em Israel prolongou-se por um mês. A imprensa internacional não entrou na Faixa de Gaza e, três anos depois, essa limitação mantém-se. Nas primeiras horas após chegar a Israel, ainda se contavam os mortos do lado israelita e não se sabia quantos reféns tinham sido levados para Gaza. O governo israelita não sabia e o Hamas também não. Durante alguns dias ainda houve combatentes palestinianos em território de Israel e foi criada uma zona de segurança em redor da Faixa de Gaza. O Hamas disse que nas primeiras horas de 7 de Outubro lançou 5 000 rockets contra território de Israel. Benjamin Netanyahu prometeu desde logo utilizar todo o poderio militar para destruir o Hamas e alertou para uma “guerra longa e difícil”.

Israel viveu um momento de incredulidade face ao ataque palestiniano e depois reagiu com máxima dureza. Nas primeiras horas atacou as casas de dirigentes do Hamas e disse ter atingido 800 alvos. O então ministro da defesa Yoav Gallant ordenou cerco completo a Gaza e prometeu que nada entraria no território: “nem electricidade, nem alimentos, nem gás, não entra nada na Faixa de Gaza”. Os líderes israelitas classificaram os palestinianos de “bestas humanas”. Era a desumanização que permitiria aceitar qualquer tipo de resposta. 300 000 reservistas foram mobilizados em 48 horas. O Hamas ameaçou executar um refém por cada ataque israelita sem aviso prévio à população. As sirenes de ataque aéreo tocavam frequentemente um pouco por todo o lado, principalmente no sul de Israel. No dia 10 de Outubro, o exército israelita anunciou controlo total na fronteira com Gaza.
Logo nesses dias surgiu a informação de que o Egipto alertara Israel para a possibilidade de um ataque do Hamas… Netanyahu respondeu que era informação falsa. Três anos depois, surgiram dados e fontes concretas sobre os avisos recebidos em Israel para um eventual ataque a partir de Gaza. Benjamin Netanyahu continua a dizer que é mentira, mas as evidências tornam cada vez menos credível a versão do primeiro-ministro israelita.
Raiva e desejo de vingança
Nos dias que se seguiram, impossibilitados de entrar na Faixa de Gaza e de circular em zonas próximo da fronteira, classificadas de zonas de guerra e onde se concentravam as forças militares que participavam nas operações terrestres em Gaza, os jornalistas concentraram-se muitas vezes numa pequena elevação de terreno, em Siderot, a cerca de um quilómetro da fronteira, e de onde era possível ver, a olho nu, os bombardeamentos e as sucessivas colunas de fumo provocadas pelas explosões no norte da Faixa de Gaza. Também aí, muitas vezes, soavam as sirenes e era possível ver nos céus de Siderot, os mísseis lançados de Gaza a serem interceptados (nem todos) pela defesa israelita.
Em Siderot, as ruas estavam vazias, muitos abrigos salpicados pela cidade, os carros palestinianos utilizados no ataque demoraram a ser retirados. Os habitantes que ficaram – muitos saíram – refugiavam-se em casa. A esquadra de polícia foi tomada pelo Hamas e acabou bombardeada com quem estava lá dentro: polícias israelitas e combatentes do Hamas. Hoje existe um monumento no local onde antes estava a esquadra de polícia.
Era impossível ouvir os palestinianos de Gaza sobre o que estava a acontecer, mas era possível ouvir os israelitas em Siderot ou em Ashkelon e perceber a raiva e a sede de vingança. Uma raiva compreensível face à violência do ataque do Hamas, o elevado número de mortos e os reféns levados para Gaza.

A mesma raiva que certamente ia crescendo em Gaza face aos bombardeamentos israelitas e às centenas de vítimas diárias. O que eu percebi logo a partir da pequena colina em Siderot foi que a Faixa de Gaza que eu conhecia iria deixar de existir. Os esqueletos na linha de edifícios mais próximos da fronteira, não enganava. As explosões e os cogumelos constantes de fumo negro, não enganavam. Em alguns (muitos) momentos, havia sequências de vários tiros de artilharia por minuto. E as operações terrestres ainda nem tinham começado. O resto da história, nos últimos três anos, é conhecida.
Regressando às palavras de Françoise Wallemacq, fui para Israel sem estar zangado com ninguém e levando o aconchego dos abraços apertados da família, talvez mais apertados do que o costume. Mas quanto à “humanidade das coisas”, que Françoise diz que deve ser mostrada, mesmo numa guerra, como seria possível, se eu não ouvia à minha volta uma única palavra de compreensão ou generosidade, mas sim de raiva e desejo de vingança? Não era possível encontrar uma única tentativa de aproximação entre israelitas e palestinianos. Que beleza teria sido possível descrever naqueles primeiros dias intensos de luto e dor, e quando no horizonte apenas havia colunas de fumo que nos permitem adivinhar mais mortos, mais raiva, mais desejo de vingança?
Três anos depois, quando a raiva e o desejo de vingança já deveriam estar apaziguados, continuamos sem sinal de que tal vá acontecer.
Pinhal Novo, 5 de Outubro de 2026
02h00
jmr
