O último dia dos Estados Unidos no Iraque

As bases dos Estados Unidos no Iraque, concentradas nas proximidades de Bagdad e na região curda. Infografia da agência de notícias turca Anadolu

30 de Setembro. É um dia histórico e vai ser feriado no Iraque. Mais de 23 anos depois da invasão do Iraque e do derrube de Sadam Hussein, os Estados Unidos retiram a totalidade das forças de combate que tinham no país, mas deixam no poder os aliados do seu pior inimigo no Médio Oriente. Talvez por isso, a retirada norte-americana é feita de forma discreta: não há fanfarra, nem cerimónias públicas.

Talvez para não perturbar a retirada militar, os Estados Unidos abriram uma excepção às sanções contra o Irão e autorizaram voos da Iraqi Airways entre a cidade santa de Najaf (no Iraque) e o Irão, o que permite a deslocação de peregrinos xiitas entre os dois países.

Esta retirada norte-americana é motivo de celebração no Irão e entre os aliados de Teerão; as monarquias do Golfo receiam um vazio que abra caminho ao estender da influência iraniana; os curdos temem a ausência do “guarda-chuva” norte-americano. O futuro nos dirá, mas a guerra desencadeada há mais de duas décadas acabou por aproximar Iraque e Irão em detrimento dos objectivos norte-americanos para o Médio Oriente. Agora, fica escancarada a via para a influência de Teerão em Bagdad, mesmo que o actual primeiro-ministro iraquiano, Ali Al-Zaidi – homem de negócios, à imagem de Donald Trump – tenha merecido o apoio de Washington ou, pelo menos, não tenha sido vetado como aconteceu a Nouri Al Maliki (foi primeiro-ministro entre 2006-2014) que pretendia regressar à liderança do governo iraquiano.

Ali Al-Zaidi (talvez 40 anos, não há certeza…), xiita da província de Dhi Qar (sul), formação académica em direito e finanças, é um homem de negócios, banqueiro e dono do canal de televisão por satélite Dijlah TV. É o mais novo primeiro-ministro do Iraque, nunca desempenhou funções governativas e é referido como um independente.

A grande expectativa é a de saber se vai conseguir (e se quer…) desarmar as milícias xiitas, uma exigência dos Estados Unidos e uma condição indispensável para o Iraque retomar as relações normais com os países do Golfo que acusam estas milícias de lançarem ataques de apoio ao Irão. Para já, Ali Al-Zaidi, citado pelo New York Times, compromete-se com esse objectivo até final do próximo verão (junho de 2027). Quando entrou em funções, assumiu o compromisso de fazer o desarmamento até à retirada das forças norte-americanas, mas rapidamente percebeu que seria uma tarefa impossível face à recusa das milícias. O calendário de desarmamento foi revisto e ficou de ser anunciado a 30 de Setembro, mas será um exercício de equilíbrio extremamente difícil entre o que os Estados Unidos querem, o que o Irão pretende e o que será melhor, e possível, para o Iraque.

As comunidades xiitas olham para a retirada norte-americana como uma vitória da resistência – o Irão tem como objectivo principal expulsar as forças norte-americanas do Médio Oriente – e uma prova de que o Iraque não se deixou subjugar a forças estrangeiras.

Tal como os xiitas, a comunidade sunita também defende a total soberania do país, mas manifesta receio de que esta retirada crie um vazio e dê azo ao regresso da marginalização dos sunitas como aconteceu nos anos que se seguiram à queda de Saddam Husseín.

O primeiro-ministro da região do Curdistão, Massoud Barzani, citado pela Rudaw TV disse que há uma “séria preocupação” porque, desde Fevereiro, a região curda foi alvo de mais de 1 000 ataques com drones e mísseis, que fizeram 32 mortos e cerca de 150 feridos. O Ministro dos Peshmerga (exército curdo) alertou para a fragilidade do espaço aéreo (fica sem defesa) após a retirada norte-americana e responsabilizou o governo federal iraquiano porque foi quem assinou o acordo de retirada com os Estados Unidos (Joe Biden, 2024).

Longa presença norte-americana

Uma primeira retirada parcial do Iraque ocorreu em 2011. Na segunda metade desse ano, os Estados Unidos fecharam bases e retiraram mais de 45 000 militares (no pico da guerra estiveram no Iraque cerca de 170 000 militares norte-americanos). Ficaram poucas centenas de militares principalmente ligados à embaixada em Bagdad e ao consulado no Curdistão, e (não se sabe quantos) milhares de contractors (fornecem serviços de segurança, da cyber-segurança à manutenção de aviões e carros de combate, formação, etc..), principalmente da Amentum, uma empresa norte-americana de serviços de engenharia, tecnologia, logística e apoio a operações governamentais e militares.

Não muito tempo depois, 2014, os Estados Unidos voltariam ao Iraque liderando uma coligação para combater a organização Estado Islâmico e tiveram o Irão como aliado. Desse tempo ficaram as Unidades de Mobilização Popular, milícias xiitas com o apoio de Teerão, que se constituíram como exército paralelo no Iraque e também como força política com representação parlamentar. O Estado Islâmico foi derrotado territorialmente em Março de 2019, mas as milícias pró-iranianas ganharam raízes e influência política e social. As mesmas milícias que, em defesa do Irão, atacaram muitas vezes as posições norte-americanas e território curdo (norte do Iraque) desde que a região voltou a mergulhar na guerra. As mesmas milícias que sempre insistiram na retirada norte-americana, o que chegou a provocar forte tensão com o governo iraquiano.

O fantasma do Estado Islâmico

Um dos receios que acompanha esta retirada norte-americana é a possibilidade de a organização Estado Islâmico ganhar uma “nova vida”. Há múltiplos alertas sobre uma rede de células adormecidas e tem havido regularmente detenção de pessoas ligadas à organização. As forças curdas sinalizaram um recrudescer de actividade desde que foi anunciada a retirada norte-americana e receiam que a falta do apoio norte-americano na obtenção de informação, suporte logístico e vigilância através de drones, permitam maior liberdade de acção aos combatentes do Estado Islâmico.

O presidente curdo, Masoud Barzani, foi muito explícito alertando para a possibilidade de repetição do cenário de retirada norte-americana em 2011, que abriu caminho para o crescimento da organização Estado Islâmico. Os curdos têm motivos para preocupação uma vez que a maior actividade do Estado Islâmico tem sido detectada precisamente nas zonas disputadas por Bagdad e Erbil, nomeadamente Kirkouk. A única afirmação que pode ajudar a sossegar os curdos veio do comandante da força aérea iraquiana, general Khalid Al-Tamimi, que garantiu a capacidade da força aérea para atacar células do Estado Islâmico e considerou que a ameaça terrorista é muito limitada.

O que vai sair do Iraque

A Agência Turca Anadolu listou nove bases/instalações militares norte-americanas que vão agora ser entregues a Bagdad. Quando a forças militares, estima-se que os Estados Unidos tivessem algumas centenas dos cerca de 2 500 militares que já tiveram em 2026. Saem os militares, mas ficam os contractors, tal como em 2011.

É sem dúvida, um momento de viragem. Após 30 de Setembro, com a guerra a varrer a região, o Iraque vai estar perante um enorme desafio: desde logo, não repetir o erro de marginalização da comunidade sunita (o que já custou uma guerra civil…); depois, Bagdad precisa de afirmar autoridade sem entrar em confronto com as poderosas milícias xiitas e, por outro lado, não pode transformar-se num palco de competição entre Estados Unidos e Irão. A questão das milícias xiitas é a mais delicada. É verdade que a saída dos militares dos Estados Unidos era uma exigência das milícias – e essa exigência fica cumprida, podendo facilitar o desarmamento ou a integração – mas dizem que apesar de terminar a ocupação militar, continua a ocupação económica. Uma referência ao controlo norte-americano sobre as vendas do petróleo iraquiano que passam todas pelo Banco Central dos Estados Unidos e só depois os dólares são enviados para o Iraque, com uma parte a ficar nos Estados Unidos. Foram estas milícias que sentem agora a legitimidade de terem substituído o exército iraquiano (que tinha tido formação dos Estados Unidos e aliados) quando este bateu em retirada perante a ofensiva da organização Estado Islâmico. Dificilmente vão aceitar que aqueles que fugiram do Estado Islâmico venham agora ditar as regras e passem a ser os responsáveis pela segurança e defesa do Iraque.

Pinhal Novo, 30 de Setembro de 2026

01h30

jmr

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