Guterres: dignidade na ONU

António Guterres, Secretário-Geral da ONU, durante a conferência de imprensa sobre a semana de alto-nível na Assembleia-Geral. Foto: Mark Garten/ONU

Na habitual conferência de imprensa que antecede o “debate geral” (ou semana de “alto-nível”) na Assembleia-Geral da ONU, em Nova Iorque, um jornalista felicitou António Guterres por sobreviver a 10 anos turbulentos e disse que merece elogios; outro, agradeceu a Guterres os difíceis anos de serviço público na esfera internacional e outro ainda lhe agradeceu pela liderança, que deu voz ao(s) (países do) Sul, a questões de Inteligência Artificial e à fome no Mundo. Depois, outro jornalista, lembrou que Guterres admitiu que os poderes do Secretário-Geral eram o maior bluff das relações internacionais e que a revista ENVOY (https://envoymag.com/analysis/a-ferrari-driven-like-a-fiat-500-antonio-guterres-and-the-limits-of-the-secretary-generalship/) comparou Guterres a um piloto de fórmula 1 a quem pedem para conduzir um Fiat 500 dos anos 60 como se fosse um Ferrari. Feita a introdução, chegou a pergunta: 10 anos depois, a função (de Secretário-Geral) é um bluff ou uma “corrida impossível”? A metáfora do Fiat e do Ferrari ilustra bem a dificuldade do cargo e Guterres não fugiu à “provocação”: “O bluff não é a função em si. Mas a verdade é que, de facto, o Secretário-Geral não tem poder. Não temos exército, não temos serviços de informação e não há muito dinheiro, como todos sabem. Há duas coisas que tenho, e creio que tenho usado essas duas coisas. Uma é a voz. E é muito importante que o Secretário-Geral da organização seja uma referência na defesa, em todas as circunstâncias e sem dois pesos e duas medidas, da Carta (da ONU), do Direito Internacional, do Direito Internacional Humanitário e dos valores da ONU. E isso, acredito, tem sido feito”.

Não haverá paz no Médio Oriente sem Estado da Palestina

Na declaração que antecedeu as perguntas dos jornalistas, Guterres referiu preocupações face à Inteligência Artificial e às guerras Ucrânia-Rússia e no Médio Oriente. Lembrou que não haverá paz no Médio Oriente sem a concretização da solução “dois Estados” e que é tempo de um cessar-fogo no leste da Europa.

Questionado sobre a discrepância do discurso entre a solução “dois Estados” e a realidade no terreno, Guterres, coerente, respondeu: Estamos extremamente preocupados com a situação atual. Em primeiro lugar, reconhecemos os esforços, principalmente do Sr. (Nikolay) Mladenov (dirige o Conselho para a Paz), para fazer avançar as duas etapas do plano de paz elaborado. E é evidente que Israel não aceita a implementação do plano de paz tal como está actualmente concebido. Ao mesmo tempo, continuam a ocorrer ataques em Gaza e sérias ameaças à população civil da região. Na Cisjordânia, por outro lado, verifica-se uma anexação gradual e violenta por parte dos colonos, por vezes com o apoio das forças de segurança, o que é absolutamente intolerável. E, ao mesmo tempo, o lançamento de novos colonatos que, se forem concluídos, poderão dividir o território em dois, é obviamente totalmente contrário ao direito internacional e representa um sério risco para a paz no Médio Oriente. É tempo de parar com esta anexação gradual. É tempo de parar com quaisquer ações que possam levar à limpeza étnica a que se referiu. E é tempo de criar as condições para que a solução de dois Estados seja novamente seriamente considerada”.

É por manter esta coerência, e coragem, que Guterres é “persona non grata” em Israel.

Comunidade internacional deve um “mea culpa”

António Guterres com famílias deslocadas devido à guerra em Dekweneh, Beirute, Líbano, 14 de Março de 2026. Foto: Haidar Fahs/UNIFIL

António Guterres foi também confrontado com as várias tragédias que atravessam os seus dois mandatos: “Se pudesse falar diretamente com as pessoas cujas tragédias não conseguiu impedir e que depositavam todas as suas esperanças na ONU, de Gaza ao Líbano e ao Sudão, o que lhes diria? Sente que lhes deve um “mea culpa”?

Guterres responde apontando o dedo à “comunidade internacional”: “Culpa” significa que sou responsável pelo que lhes acontece. Por isso, não creio que a questão seja uma expressão de “mea culpa”, pois tenho lutado consistentemente pelos direitos dessas pessoas. O que posso dizer é que, em nome da comunidade internacional, há um “mea culpa” que precisa de ser expresso, porque a comunidade internacional tem-se mostrado indiferente ao sofrimento destas pessoas muitas vezes, e isso é absolutamente intolerável. E vemos, por exemplo, como ocorreu com os desenvolvimentos da crise no Golfo, uma tendência para esquecer o que se passava em Gaza ou na Cisjordânia, e a nossa posição tem sido muito clara. Não haverá paz no Médio Oriente sem a solução da crise israelo-palestiniana, e não haverá paz no Corno de África se a crise do Sudão não for resolvida”.

Legado

Quando lhe perguntam pelo legado dos 10 anos como Secretário-Geral, Guterres não hesita: “Estamos a alcançar a paridade entre mulheres e homens nas Nações Unidas. Já temos paridade ao nível da gestão de topo da organização, temos paridade entre os nossos Coordenadores Residentes em todo o mundo e estamos agora a alcançar a paridade em todo o quadro de pessoal internacional da ONU. E penso que isto é, no mundo de hoje, uma verdadeira revolução, e fico muito feliz por a ONU estar a dar o exemplo de que só com a plena igualdade entre mulheres e homens será possível ter um mundo mais pacífico e mais justo”.

Após 10 anos em Nova Iorque, António Guterres não tem dúvidas da necessidade de alteração da arquitectura de poder na ONU: “(…) temos poderes que, eles próprios, violam o Direito Internacional e sentam-se no Conselho de Segurança. Isto tem paralisado o Conselho de Segurança, como sabemos. É por isso que a reforma do Conselho de Segurança tem de ser uma prioridade absoluta”. Não por acaso, Guterres deixou um alerta recente: “Estamos em 2026 – não em 1946”.

Voz forte e corajosa

Faltam pouco mais de três meses para António Guterres passar o testemunho ao próximo Secretário-Geral das Nações Unidas. Foi um tempo em que Portugal teve visibilidade internacional através do desempenho de Guterres. Foi um tempo em que António Guterres manteve aberta a porta do diálogo, com apelos constantes ao multilateralismo e, mesmo quando maltratado, por alguns líderes mundiais, não vergou e manteve o rumo. Foi sempre uma voz forte e foi corajoso quando se referiu ao ataque do Hamas a 7 de Outubro de 2023 ao dizer que o ataque do Hamas não tinha caído do céu. Outro momento foi quando o governo israelita cortou relações com o Secretário-Geral. Guterres não vergou e essa coragem é notável. Israel tem desenvolvido uma “guerra sem quartel” contra a ONU, no que tem contado com a ajuda de Donald Trump.

Talvez António Guterres tenha aprendido alguma coisa depois de, em 2017, ter pedido a Rima Khalaf, secretária executiva da ESCWA (Comissão Económica e Social da ONU para a Ásia ocidental), para que a ESCWA retirasse a publicação de um relatório que acusava Israel de ser um Estado de apartheid. Guterres estava há pouco tempo em funções e, nessa altura, as pressões parece que produziram efeito. Rima Khalaf demitiu-se. Longe vai o tempo (2020) em que o World Jewish Congress distinguiu António Guterres com o Theodor Herzl Prize, considerando-o “um verdadeiro e dedicado amigo do povo judeu e do Estado de Israel”. Ainda mais longe, Outubro de 2016, quando a imprensa israelita publicava odes a Guterres (https://www.jpost.com/israel-news/politics-and-diplomacy/israeli-confidants-guterres-friend-of-israel-469589?utm_source=chatgpt.com).

O que ficou a faltar

O que ficou a faltar nestes 10 anos foi os portugueses poderem conhecer melhor o trabalho de António Guterres na mais alta função das Nações Unidas. Fez-se um enorme “foguetório” quando António Guterres foi o escolhido, mas depois rapidamente foi esquecido. Tirando as notícias que nos foram chegando através das agências internacionais, televisões e jornais estrangeiros, tivemos apenas esporádicas entrevistas a Guterres e presença de jornalistas portugueses em Nova Iorque quando políticos nacionais foram às Nações Unidas. Infelizmente (se calhar, vergonhosamente), ainda há “critérios editoriais” que não valorizam o que é importante. Como diria Guterres… é a vida!

Pinhal Novo, 18 de Setembro de 2026

01h30

jmr

Deixe um comentário