Aos jovens do meu país

Foto retirada do Facebook sobre as acampadas. Não refiro o autor porque desconheço quem é.

Confesso que estava a ficar desalentado. Com (nem todos) os jovens, artistas, filósofos e outros intelectuais. Têm andado arredados – ou não lhe têm dado visibilidade – do debate público sobre os mais diversos assuntos.

E confesso também que, mea culpa (porque sou jornalista, embora não seja directamente responsável…), quase nunca são convidados para ir a televisões, rádios e jornais. Acontece com muitos temas: os directamente envolvidos e afectados raramente são ouvidos. Apesar dessa evidência, ainda há quem se atreva a apregoar que as redacções estão dominadas pela tal “esquerdalha” a que não se cansam de acusar de todos os males do mundo.

Confessado esse temporário desalento, eis que tendo a mudar de opinião. Os jovens saíram à rua. O mote são os direitos à habitação e a uma vida digna. Alguém consegue recusar legitimidade a estas reivindicações?

Os das gerações mais velhas, como eu, devem um pedido de desculpa aos que agora estudam, estão a entrar ou entraram recentemente no mercado de trabalho. Não um pedido de desculpa por termos feito algo propositadamente errado, mas por não termos sabido fazer o mais acertado e por termos deixado o poder em mãos que nunca quiseram, de facto e com muita força, construir políticas que ajudassem a resolver os problemas da vida real.

É uma enorme tristeza ver os jovens a sair do país. Não por quererem conhecer o mundo – isso é fantástico – mas porque são obrigados a procurar trabalho e remuneração digna fora de Portugal. Afinal que país construímos para os nossos jovens? Afinal que país vos estamos a legar?

Que país é este que não consegue ser porto seguro e local de futuro para os nossos jovens organizarem vida? Não, não estou a dizer que antes de Abril é que era bom. Não, não era. Era muito pior. Mil vezes pior. Não alinhem em discursos aparentemente sedutores que apenas pretendem um regresso ao tenebroso passado. O caminho a fazer é no sentido oposto.

O caminho a fazer é o que canta Sérgio Godinho: a “Paz, habitação, saúde, educação…”, a Liberdade a sério. Não é o caminho dos que agora gritam no Parlamento: “encostem-nos à parede!” ou daqueles que vos acusam de egoísmo.

As críticas mais boçais e palermas dirigem-se à aparência dos jovens que se manifestam, às roupas que vestem e à cor do cabelo, ou por causa dos piercings que usam. Não liguem. Prefiro mil vezes os vossos cabelos coloridos e os piercings, e as vossas vozes com sotaques de outras origens, do que a de alguns que gritam no Parlamento, engravatados, olhos esbugalhados e cara vermelha de raiva. Arrepiei-me sempre que vos ouvi a cantar o “Grândola Vila Morena”. E ainda bem que alguns artistas se juntaram. É para isso que nos fazem falta. E gostei, quando mais povo se juntou, em Lisboa e no Porto, e noutras cidades, para vos dizer que não estão sozinhos.

Quem nunca usou cabelo comprido, ou rapado, ou colocou um piercing, ou pintou o cabelo de cor-de-rosa-ou azul, ou usou calças justas, à boca-de-sino, ou rasgadas, quem nunca fumou uma ganza ou apanhou uma bebedeira, quem nunca fez directas em festas, quem nunca faltou às aulas para ir ao salão de jogos, quem nunca mentiu aos pais para fazer algo que fugia à norma, quem nunca… esses que “nunca”, nunca foram realmente jovens, para mal deles e dos filhos que tiveram ou ainda hão-de ter.

Há quem diga da bancada do governo que não vai ouvir os gritos da rua. Mas devia. O povo não se faz ouvir apenas de quatro em quatro anos quando coloca um voto na urna. Essa é uma democracia necessária, mas é apenas uma parte muito, muito incompleta, de uma democracia plena.

Os jovens que se têm manifestado em Portugal nos últimos dias fizeram-no de forma absolutamente pacífica. Apesar de não haver qualquer semelhança com o que acontece em França, foram os responsáveis políticos os primeiros a fazer uma analogia para dizerem que há quem queira importar instabilidade. Quem o diz, parece pretender isso mesmo, para depois ter argumentos que justifiquem acções mais musculadas. Já lá vai o tempo em que três pessoas juntas era considerado um ajuntamento. A Constituição protege o nosso direito de reunião e manifestação. Leiam Garcia Pereira em https://noticiasonline.eu/acampadas-quem-afinal-cometeu-abusos-e-violou-a-lei-e-a-constituicao-foi-a-policia-e-nao-os-manifestantes/ .

Se alguém extravasou a normalidade foi a polícia e as declarações de alguns responsáveis. Pedro Duarte, presidente da Câmara do Porto, prometeu ser “implacável”, num claro e desnecessário desafio a quem se manifestava. Felizmente, quem se manifestava, não mordeu o isco. O ministro da administração interna, Luís Neves, foi igualmente desafiante ao “decretar” o fim das acampadas. Espero inteligência na resposta.

Não deixa de ser curioso que em Portugal e França os ministros do interior/administração interna sejam antigos polícias (Laurent Nuñez foi prefeito da polícia de Paris; Luís Neves foi director da PJ). Esperemos que as semelhanças se fiquem por aí, em termos de violência no espaço público e em termos de violência policial, incluindo – em França já suficientemente documentado – infiltrados da polícia entre os manifestantes para gerar caos e violência.

Não tenham medo. Se tiverem medo agora, enquanto jovens, vão ter medo o resto da vida. Mas sejam inteligentes, resistam às provocações. Já perceberam de onde e como essas provocações podem vir. Qualquer poder lida melhor com a violência do que com a inteligência de quem se lhe opõe.

Aos jovens do meu país, por muito pouco que isto signifique, quero dizer que estou a gostar de vos ver a lutar pelo futuro. Quem quer futuro, luta por ele.

País que não tem uma juventude com uma dose assinalável de rebeldia, será um triste país, amordaçado por uma qualquer ditadura e costumes chamados de brandos, ou um país de desistentes. Os jovens são sempre a força transformadora.

Sei que não precisam que vos diga tudo isto, mas ficaria mal comigo próprio se o não dissesse.

Pinhal Novo, 22 de Outubro de 2026

00h30

jmr

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