In dubio dá-se umas bastonadas aos manifestantes

Intervenção da polícia na manifestação na Praça D. João I, Porto, 25 de Outubro de 2026. Foto: Egidio Santos

A direita caceteira e ressabiada está a revelar-se em todo o seu esplendor: querem porrada em tudo o que mexe, de preferência na “esquerdalhada” – esses jovens malcheirosos, drogados, que não tomam banho e não trabalham, e atrevem-se a manifestar nas ruas. Esta direita caceteira, ressabiada, saudosista de Salazar e do tempo colonial, tem dificuldade em perceber que o problema da habitação é transversal e afecta muito particularmente quem é jovem e quer conquistar autonomia e ter vida própria sem depender dos pais. As referências ao aspecto – cabelos, roupas e adereços – dos jovens, só podem vir de gente malformada e de baixo QI, e revelam a falta de argumentos sólidos quanto à essência do protesto.

Heranças

Sempre ouvi os meus pais dizerem que os sacrifícios que faziam era para os filhos terem uma vida melhor. Felizmente, temos. Também os meus pais tiveram uma vida melhor que a dos meus avós. O que tenho muita dificuldade em perceber é aqueles que criticam os jovens por lutarem pelo direito à habitação e por uma vida digna, com o argumento de que os nossos jovens devem ter uma vida igual à que eles dizem ter tido, repleta de esforço e sacrifícios: emigração, trabalho duro, décadas a aforrar para construir uma casa, e por aí fora. Ou seja, os que criticam os jovens que hoje se manifestam, não querem que os seus próprios filhos tenham uma vida melhor; querem que tenham uma vida igual à que eles, alegadamente, tiveram, como se isso fosse um fatalismo inevitável e uma necessidade para obter um certificado de vida digna. De passagem, insinuam que os jovens querem que o Estado lhes dê o que deveriam ser eles a conseguir através do trabalho. Não é verdade. Aliás, o problema é precisamente esse: o rendimento do trabalho não chega para pagar a renda ou pensar em comprar uma casa. E isto não se aplica apenas aos jovens. Basta atender ao preço das rendas e ao valor dos salários.

Os sociólogos têm um imenso campo de trabalho se quiserem estudar os perfis (excluindo os falsos – e são muitos) de extrema-direita que apoiam a acção da polícia nas recentes manifestações e que acha que só se perderam as que caíram no chão, porque os “drogados”, a “bandidagem” e “os que não querem trabalhar” é assim que devem ser tratados. Um apoio que arrasta uma espécie de desumanização dos manifestantes: não são gente e só merecem porrada.

A extrema-direita e a direita-extrema promovem uma cultura de ódio. Odeiam tudo o que está relacionado com o 25 de Abril, defendem o autoritarismo e o “respeitinho” ao poder, e ficam ainda mais irritados quando ouvem cantar o “Grândola Vila Morena”.

Violência policial

É preciso dizer, por muito que os responsáveis da polícia digam o contrário, as manifestações têm decorrido de forma pacífica, com jovens e menos jovens nos locais de manifestação sem provocar qualquer distúrbio e até a recusar o confronto com a polícia. Montaram tendas, cantaram, exibiram cartazes, fizeram assembleias. Quanto à carga da polícia, mesmo que os responsáveis da polícia digam o contrário e tentem encontrar um pino atirado ou uma placa de cartão – vejam lá o enorme perigo… atirado aos polícias, não houve proporcionalidade. Manifestantes pacíficos, resistência passiva, não provocaram distúrbios, não atacaram a polícia. Foram confrontados com polícias que os agrediram com escudos e à bastonada, no Porto utilizaram cães-polícias e, em Lisboa, para além de os expulsarem do Rossio, moveram-lhes uma perseguição nas ruas adjacentes. Houve manifestantes detido e alguns feridos.

Em Portugal, há muito claramente quem esteja a salivar por poder dar umas fortes cacetadas nos manifestantes e por ver as ruas de Portugal a arder como acontece noutros locais com outros manifestantes.

Com a mentalidade policial – potenciada com um ex-polícia a liderar o Ministério da Administração Interna – que considera que a actuação da polícia foi proporcional à actuação dos manifestantes, imaginemos como seria a actuação da mesma polícia se houvesse em Portugal um nível de violência como o que existe em França.

A uma Democracia exige-se que as questões políticas sejam dirimidas com diálogo e não com bastonadas ou cargas policiais.

A “caravana” pode descarrilar

A situação portuguesa é também o epílogo da falta de democracia social. A atitude do poder político – este governo e os anteriores – face a manifestações, traduz-se numa expressão conhecida: “os cães ladram e a caravana passa”. É a demonstração perfeita do desprezo com que o poder político olha para o povo. Na perspectiva do poder, isto significa que as pessoas fazem uma manifestação, depois guardam os cartazes e vão para casa, tudo na paz do senhor. Nada muda. Existe a possibilidade de um dia as coisas não funcionarem assim e nesse dia os culpados não são os manifestantes, são aqueles que teimaram, repetidamente, em não ouvir os gritos da rua. Pretender que o povo apenas se manifeste com o voto na urna é uma ilusão.

Silêncios

Com o país neste Estado, os juízes do Tribunal Constitucional também não deviam fazer como se não fosse nada com eles. Já perceberam que há dúvidas quanto à interpretação das leis em vigor e da sua harmonia com a Constituição. É tempo de dizerem alguma coisa sem esperar que alguém lhes pergunte. Ou acham que não têm esse dever? Se já tivessem sentenciado que direitos prevalecem e em que condições, muitas bastonadas teriam sido evitadas.

Quanto ao Presidente da República, tem o seu primeiro teste de fogo. E está a falhar. Aquele que António José Seguro derrotou nas urnas já disse de que lado está. Queremos ouvir o Presidente em quem muitos portugueses votaram para travar a extrema-direita.

Pinhal Novo, 26 de Outubro de 2026

02h00

jmr

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