
Enquanto Donald Trump se entretém com a ridícula tarefa de alterar nomes de lagos, estreitos e oceanos, divertindo-se com diatribes nas redes sociais e, em simultâneo, lança bombas sobre o Irão, Xi Jinping esteve dois dias no Egipto. As relações formais Egipto-China comemoraram 70 anos. Em 1956, a China dava os primeiros passos sob a liderança de Mao Tsé Tung e o Egipto iniciava um tempo liderado por Gamal Abdel Nasser. O assumir dessas relações diplomáticas significou que o Egipto acabou por ser o primeiro país árabe e africano a reconhecer a República Popular da China. A data foi assinalada com o regresso de Xi Jinping ao Cairo, dez anos depois da primeira visita de Xi. E o que foi Xi Jinping fazer ao Cairo?
O Egipto tem sido um espectador, atento, da guerra contra o Irão. A China, maior parceiro comercial do Irão, respondeu à ameaça de sanções norte-americanas (aos países que recusassem o isolamento económico do Irão) dizendo que iria defender os seus interesses na região, entenda-se que irá fazer os negócios que muito bem entenda com o Irão. A China tem fortes interesses económicos no Egipto e o país dos Faraós pode estar já a sofrer os efeitos dessa ameaça norte-americana devido a sanções anunciadas por Washington contra o ramo do segundo maior banco egípcio nos Emirados (Banco Misr), acusado de manter operações financeiras com Teerão. Na página de Internet do Banco, com data de 30 de Agosto, está a informação de que as operações nos Emirados Árabes Unidos decorrem (ou decorriam…) com normalidade.
A Guerra contra o Irão esteve no centro das conversas entre Xi e Sissi e isso ficou expresso nas comunicações que foram sendo reveladas à imprensa. A anteceder a chegada de Xi Jinping, Abdel Fatah Al Sissi publicou um texto na imprensa sublinhando que os dois países são membros dos BRICS e pretendem reforçar o papel do Sul Global.
A presença de Xi no Egipto enquadra-se no objectivo chinês de alargar as ligações com países que têm relações próximas com os Estados Unidos, caso do Egipto, que tem beneficiado de enorme e prolongada ajuda militar norte-americana, mas que mantém cooperação militar com a China. A China tem fortes interesses económicos na zona económica do Canal do Suez, financiou grande parte da nova capital administrativa do Egipto (a 50 km do Cairo) e as exportações chinesas para o Egipto, nos primeiros sete meses de 2026, apresentaram um excedente comercial de 12 mil milhões de dólares. Nesta visita, as agências internacionais admitem a assinatura de vários acordos envolvendo inteligência artificial, transportes e energia, mas os detalhes não foram divulgados.
Esta foi a segunda visita de Xi Jinping ao Egipto e é muito interessante verificar que, aquando da primeira visita, em 2016, para além do Egipto, o presidente chinês foi ao Irão e à Arábia Saudita, três países alvo do interesse chinês na região e que neste momento são países fulcrais na guerra que varre o Médio Oriente. Tal como a Arábia Saudita, o Egipto é outro país da região a dar fortes sinais de procurar alternativas ao apoio de Washington e o presidente egípcio não deixou de sublinhar a sua “política externa independente”.
No Cairo, as palavras do presidente chinês revelam a estratégia de Pequim: “Devemos defender o princípio segundo o qual os povos do Médio Oriente são senhores do seu próprio destino e opormo-nos às ingerências externas” (AFP). Xi, quase a fazer lembrar Obama, no célebre discurso do Cairo (“A New Beginning”), em Junho de 2009: “Nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto por uma nação a outra.”
O passado recente
Em Março de 2023, a China acolheu um encontro Irão-Arábia Saudita, que sentou à mesa representantes dos dois rivais regionais que, entre outras divergências, apoiavam diferentes grupos nas guerras no Iémen e na Síria. A mediação chinesa concluiu um processo que levou ao Acordo de Pequim, com os dois países a comprometerem-se a restabelecer relações diplomáticas e a reabrir as respectivas embaixadas.
O que parecia impossível, a diplomacia chinesa tornou possível, mas o sinal maior foi o de que numa região do mundo onde a diplomacia norte-americana era a mais influente, a China marcou pontos. A China revelou-se um mediador equidistante e eficaz, enquanto os Estados Unidos há já algum tempo que perderam a aura e a capacidade de mediadores, tal o alinhamento com Israel, Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo.
A China deixou de ser apenas um importante comprador de petróleo, passou a ser uma diplomacia influente que consegue dialogar com países rivais tendo o mesmo nível de aceitação pelas partes envolvidas em conflito.
Para o Irão e para a Arábia Saudita, a assinatura do Acordo de Pequim tinha uma “adenda” não menos importante: a mensagem dirigida a Washington de que havia alternativa à influência e mediação de Washington.
Os Estados Unidos mantiveram a influência militar dominante na região, através da venda de equipamento militar e das muitas bases militares e acordos de segurança com os diferentes países, mas passavam a contar com a China no tabuleiro diplomático. A influência norte-americana não vai desaparecer num futuro muito próximo, mas está claramente a perder poder.
A China, já o sabemos, tem tempo e utiliza o tempo. Sem pressa. A influência diplomática ajuda a expandir a economia e as trocas comerciais. É uma influência com limitações, é certo, mas existe e está a crescer. Ao contrário dos Estados Unidos, Pequim não tem por hábito usar a força militar.
7 de Outubro
O ataque do Hamas a 7 de Outubro, veio dificultar as relações entre Irão e Arábia Saudita, mas o Acordo de Pequim, assinado alguns meses antes, continuou firme. Os dois países reabriram as embaixadas e o ataque do Hamas não foi motivo suficiente para um corte de relações diplomáticas. Ou seja, o Acordo está a ser respeitado, e foi reafirmado por ambos, mas a reaproximação tem uma agenda de matérias complexas que o ataque do Hamas tornou ainda mais difíceis.
A guerra em curso contra o Irão, desencadeada por Israel e Estados Unidos, veio também demonstrar que a arquitectura de segurança construída pelos norte-americanos na região do Golfo, não é tão eficaz quanto os parceiros árabes esperavam e esse pode ser um factor decisivo que conduza à busca de outras soluções e outro tipo de alianças. Não por acaso, em Agosto, a Arábia Saudita juntou-se ao Paquistão e Turquia num acordo de defesa que prevê que um ataque a um destes três países seja tratado como um ataque contra todos. Mais uma alternativa à segurança que os Estados Unidos proporcionam.
Aliás, é curioso verificar o falhanço sucessivo das opções estratégicas norte-americanas, quase uma tradição, na tentativa de manter uma influência consistente e duradoura no Médio Oriente.
O golpe CIA/MI6 que fez cair o governo iraniano em 1953, acabou por levar à revolução de 1979 que instaurou o actual regime iraniano e foi a fonte da enorme desconfiança iraniana em relação aos Estados Unidos; a invasão do Iraque em 2003 acabou por entregar o poder aos partidos políticos xiitas iraquianos aliados de Teerão; o apoio a Israel, nas várias frentes, empurra populações árabes para o campo de “ódio à América”; o recente ataque ao Irão acabou por hipotecar a simpatia dos países árabes do Golfo (que não foram consultados e estão a sofrer as consequências) e empurra-os para outras soluções que garantam uma melhor segurança e capacidade de defesa, que não passa pelos Estados Unidos; os Acordos de Abraão, grande aposta de Donald Trump, para amarrar os países árabes (também Marrocos e o Sudão) a Israel e ao “novo Médio Oriente” de que Trump tanto se vangloria, parecem estar condenados a ser papel sem valor.
O Médio Oriente está a mudar, mas não há qualquer certeza de que a mudança seja na direcção para a qual Donald Trump tem apontado. Não sabemos como irá terminar a guerra com o Irão, nem como irá terminar a situação na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, mas sabemos que o principal adversário dos norte-americanos na corrida de fundo pela nova Ordem Internacional, a China, é um actor cada vez mais presente. É mais fácil trocar o fornecedor de mísseis, sistemas de defesa e aviões de guerra, do que fugir à arquitectura e dependência económica que alimenta milhões de pessoas. Provavelmente, já alguém explicou isto a Donald Trump.
Pinhal Novo, 3 de Setembro de 2026
02h00
jmr
