
27 de Outubro é a data das eleições legislativas em Israel. Seguir o que vai sendo dito pelos principais candidatos, é assistir a uma espécie de concurso sobre o que pior pode ser feito aos palestinianos.
Não por acaso, a imprensa israelita volta a trazer o tema do ataque do Hamas (7 de Outubro de 2023) para a ribalta e volta a falar-se da alegada responsabilidade de Netanyahu na forma fácil como o ataque palestiniano furou as barreiras de segurança israelitas.
A mulher de Netanyahu veio insinuar que havia em Israel quem tivesse tido informação prévia sobre o ataque e o próprio Netanyahu a dizer que os militares demoraram a acordá-lo no dia do ataque do Hamas. Sabendo como a questão do 7 de Outubro é sensível – uma verdadeiro e independente investigação está por fazer – o gabinete do primeiro-ministro libertou a “linha do tempo” da actividade de Benjamin Netanyahu nas horas que se seguiram ao ataque do Hamas. Os adversários de Netanyahu vão fazer das “responsabilidades no 7 de Outubro” uma questão central da campanha eleitoral.
Não por acaso, também, Netanyahu foi a Gaza (em 2 de Setembro) dizer que o trabalho ainda não está terminado, que Israel controla 60% do território e não vai ficar por aí: “(…) estamos a fazer tudo para atingir o nosso objectivo: o desarmamento do Hamas e a desmilitarização de Gaza. Gaza deixará de representar uma ameaça para Israel. Esse objetivo já foi alcançado em grande parte, e ainda há muito trabalho a ser feito – e vamos fazê-lo…”.
Limpeza étnica com todas as letras
O que Netanyahu ainda não consegue fazer é ser tão objectivo quanto o seu ministro da segurança interna. Ben Gvir assina uma proposta intitulada “programa nacional de trabalho para a transferência voluntária da Faixa de Gaza”, detalhada em 20 páginas (segundo a Agência France Press), que prevê o envio da população da Faixa de Gaza para outros países. Este ministro de extrema-direita, líder do partido Força Judaica quer expulsar 250 000 palestinianos por ano, prevendo terminar o processo em meia-dúzia de anos. Ben Gvir considera a proposta realista e disse que há vários países dispostos a acolher palestinianos de Gaza, mas não disse quais. A desfaçatez levou Ben Gvir a dizer que não se trata de forçar os palestinianos a sair de Gaza mas que “devemos incentivar a emigração dos habitantes de Gaza”: Para isso, Ben Gvir diz que deve ser criado um ministério da emigração no próximo governo de Israel. Bem Gvir esquece que quando são destruídas as possibilidades de sobrevivência num território, a saída da população desse território nunca pode ser considerada “voluntária”.
Colega de Ben Gvir no Governo, o ministro da defesa, Israel Katz, é do Likud – partido de Netanyahu – mas alinha com Ben Gvir e disse que Israel está pronto para transferir os palestinianos da Faixa de Gaza, desde que tenha luz-verde dos Estados Unidos.
Outro ministro radical, o das finanças, Bezalel Smotrich – líder do Partido do Sionismo Religioso – defende a limpeza étnica em Gaza e também na Cisjordânia. Entre as principais figuras do actual governo de coligação, só falta mesmo saber o que pensa Benjamin Netanyah, não havendo muitas dúvidas. Basta recordar a reacção de Netanyahu, ao lado de Donald Trump, quando Trump anunciou a “Riviera do Médio Oriente”.
Alternativa
As sondagens em Israel ainda não são esclarecedoras, havendo constantes oscilações. As leituras são feitas entre blocos a favor e contra Netanyahu. Quanto a partidos políticos, isoladamente, o novo partido de oposição, Yashar, liderado por Gadi Eisenkot (actual deputado, antigo chefe de estado maior das forças de defesa de Israel, perdeu um filho na guerra em Gaza em 2023, é visto como “centrista”, defende a separação de poderes e um país para todos os israelitas), é o preferido, com o Likud de Netanyahu a curta distância, mas qualquer deles muito longe de conseguir uma maioria e a precisar de alianças para governar.
Sobre o futuro da Faixa de Gaza, Gadi Eisenkot surge com uma visão diferente da que é assumida pelo actual governo. Em Maio de 2025, citado pelo jornal Times of Israel, afirmou: “se é correcto devolver os colonatos à Faixa de Gaza, a resposta é não” (…) “Não há necessidade de trazer os colonatos de volta a qualquer parte da Faixa de Gaza”. Outra vez citado pelo mesmo jornal numa entrevista ao “Meet the Press” no Canal 12, Eisenkot disse que após o “acontecimento assassino” do 7 de Outubro, “Israel não estava em condições de discutir a concessão de “um Estado e uma recompensa” aos palestinianos (…) “Penso que um Estado palestiniano é irrelevante depois de 7 de Outubro” (…) “Precisamos de ser cautelosos e construí-lo de baixo para cima.”
O líder do Yashar vê a Faixa de Gaza a ser governada por palestinianos, sem o Hamas, e discorda dos que querem acabar com a Autoridade Palestiniana.
As diferenças entre estes campos políticos são assinaláveis, faltando saber se o eleitorado israelita vai mudar de rumo e travar a tendência de voto cada vez mais à direita. Poderá ser difícil escapar a uma maioria de extrema-direita e direita-extrema (mesmo que o Yashar seja o mais votado), e isso cria uma natural expectativa sobre a atitude da União Europeia no relacionamento com Israel.
União Europeia
A limpeza étnica já não é teoria da conspiração, nem uma ideia exclusiva dos mais radicais. Há ministros de Israel que falam abertamente de propostas que o Direito Internacional classifica como crimes de guerra.
Se aqueles que apelam aos crimes de guerra vencerem as eleições em Israel e formarem governo, alguém em Bruxelas terá de perceber que passou o tempo das reacções suaves.
O que vai fazer a União Europeia? Ainda vai querer passar a ideia de que é possível aceitar como parceiros governos deste calibre? Ainda vai voltar a querer falar da “solução dois Estados” quando não há interlocutor? Vai a União Europeia manter o acordo de parceria com um governo que não respeita os direitos humanos nem o direito internacional? Vai a União Europeia manter uma relação que permite a um governo destes todos os privilégios possíveis e imaginários, apesar de não cumprir a letra do acordo?
José Manuel Rosendo
00h30
04 de Setembro de 2026
