
Os curdos da Síria sofreram um revés. Caiu por terra a ambição de criar uma zona autónoma, mesmo que integrada na Síria, e mesmo que não tivesse as características de “região autónoma” (como existe no Iraque) acomodada numa Síria federal. Aliás, a Constituição provisória em vigor na Síria, não permite essa solução “iraquiana” e estabelece que os cidadãos são iguais perante a lei em direitos e deveres, sem discriminação com base na raça, religião, género ou linhagem. Isso inclui os curdos e todos os outros grupos.
Durante mais de uma década, os curdos da Síria mantiveram a Administração Autónoma do Norte e Leste da Síria (AANLS). Rojava, a zona curda na Síria, aproveitou a guerra que começou em 2011 e a fragilidade do regime de Bashar Al Assad para constituir a sua própria administração. Seguiu-se a expansão da tomada de território por parte da organização Estado Islâmico em 2014 e os curdos responderam em Kobani, numa violenta batalha durante quatro meses. Expulsaram o Estado Islâmico, em Janeiro de 2015, e alguns meses depois foram criadas as Forças Democráticas da Síria (FDS), que juntou combatentes curdos e árabes e que, até agora, controlava o território da AANLS, depois de derrotar o Estado Islâmico, em 2019.
Curdos e Assad
Durante muito tempo, os curdos e o regime de Assad, mantiveram uma espécie de acordo tácito que permitiu não haver combates entre as respectivas forças. Aliás, o regime de Assad manteve em funcionamento uma base aérea em Qamishli (na zona da AANLS), alguns bancos sírios continuaram a funcionar e os próprios militares de Assad podiam circular em algumas zonas da AANLS com os curdos a não levantarem obstáculos. Também em Hassaké, curdos e militares de Assad ignoravam-se mutuamente.

Este entendimento entre os curdos e o regime de Assad passava muito pela produção de petróleo sírio que estava quase toda na zona curda e que os curdos vendiam, através de redes de contrabando, ao regime de Assad. Durante vários anos após a constituição da AANLS foi possível ver os comboios de camiões-cisterna carregados de petróleo a sair da zona curda em direcção às refinarias nas zonas controladas pelo regime de Bashar Al Assad.
Com a queda de Assad, em Dezembro de 2024, tudo mudou e o sonho de autonomia e autogoverno dos curdos da Síria terminou. Rapidamente o novo governo de Damasco fez saber que a Síria teria de ser um país para todos os sírios.
O recuo curdo
A mudança ficou registada no acordo firmado, em Março de 2025, entre o novo poder de Damasco, liderado por Ahmed Al Sharaa, e o líder curdo da Síria, Mazloum Abdi, também conhecido por Mazloum Kobani. Depois, um impasse, e o governo de Damasco avançou para os territórios curdos, conquistando território e em particular os territórios ricos em petróleo, forçando as FDS a um cessar-fogo e a um novo acordo em Janeiro de 2026. Na sequência deste acordo, o presidente sírio assinou um decreto consagrando a língua curda como língua nacional, uma medida histórica para os curdos sírios porque nunca assim foi desde a independência da Síria em 1946. Para além disso, Ahmed Al Saraa fez duas nomeações: um curdo de Qamishli foi nomeado governador da província de Hassaké e um comandante militar curdo foi nomeado adjunto do ministro da defesa para a região oriental da Síria.
O avanço das forças de Damasco levou à debandada dos árabes das FDS que ficaram reduzidas a cerca de 50 000 combatentes (segundo alguns analistas) quando chegou a ter 100 000, e o líder sírio já anunciou que os combatentes curdos não sírios, homens e mulheres, vão sair da Síria. Esta decisão faz parte do acordo entre curdos e Al Sharaa, mas coloca expectativa em relação ao que o presidente sírio irá fazer com os combatentes estrangeiros que estiveram ao seu lado na luta contra o regime de Bashar Al Assad.
Integração
O anúncio da saída dos curdos não sírios foi feito há poucos dias, quando Mazloum Abdi anunciou o processo de integração das instituições civis e militares curdas nas instituições do Estado sírio. Isto significa que a administração civil fica dependente da administração central, em Damasco, e que as forças militares são integradas no ministério da defesa (faltando saber como isso vai ser feito, nomeadamente quanto às combatentes das YPJ – Unidades de Protecção das Mulheres).
Esta mudança tem obviamente uma relação directa com o apoio que os Estados Unidos dão ao novo poder de Damasco, quando anteriormente apoiavam os curdos, em particular quando estes se revelaram a principal força de combate à organização Estado Islâmico.
Os curdos não tiveram força para fazer valer a vontade de autonomia. Ficou mais uma vez provado que as ambições de autonomia ou independência de um povo/território, só consegue resultados se existir um apoio externo.
Turquia e curdos do Iraque
Nas fronteiras, estas alterações no Curdistão sírio agradam particularmente à Turquia, forte apoiante do actual regime de Damasco. A Turquia considera que as YPG (componente curda das FDS) estão ligadas ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), que durante várias décadas manteve uma luta armada contra o poder de Ankara. Actualmente, decorre um processo político que ainda não se sabe o que vai dar, mas em que o líder do PKK, Abdullah Ocalan (preso desde 1999), apelou a depor as armas, o que o PKK já começou a fazer. A presidência turca rapidamente fez saber que a dissolução das FDS é crucial para a estabilidade da Síria, onde a Turquia mantém tropas, junto à fronteira, em zona curda, e diz que a retirada apenas acontecerá quando as ameaças de segurança forem eliminadas.
Os curdos do Iraque, que mantêm uma forte relação económica com a Turquia e que permitem uma presença militar turca no seu território (para combater o PKK), têm um sistema (capitalista e muito liberal, em que os dois principais partidos controlam os recursos e o poder político) completamente diferente daquele que os sírios curdos estavam a construir (confederalismo democrático) e que assentava na descentralização política através de assembleias e estruturas comunitárias, democracia directa e ecologia, com uma forte participação das mulheres. O presidente da Região Autónoma do Curdistão (Iraque), Nechirvan Barzani, foi a Damasco no início de Agosto falar com Ahmed Al Sharaa, a quem disse que apoia “uma Síria estável e unida, em que os direitos de todas as etnias e religiões sejam preservados”. Uma frase que deixa cair qualquer vislumbre de autonomia curda na Síria.
Al Sharaa e Mazloum Abdi
Para já, Ahmed al Shaara assume o objectivo de manter as actuais fronteiras da Síria, tendo feito a promessa de integrar e respeitar as minorias, deu um primeiro passo conseguindo o acordo com os curdos, mesmo que seja claro que não era essa a vontade dos curdos ou, pelo menos, não queriam um acordo nos moldes em que acabou por ser feito.

O líder curdo, Mazloum Abdi, é visto como um pragmático. Al Sharaa, num sinal de integração, chamou-o a conselheiro presidencial, uma forma de dizer aos curdos que estão próximos do presidente e ao mesmo tempo uma forma de manter o líder curdo por perto mas, citado pela Rudaw TV (Telegram, 22 de Agosto de 2026), Mazloum Abdi prefere viver no Curdistão: “ofereceram-me, e fui repetidamente encorajado por muitos funcionários do governo, a permanecer em Damasco, mas não chegámos a acordo. Prefiro viver e permanecer no meio do meu povo”. Apesar da notícia da “dissolução das FDS”, a questão ainda não está totalmente esclarecida e ainda não se conhecem os moldes em que isso acontecerá, com o próprio Mouzlam Abdi a alimentar as dúvidas, de novo citado pela Rudaw TV (22 de Agosto de 2026): “Não existe a ‘dissolução das Forças Democráticas Sírias’. As Forças Democráticas Sírias manterão a sua força e estrutura militar, operando dentro do exército sírio sob um sistema especial. Identidade militar e liderança: a integração das Forças Democráticas Sírias no exército sírio ocorrerá através da preservação da sua identidade, dos seus comandantes curdos e dos seus nomes derivados das suas regiões, como a Brigada Qamishli e a Brigada Kobani”.

Nos últimos anos, Mazloum Abdi conseguiu negociar com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, com Bashar Al Assad. Em público, falou quase sempre em curdo, num tom calmo e vestindo uniforme militar. Começou a luta no PKK (é um veterano do PKK), foi próximo de Abdullah Ocalan e acabou a ser o homem forte no Curdistão sírio, para onde foi enviado precisamente pelo PKK. Para a Turquia continua na lista dos “terroristas procurados”. Um próximo de Mazloum Abdi disse à Agência France Press que Mazloum Abdi “alia maleabilidade política e pragmatismo para servir a causa do seu povo”, e é daqueles que procuram a “possibilidade de construir”.
Em Damasco, a 25 de Agosto de 2026, onde anunciou a “nova fase” curda, Mazloum Abdi lembrou que as FDS “assumiram pesadas responsabilidades durante um dos períodos mais difíceis” para a Síria, “libertando muitas cidades e vilas do poder de Bashar Al Assad, e do terrorismo do Estado Islâmico”. Acrescentou que “as circunstâncias mudaram e o país e os curdos da Síria “entraram numa nova fase, sob o signo da paz e da participação”. A luta passa agora por “fazer inscrever na Constituição os direitos legítimos do povo curdo”, concluiu Mazloum Abd. Uma Constituição que só deverá entrar em vigor lá para 2030 quando terminar o “período de transição”.
Quanto a Al Sharaa, obtém uma vitória com a integração dos curdos, mas falta-lhe fazer a paz com os alauitas, evitar que os drusos se deixem instrumentalizar por Israel e expulsar os israelitas do território sírio, para além de recuperar os Montes Golan.
Uma questão que não pode ser desvalorizada é a da eventual capacidade da organização Estado Islâmico na região. As FDS desenvolveram capacidades de contraterrorismo que mantiveram praticamente sem expressão a actividade do Estado Islâmico, mas a recente libertação de muitos elementos que estavam nos campos de prisioneiros controlados pelas FDS, podem conduzir ao ressurgimento da organização e da sua capacidade. Nos últimos meses existem alguns sinais de que isso possa acontecer faltando saber qual a capacidade do novo regime sírio para se opor aos ataques da organização que os curdos combateram de forma exemplar.
Outro desafio é o dos combatentes estrangeiros que acompanharam o Hayat Tahrir Al Sham (HTS) na tomada de Damasco e no derrube de Bashar Al Assad. Em Maio de 2026, o International Crisis Group dava conta de cerca de 5 000 combatentes estrangeiros, aliados do HTS, que permanecem na Síria. Muitos deles são fundamentalistas e defendem uma Síria em que a Sharia prevaleça. A orientação que Al Sharaa tem dado até agora não vai nesse sentido, mas ainda não é seguro afirmar qual o verdadeiro caminho que a Síria vai seguir.
Apesar do enviado especial norte-americano para a Síria, Tom Barrack, ter considerado que a dissolução das FDS é algo “absolutamente histórico” e que este é um caso de verdadeira integração “sem vencedores, nem vencidos, em que antigos adversários com pontos de vista divergentes, construíram uma solução diplomática visando reforçar a soberania da Síria”, este é sem dúvida um final de sabor amargo para os curdos da Síria.
É certo que uma eventual independência dos curdos, na Síria e noutros países, é projecto que o líder histórico, Abdullah Ocalan, há muito abandonou. Mas a autonomia, embora integrada na Síria, era algo que os curdos na Síria aspiravam e por isso construíram, ao longo dos últimos anos, a AANLS. Por agora, esse sonho da autónima curda na Síria parede ter terminado. Os curdos estão habituados a esperar.
Pinhal Novo, 31 de Agosto de 2026
02h00
jmr
