Um dia “normal” na Palestina

O deputado israelita Tzvi Succot a destruir um memorial aos mártires palestinianos numa aldeia da Cisjordânia. Foto do X de Tzvi Succot

Há dias “normais” na Palestina? Há! São dias em que há nomes acrescentados à lista de mortos na Cisjordânia ocupada e na Faixa de Gaza; dias em que os postos de controlo israelitas impedem uma ida ao médico, uma ida à escola, uma visita à família; dias em que há notícia de ataques com drones ou incursões do exército israelita em territórios palestinianos; dias em que as ambulâncias são impedidas de chegar em tempo útil aos feridos que os ataques israelitas deixam pelo caminho; dias em que os colonos israelitas atacam as aldeias palestinianas incendiando e pilhando as casas, os carros, os campos, os animais, as oliveiras… são assim os dias “normais” na Palestina.

Todos os dias – e quando escrevo todos os dias é mesmo todos os dias – as agências internacionais de notícias dão conta do que atrás ficou escrito. Talvez devido a essa frequência, muitas dessas notícias não chegam a ser notícia. Isto é: os órgãos de informação optam por não as publicar com o argumento de que não há novidade em relação a outros dias em que as notícias são semelhantes. E se, ao caudal informativo das agências internacionais juntarmos a imprensa israelita, teremos todo um outro mundo em tempo de quase campanha eleitoral (eleições a 27 de Outubro), com os principais candidatos a digladiarem-se para ver quem apresenta a proposta mais danosa para os palestinianos.

Algumas notas sobre o dia 25 de Agosto

Não houve nenhum motivo especial para vos dar o exemplo de um dia “normal” na Palestina. Foi o dia 25 de Agosto, porque foi quando me apeteceu escrever este texto, mas garanto que é um dos dias mais calmos e só peca por defeito.

Vejamos então o que aconteceu:

Um deputado israelita, Tzvi Succot, do Partido Sionista Religioso, de extrema-direita (liderado por Bezalel Smotrich), decidiu destruir um memorial à memória dos mártires palestinianos numa aldeia da Cisjordânia ocupada. Tzvi Succot justificou o acto dizendo que já há alguns dias que pedira ao exército para retirar os monumentos que celebram os terroristas responsáveis por ataques contra israelitas nas aldeias de Madama e de Burin. Tzvi destruiu o memorial à marretada, enquanto os acompanhantes gravavam em vídeo para depois publicar nas redes sociais. Os militares que o acompanharam limitaram-se a assistir.

O líder da aldeia palestiniana de Madama disse que o memorial tinha os nomes de mártires da aldeia caídos durante a batalha de Karameh (1968), durante as duas Intifadas e de outros mártires em ocasiões posteriores.

O exército israelita disse que foi enganado e manipulado por Tzvi Succot. O primeiro-ministro israelita disse, em comunicado, que “fazer justiça pelas próprias mãos, em particular quando se trata de personalidades públicas, é uma prática repreensível que impede o exército de se concentrar nas missões de luta contra o terrorismo”.

Tzvi Succot publicou um vídeo na sua conta da rede X mostrando as marretadas com que destruiu o memorial e acrescentou: “Toda a criança que vê todos os dias um monumento gigante que glorifica assassinos de judeus sonhará em ser um terrorista”;

Também na Cisjordânia ocupada, jornalistas da Agência France Press foram agredidos por colonos israelitas quando faziam a cobertura de uma acção de activistas israelitas solidários com os palestinianos, na aldeia de Jannatah, próximo de Belém. Cinco pessoas ficaram feridas e alguns carros foram vandalizados. Os militares israelitas não travaram as agressões dos colonos mas tentaram afastar os activistas e tirar-lhes as câmaras com o argumento de que estavam numa “zona militar fechada” sem autorização;

“A UNRWA está nas nossas mãos”

Em Jerusalém Oriental, Israel evacuou um centro de formação profissional da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Apoio aos Refugiados Palestinianos). O centro de Kafr Aqab, entre Kfar Aqb e o campo de refugiados de Qalandia, foi criado em 1952 e proporcionava anualmente formação a cerca de 340 palestinianos da Cisjordânia ocupada. O gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, disse em comunicado que Israel “não permitirá a uma organização cujos empregados participaram em actos de terrorismo e no massacre do 7 de Outubro, de operar no seu território e agirá contra ela por todos os meios disponíveis”. O ministro da segurança nacional, Itamar Ben Gvir, de extrema-direita disse que se fez história e partilhou uma foto da bandeira israelita içada no centro da UNRWA com uma legenda: “A UNRWA está nas nossas mãos”. Segundo a WAFA, agência de notícias palestiniana, uma criança foi ferida por militares israelitas no campo de refugiados de Qalandia;

A mesma WAFA deu conta de dois jovens palestinianos detidos nos arredores de Shuweika, a norte de Tulkarem. A operação militar israelita na zona estendeu-se ao comércio da zona e a detenções temporárias de jovens com a intenção de provocar medo; na área de Al Tha’la, a sul de Tubas, os colonos israelitas danificaram os painéis solares, cortando a electricidade a três famílias; o posto de controlo militar de Beit Iksa, a noroeste de Jerusalém Oriental, foi fechado sem aviso prévio, nem motivo aparente, deixando os habitantes da aldeia sem possibilidade de sair ou entrar; na aldeia de Duma, a sul de Nablus, os buldózeres israelitas destruíram telheiros e currais para ovelhas, arrancaram dezenas de árvores e terraplanaram algumas zonas; em Burin, também a sul de Nablus, os colonos israelitas cortaram linhas eléctricas, derrubaram postes de electricidade;

Na Faixa de Gaza, Israel não quer que as crianças lancem papagaios de papel. Telavive argumenta que o lançamento de papagaios pode ser um teste do Hamas que poderá querer repetir o que já foi feito anteriormente quando os papagaios foram lançados de Gaza com tochas incendiárias que provocaram incêndios nas terras em redor da Faixa de Gaza. Não deixa de ser curioso encontrar um paralelo da proibição de papagaios: foi no Afeganistão, por decisão dos Taliban.

Israel ameaça evacuar os locais de Gaza de onde são lançados os papagaios de papel e diz que poderá intensificar os ataques contra os responsáveis pelo lançamento dos papagaios. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos considerou “escandalosas” as ameaças israelitas;

Também na Faixa de Gaza, nas últimas 24 horas, os ataques israelitas no norte do território, provocaram três mortos e vários feridos.

De forma muito sintética, estes foram os acontecimentos do dia 25 de Agosto. Um dia em que, apesar dos mortos e feridos, e de toda a violência a que a população palestiniana foi sujeita, podemos considerar um dia relativamente tranquilo, um dia “normal”. Quem pensa que a violência e a repressão que Israel pratica contra os palestinianos “apenas” se traduz em bombardeamentos e tiros nas fases mais acesas da guerra, está enganado. Há um conjunto muito diversificado de acções que transformou o quotidiano palestiniano num verdadeiro inferno. Um inferno que arde há várias décadas.

Pinhal Novo, 27 de Agosto de 2026

02h00

jmr

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