
Olhando para o que se passa na Cisjordânia, com ataques cada vez mais frequentes de colonos israelitas a aldeias e vilas palestinianas, beneficiando da cumplicidade do exército israelita que, não raras vezes, acaba por prender quem se defende, não restam dúvidas quanto aos objectivos: tornar a vida dos palestinianos de tal forma insuportável que se sintam forçados a abandonar o território. O Plano, há muito que está em marcha. Certamente surgirá depois uma versão da história a dizer que os palestinianos fugiram. Já foi assim, em 1948, aquando da criação do Estado de Israel. Para os palestinianos foi a Nakba, a catástrofe.
Declarações e silêncios inqualificáveis
As acções de limpeza étnica na Cisjordânia decorrem sob os nossos olhos e o nosso silêncio. Um dia, seremos confrontados com o “facto consumado”. Ao mesmo tempo, a Faixa de Gaza definha, com os palestinianos atirados para tendas, sem condições de vida dignas, nem ajuda suficiente, a olharem para o céu à espera de novo ataque israelita. E têm razão para ter esse receio quando há um ministro israelita, Itamar Ben Gvir, a dizer que “assassinatos selectivos deveriam ser realizados todas as noites em Gaza. Matar 30 ou 40 deles” (…) “Não apenas aqueles que representam um perigo agora. São pessoas que não deveriam estar vivas”. Declarações proferidas durante uma entrevista num podcast de um antigo refém em Gaza. Ben Gvir ainda concluiu: “até lhes faço um elogio considerando-os (aos palestinianos de Gaza) seres humanos”.
São palavras difíceis de qualificar. A diplomacia, veja-se o caso de França, incisiva mas cautelosa, considerou as declarações “insuportáveis e desumanas”. O ministro dos negócios estrangeiros, Jean-Noel Barrot, disse também que o que está a acontecer na Cisjordânia “é absolutamente vergonhoso e deveria revoltar-nos a todos” e lembrou que Ben Gvir está proibido de entrar em França desde 23 de Maio. A reacção do chanceler alemão, Friederich Merz, foi no mesmo registo: “propostas inaceitáveis” (…) “apelos desumanos e contrários ao direito internacional”.
Quem não precisa dos punhos de renda da diplomacia, pode dizer que as declarações de Ben Gvir o colocam mais próximo da condição de monstro do que de ser humano. Já antes destas declarações vergonhosas, Ben Gvir fez muitas outras da mesma índole. Aliás, após o 7 de Outubro de 2023, foi ele que emitiu 250 000 licenças de porte de arma e comprou 10 000 espingardas automáticas para os colonos que agora pilham e vandalizam a Cisjordânia; é ele que pretende colocar um fosso com crocodilos à volta de uma cadeia israelita onde estão palestinianos; foi o partido de Ben Gvir que propôs a pena de morte para palestinianos acusados de “terrorismo” e foi Ben Gvir abriu uma garrafa de champanhe no parlamento quando a lei foi aprovada; foi Ben Gvir que anunciou a construção de uma instalação específica para enforcar os palestinianos que venham a ser condenados; foi ele que desumanizou por completo o tratamento dos presos palestinianos, reduzindo a mínimos a alimentação, os cuidados médicos, as visitas, o tempo fora das celas, tudo em mínimos, aliado a espancamentos e a tortura.
Marcados como animais
Uma das imagens que simboliza o avanço da selvajaria na Cisjordânia foi publicada pelo jornal israelita Jerusalem Post. Trata-se de um dos palestinianos detidos pelo exército israelita em Qabatiya, esta segunda-feira, 17, que os militares israelitas marcaram com um número inscrito na testa (a outros foi nos braços…). Convém dizer que este (na foto) foi um dos cerca de 50 palestinianos detidos e considerados “suspeitos”, levados para interrogatório porque o exército queria evitar agressões aos colonos que se estão a instalar na zona (território palestiniano). Conhecendo a história e o sofrimento infligido pelos nazis ao povo judeu, e olhando agora para os números inscritos na testa e nos braços destes palestinianos, não há forma de evitar a comparação e, inevitavelmente, questionarmo-nos: como foi possível que se tivesse chegado a isto?

Nos últimos meses, colonos israelitas intensificaram as pilhagens e ataques a aldeias palestinianas, com o apoio do exército israelita. As casas, as oliveiras, o gado, as terras dos palestinianos estão a ser queimadas e roubadas, de modo a instalar o medo e a tornar a vida impossível.
Lá mais atrás, quando escrevo que tudo isto está a ocorrer “sob os nossos olhos e o nosso silêncio”, refiro-me ao cidadão comum, mas, principalmente, aos nossos líderes políticos, portugueses, europeus ou quaisquer outros. Chega de declarações para lavar a consciência e dizer que fizeram alguma coisa; chega de sanções faz-de-conta que provocam gargalhadas em Telavive. Aos líderes políticos exige-se que tomem decisões, que não se escondam nas palavras moles da diplomacia, que sejam coerentes na defesa dos Direitos Humanos e do Direito Internacional e que adoptem medidas eficazes para tentar travar a vergonha a que o mundo assiste na Cisjordânia ocupada e a vergonha que continua na Faixa de Gaza.
Duas sugestões de sanções
Numa “tribune” publicada no Le Monde de 18 de Agosto de 2026, o historiador Vincent Lemire lembra o que disse Tamir Prado, antigo director da Mossad (secreta israelita), sobre a situação na Cisjordânia, depois de visitar aldeias palestinianas atacadas: “A minha mãe sobreviveu à Shoa (Holocausto) e o que vi fez-me recordar o que aconteceu aos judeus no século passado. O que vi deixou-me envergonhado de ser judeu”.
Vincent Lemine desafia o governo francês a fazer alguma coisa para combater esta situação, mas o desafio pode ser dirigido a qualquer governo e também à União Europeia. Lemire lança duas propostas: actuar com sanções no âmbito do acordo de associação comercial União Europeia-Israel, suspendendo a ausência de taxas aduaneiras que beneficiam os produtos israelitas (cerca de 30% das exportações israelitas têm a União Europeia como destino) e suspender a isenção de visto que beneficia os israelitas que entram no espaço Schengen. Duas decisões que podem fazer pensar os israelitas e ajudar a perceber que o que Israel está a fazer em Gaza e na Cisjordânia deve ter um preço na relação com a Europa.
Voltando ao caso concreto de Itamar Ben Gvir, ele é ministro do governo de Israel. Não é o único ministro da área a que se convencionou apelidar de extrema-direita e está acompanhado por outros, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que, não fazendo inicialmente parte dessa área política, aproximou-se tanto dela que já não há quase nada que os distinga.
Em relação ao governo israelita, pouco haverá a fazer porque Israel tem eleições legislativas marcadas para Outubro, mas é bom sublinhar que a União Europeia aceitou continuar a relacionar-se com um governo que tem ministros deste calibre. O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, devia ter sido confrontado: não pode dizer que discorda de Ben Gvir (e de Bezalel Smotrich) e, ao mesmo tempo, mantê-los no governo e aproveitando as políticas destes ministros para satisfazer um eleitorado mais radical. É evidente que se Netanyahu tivesse sido confrontado com esta questão, uma outra se teria levantado: sem os ministros de extrema-direita o governo caía. Mas esse teria sido um problema de Netanyahu e não da União Europeia.
Um Plano antigo
Se alguém tiver dúvidas quanto ao “Plano” para a Cisjordânia ocupada, basta recuar à declaração de Naftali Bennett durante uma conferência em Jerusalém, em Janeiro de 2020: “o nosso objectivo é, dentro de 10 anos, ter um milhão de cidadãos israelitas a viver na Judeia e Samaria” (designação bíblica utilizada por israelitas quando se referem à Cisjordânia). Bennett, ex-primeiro-ministro e então ministro da defesa, é agora candidato a primeiro-ministro liderando a coligação “Juntos” que preetnde derrotar o likud de Benjamin Netanyahu, Este objectivo de Bennett, à época, significava duplicar a população de colonos israelitas na Cisjordânia.
E Bennett ainda fez questão de ser mais claro: “declaro oficialmente que a política do Estado de Israel é considerar a zona C como sua”. Nos Acordos de Oslo, a Cisjordânia ficou dividida em três zonas: A, B e C. A zona A sob controlo civil e de segurança palestiniano; A zona B com controlo civil palestiniano e controlo militar israelita; e a zona C (cerca de 60% da Cisjordânia) sob total controlo total de Israel.
Ninguém pode dizer que não sabia.
Pinhal Novo, 20 de Agosto de 2026
jmr
