30 meses depois de matar Hind Rajab, Israel abre investigação

No dia em que matou, pelo menos, mais dez palestinianos na Faixa de Gaza, Israel anunciou uma investigação da Polícia Militar a cinco casos que atraíram a atenção dos órgãos de informação a nível internacional: a morte de sete trabalhadores da World Central Kitchen (Abril de 2024); a morte de Hind Rajab, menina palestiniana de 5 anos de idade, e de mais oito pessoas (Janeiro de 2024); a morte de 15 palestinianos, incluindo pessoal médico e um trabalhador da ONU (Março de 2025); a morte de dois trabalhadores dos Médicos sem Fronteiras (Fevereiro de 2024) e outras duas mortes também de trabalhadores dos MSF (Novembro de 2023). Diz o exército israelita que foram verificados cerca de 150 “incidentes” desde Outubro de 2023.

Todas as vidas são importantes, e Hind Rajab é apenas uma entre muitos milhares de crianças assassinadas em Gaza desde Outubro de 2023. Num relatório publicado em Junho de 2026, a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU indica que as forças de segurança israelitas têm “visado deliberadamente menores palestinianos, submetendo-os a traumas em massa e violações sistemáticas dos seus direitos fundamentais.” Segundo Srinivasan Muralidhar, presidente da Comissão de Inquérito, a destruição provocada nos dois anos seguintes ao início das hostilidades inclui 20 mil crianças mortas e outras 44 mil feridas (registo entre Outubro de 2023 e 31 de Março de 2026).

No entanto, o caso de Hind Rajab, a menina palestiniana de 5 anos, é um caso que tocou mais profundamente, porque dele ficou o registo de um telefonema em que é perceptível o medo e o desespero desta criança, rodeada por familiares mortos, submetida a intenso tiroteio e sem que lhe chegasse qualquer ajuda a não ser a voz que a tentou confortar.

Os casos que o exército israelita anuncia que vão ser investigados são exemplo da política de genocídio e da limpeza étnica a que Israel procede nos territórios palestinianos (não apenas da Faixa de Gaza…), disparando contra tudo o que mexe, sem qualquer preocupação relativamente à vida dos palestinianos. O jornal israelita Haaretz lembra que os trabalhadores humanitários e o pessoal médico assassinados estavam em locais ou em veículos claramente sinalizados e a sua localização era do conhecimento do exército israelita.

O corpo de Hind Rajab foi encontrado, vários dias depois, num carro cravejado de balas. Para a história, ficou o registo de uma longa e desesperada chamada telefónica entre a menina e o Crescente Vermelho Palestiniano, a 29 de Janeiro de 2024. O ataque israelita ao carro em que a família de Hind Rajab fugia dos bombardeamentos à cidade de Gaza, matou mais seis membros da família e dois paramédicos que tentaram prestar auxílio numa ambulância igualmente alvejada pelo exército israelita. Como é habitual, num primeiro momento, o exército israelita negou responsabilidade e até negou que tivesse tropas no local. Agora já não vale a pena negar seja o que for e mais de 30 meses depois, considera que chegou o momento de abrir uma investigação, quando o mundo inteiro já sabe exactamente o que aconteceu. O comunicado do exército onde são aunciadas as investigações, refere que “os militares israelitas alvejaram um carro que se aproximava deles contrariando o aviso feito pelo porta-voz do exército aos residentes daquela área”.


A lição tirada de casos anteriores diz-nos que dificilmente alguém será considerado culpado. Os eventuais responsáveis poderão ser acusados, depois talvez absolvidos, ou talvez “condenados” a uns dias de prisão, quiçá a uma ligeira pena suspensa. Esperemos que a desfaçatez não permita chegar ao ponto de louvar quem disparou contra o carro da família de Hind Rajab e contra a ambulância que tentou ir em socorro. Isto não é ironia, é mesmo literal, porque estamos no ponto em que o alegado direito de defesa de Israel tudo permite.


Na página da Internet da Fundação Hind Rajab, criada em memória desta menina palestiniana, mas não apenas (“fundada durante o genocídio em curso em Gaza, a nossa fundação honra a memória de Hind Rajab e de todos aqueles que pereceram ou sofreram sob a campanha genocida israelita” – Link no primeiro comentário desta publicação), estão descritos os factos e identificados os responsáveis militares pela operação que matou Hind Rijab, a família que com ela viajava e os dois paramédicos que os quiseram socorrer.

O assassinato de Hind Rajab, da sua família e de dois paramédicos, deu origem ao filme “A Voz de Hind Rajab”, da cineasta tunisina Kaouther Ben Hania. O filme contém gravações originais do ataque nas quais se pode ouvir Hind Rajab a soluçar enquanto fala com o Crescente Vermelho: “Por favor, venham até mim, por favor, venham. Estou com medo”. Em pano de fundo ouve-se o tiroteio.

Pinhal Novo, 19 de Agosto de 2026

jmr

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