Guterres dá voto de confiança a Ahmed Al Sharaa

Antonio Guterres, secretário-geral das Onu e Ahmed Al Sharaa, presidente interino da Síria, em Damasco. Foto: SANA, agência de notícias oficial da Síria.

Desde 2009 que um secretário-geral das Nações Unidas não ia à Síria. O último foi Ban Ki-Moon. Dois anos depois, a Síria entrou numa guerra civil que galgou fronteiras e teve forte influência de actores externos. Foram quase 14 anos de guerra até que o ex-presidente Bashar Al Assad foi forçado a fugir de Damasco perante o avanço dos rebeldes do Hayat Tahrir al-Sham, liderados pelo actual presidente, Ahmed Al Sharaa.

António Guterres está a despedir-se das funções de secretário-geral das Nações Unidas tendo chegado ao cargo com a guerra na Síria atravessada pela expansão da organização Estado Islâmico (que tinha capital em Raqqa, Síria) e agora foi a Damasco para tentar recolocar a reconstrução do país na agenda internacional. É um voto de confiança, arriscado, no novo poder político, mas quem não apoiar este esforço de Guterres terá de apontar uma solução.

Ouvir e apoiar

Guterres disse que foi “à Síria para ouvir – com humildade, respeito e uma mensagem clara: As Nações Unidas estão ao lado do povo da Síria neste momento crucial”.

O secretário-geral faz o que pode fazer. O resto, o que muitos gostariam de ver feito – e acusam Guterres de não fazer – depende do Conselho de Segurança, e todos conhecemos o bloqueio que impede as decisões mais acertadas.

Ninguém poderá acusar António Guterres de não ser um homem de paz e de não ter feito tudo o que pôde para acabar com conflitos e guerras. O mundo só pode ser um lugar mais seguro e mais justo se o multilateralismo for a fonte das decisões que nos dão protecção e defesa. Mas também sabemos que há muitos que não pensam desta forma e preferem o caos e a guerra, o unilateralismo, porque esse é o contexto de selva em que prevalece a lei do mais forte. Prova disso as incursões israelitas nas aldeias de Maariyah e Al-Arda, na região de Daraa, sudoeste da Síria, a menos de uma centena de quilómetros de Damasco, precisamente no dia em que António Guterres estava na capital síria.

Sabemos a quem aproveita o caos no Médio Oriente; sabemos quem, ao longo das últimas décadas, fomentou divisões étnicas e religiosas; sabemos quem o continua a fazer. Mas António Guterres foi a Damasco colocar o dedo numa ferida que dói e que só poderá sarar com o respeito pelas resoluções da ONU: “Quero repetir: as violações da soberania e da integridade territorial da Síria são inaceitáveis ​​e devem cessar. Condeno veementemente as contínuas violações, por parte de Israel, do acordo de retirada das forças de 1974, para não falar do facto de os Montes Golã serem território sírio”.

Al Sharaa quer acordo de segurança com Israel, mas os Golã são da Síria

Em entrevista à Al Jazeera, o presidente sírio repetiu que espera poder chegar a um acordo de segurança com Israel, mas lembrou que os Montes Golã (ocupados por Israel desde 1973) são território sírio. Um nó difícil de desatar. Ahmed Al Shara tem resistido – por opção e por falta de capacidade militar – a responder a Israel, mas basta conhecer algumas ruas do mundo árabe para saber que, se Israel não retirar do território sírio, chegará o dia em que haverá uma resposta. O ministro dos negócios estrangeiros sírio, Asaad Hassan Al-Shaiban, diz o que o presidente sírio não pode dizer: “as violações israelitas representam uma ameaça directa à segurança regional”. Al Sharaa também recusa envolver-se na guerra no Líbano apesar dos rumores – e dos apelos – para que a Síria ajude o governo libanês a desarmar o Hezbollah. O presidente sírio para ser o único adulto na sala. Envolver a Síria na guerra no Líbano seria um forte contributo para escalar a guerra que varre a região e iria prejudicar o processo de reconstrução que a Síria precisa urgentemente.

Em Damasco, precisamente a olhar para essa necessidade de reconstrução, o secretário-geral das Nações Unidas apelou à comunidade internacional para facilitar a vida ao actual governo sírio: “Saúdo as medidas que aliviaram as sanções e abriram novas possibilidades de recuperação económica. Mas todas estas sanções devem ser removidas imediatamente” (…) “O povo sírio demonstrou uma extraordinária resiliência ao longo de anos de dificuldades. Não deve ter de suportar sozinho o fardo da recuperação”.

O processo de reconstrução da Síria vai ser demorado. Sinal das dificuldades expresso na pintura que ainda resiste nas paredes da tristemente célebre prisão de Sednayah, em Damasco. António Guterres visitou a prisão (“Fiquei horrorizado com a minha visita à infame prisão de Sednayah, onde dezenas de milhares de pessoas foram mortas e torturadas) e as imagens dessa visita mostram as paredes ainda pintadas com a bandeira da Síria que era utilizada pelo regime de Bashar Al Assad (preta, branca e vermelha, com duas estrelas verdes).

Ahmed Al Sharaa teve um voto de confiança e a solidariedade de Guterres. Uma herança que o secretário-geral das Nações Unidas deixa à Síria mas também a quem lhe vier a suceder num dos lugares mais difíceis na política internacional.

Pinhal Novo, 27 de Julho de 2026

01h00

jmr

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