
À hora a que escrevo, o funeral do Guia Supremo do Irão, Ali Khamenei, está a terminar a passagem por Kerbala e Najaf, cidades santas de maioria xiita no Iraque; ainda se ouvem os ecos da Cimeira da Nato na Turquia; o Estreito de Ormuz e o Irão estão de novo a ferro-e-fogo; Donald Trump diz que os líderes iranianos são “escumalha”. Espera-se que o corpo de Ali Khamenei seja sepultado esta quinta-feira (9) na cidade onde nasceu.
As cerimónias fúnebres de Ali Khamenei foram um momento em que o Irão quis mostrar ao mundo como está unido e tem força para enfrentar a agressão israelo-americana. A dimensão grandiosa das cerimónias fúnebres de Ali Khamenei, expressa numa imensa mancha de homens e mulheres vestidos de preto, é uma mensagem clara a que as autoridades quiseram dar visibilidade, apelando aos iranianos para “mostrarem ao mundo a grandeza do Irão e a glória da unidade nacional”. Não se sabe até que ponto o regime está unido, mas se assim não for, também não será de esperar que qualquer oposição ao actual regime tenha alguma inclinação para se aproximar dos inimigos externos. As autoridades iranianas estimavam a presença de 15 a 20 milhões de pessoas nas cerimónias fúnebres, mas a agência France Press sublinhou que os antigos presidentes iranianos ainda vivos não foram vistos no funeral.
Tudo isto num momento em que parece moribundo o Memorando negociado com os Estados Unidos e que foi interpretado pela generalidade dos analistas como uma vitória do Irão. O presidente norte-americano, Donald Trump, já disse que o cessar-fogo pertence ao passado. Estamos de regresso ao ponto de partida, mas importa perceber a mensagem que chega de Teerão.
Funeral
Em Teerão, as bandeiras pretas (símbolo do luto) e vermelhas (símbolo do martírio e da vingança) pontuaram as cerimónias fúnebres de Ali Khamenei, juntamente com palavras de ordem: “estamos de luto, mas continuamos de pé”, “morte à América” e “morte e Israel”. O presidente do parlamento iraniano disse que “a verdadeira vingança pelo líder iraniano martirizado é acabar com a opressão dos Estados Unidos e de Israel contra os muçulmanos”.

Nada muda na retórica iraniana e não seria de esperar que alguma coisa mudasse. Há uma história milenar, uma história recente, uma cultura, uma religião e uma identidade, que forjam a resistência e a atitude de uma parte muito significativa dos iranianos. Que os Estados Unidos não consigam perceber isso (apenas 250 anos de história ajudam a explicar) ainda se entende, mas que muitos europeus não o percebam já é mais difícil de entender, sendo de sublinhar que não se deixaram arrastar (de forma directa) para esta guerra. E também não é difícil perceber que o Irão não está isolado, bastando verificar os países que se fizeram representar no funeral de Ali Khamenei. A presença é ainda mais significativa porque não se trata do funeral de um líder que tenha morrido de morte natural. Khamenei foi assassinado por um ataque israelo-americano e muitos países foram a Teerão prestar-lhe homenagem, o que significa que não aprovam o que foi feito por Israel e Estados Unidos a 28 de Fevereiro.

As autoridades iranianas deram conta, sem grandes detalhes, da presença de representantes de mais de 70 países (no final do texto a lista dos presentes que foi possível apurar), sendo que o Irão não convidou os Estados Unidos da América nem países europeus.
Na véspera da abertura ao público da Mesquita de Mosalla, em Teerão, os principais líderes iranianos e outros responsáveis estrangeiros desfilaram perante as urnas de Ali Khamenei e dos familiares que estavam com ele durante o ataque que os vitimou (uma das suas filhas, um genro, uma nora e uma neta ainda bebé).
A maior dúvida que fica destas cerimónias fúnebres está relacionada com a ausência de Mojtaba Khamenei, filho e sucessor de Ali Khamenei. Outros três filhos de Ali Khamenei estiveram presentes mas, desde que foi nomeado, Mojtaba Khamenei nunca mais foi visto em público. As autoridades explicaram a ausência com motivos de segurança, mas isso não impede que cresça a especulação sobre a situação de Mojtaba, se está vivo ou morto, e estando vivo qual terá sido a gravidade dos ferimentos que sofreu no mesmo ataque em que o pai morreu. A ausência alimenta as dúvidas.
Ali Khamenei, mais de quatro meses depois da morte (funeral esteve previsto para Março mas foi adiado devido à guerra), será sepultado em Machhad, onde nasceu, a segunda maior cidade do Irão, declarada “capital espiritual do Irão” pelo antigo presidente Mahmoud Ahmadinejad. Machhad significa “lugar de martírio” e é lá que estão sepultadas outras personalidades importantes da vida iraniana.
A questão do martírio e da vingança
Guia supremo do Irão durante quase 37 anos, Ali Khamenei, 86 anos, recebeu a homenagem devida a um líder assassinado pelos grandes inimigos do Irão a 28 de Fevereiro, primeiro dia do ataque israelo-americano. Numa sociedade em que o “martírio” é interpretado como uma honra e um dever, ser vítima directa de ataques inimigos é a honra maior.
Podemos olhar para esta questão e “resolvê-la” de forma simples chamando fanáticos aos que a defendem. É a mais fácil, mas também a resposta mais enganadora, porque a questão é muito mais profunda e tem ramificações que vão aos primeiros tempos do Islão e à forma como os muçulmanos xiitas consideram que defendem a herança do Profeta. Martírio é cultura e identidade que assenta na atitude do neto do Profeta na batalha de Kerbala, quando recusou lealdade ao Califa, considerando-o ilegítimo. A recusa custou a vida a Hussein Ibn Ali, mas deu o exemplo de sacrifício por aquilo que se acredita ser justo. É essa a essência do pensamento xiita: coragem, fé e resistência. Podemos gostar ou não, considerar até que é algo fora de tempo, mas é assim, e não adianta tentar perceber o Irão se não entendermos essa lógica.
E é nessa lógica que Estados Unidos e Israel (e grande parte do ocidente) surgem como se fossem o Califa a quem o neto do Profeta recusou prestar vassalagem por ser um poder ilegítimo. Estados Unidos e Israel representam o poder a quem os iranianos recusam submeter-se considerando que não têm legitimidade para determinar ou impor o que deve ser o Médio Oriente. Há muito que o Irão tem este posicionamento.

No entanto, também será bom percebermos que os Estados Unidos e Israel nem sempre foram vistos como os grandes representantes de Satanás.
Israel até foi grande parceiro do Irão enquanto o Xá Reza Pahlavi esteve no poder. A cooperação estendia-se à economia, petróleo, serviços secretos e venda de armas. Mesmo depois da Revolução Islâmica, Israel temia mais o Iraque do que o Irão e vendeu armas ao Irão durante a guerra contra o Iraque. O Irão foi dos primeiros países muçulmanos a reconhecer (de facto, não de jure) o Estado de Israel e acolheu uma embaixada israelita que só fechou quando a ditadura do Xá caiu, em 1979. O Irão manteve também uma representação diplomática em Telavive. Após a queda do Xá, o sinal de que tudo iria mudar foi a visita de Yasser Arafat (um dos primeiros, se não o primeiro líder político estrangeiro a visitar Teerão, poucos dias depois do regresso de Khomeini).
Quanto aos Estados Unidos, a amizade também era grande sendo que o inimigo eram os britânicos e os interesses petrolíferos que o Império britânico tinha no Irão. A partir do momento em que a CIA e o MI6, para agradar ao Xá e à Anglo-Iranian Oil Company (que seria depois a BP), fomentaram o golpe que destituiu o primeiro-ministro (1951-1953) Mohammad Mossadeq, os Estados Unidos passaram a ser o Grande satã. Até hoje, sempre em crescendo, por tudo o que Estados Unidos e outros países ocidentais têm feito no Médio Oriente e pelo apoio prestado a Israel.
É todo esse passado que ainda hoje está presente e ganha peso quando as bombas caem em Teerão, em Gaza ou no Líbano. É por tudo isto que a desconfiança é enorme e qualquer negociação é demorada. É por tudo isto que em Teerão se clama por vingança e se grita morte à América e morte a Israel. Não entender a mensagem e o contexto em que ela evoluiu torna mais difícil analisar o que está a acontecer. A guerra não é, nunca foi, a solução. Reconstruir a confiança entre o Irão e o “ocidente” deveria ser a grande tarefa, mas é algo que de momento se revela impossível.
NOTA: PAÍSES REPRESENTADOS NO FUNERAL DE ALI KHAMENEI:
Primeiro-ministro (PM) paquistanês, Shebaz Sharif; PM da Arménia, Nikol Pashinyan; presidente (PR) da Geórgia, Mikheil Kavelashvili; PR do Iraque, Nizar Amidi e PM do Iraque, Ali Al-Zaidi; PR do Tajiquistão, Emomali Rahmon; vice-presidente da Turquia, Cevdet Yilmaz; vice-presidente do conselho de segurança da Rússia, Dimitri Medvedev; vice-primeiro-ministro e MNE do Cazaquistão, Yermek Kosherbayev; presidente do conselho do povo do Turquemenistão, Gurbanguly Berdimuhamedow; vice-ministro dos negócios estrangeiros da Arábia Saudita, Waleed bin Al-Khereiji; ministro dos negócios estrangeiros do Afeganistão, Amir Khan Muttaqi; ministro dos negócios estrangeiros da Índia, Patibra Margherita; ministro dos negócios estrangeiros da Nicarágua, Valdrack Whitaker; presidente do parlamento do Azerbeijão, Sahiba Gafarova; presidente da câmara dos deputados da Bielorrússia, Igor Sergeyenko; presidente do parlamento do Bangladeche, Hafiz Uddin Ahmad¸vice-presidente do comité permanente da Assembleia Nacional Popular; vice-secretário geral da Organização de Cooperação Islâmica, Hissein Taha; presidente do Curdistão iraquiano, Nechirvan Barzani; Ahmad Massoud, líder da Frente de Resistência Nacional (Afeganistão), foram alguns responsáveis cuja presença foi referida na imprensa internacional bem como a de delegações de Omã, Qatar, Quirguizistão, Uzbequistão, Egipto, Gana, Nicarágua, República Democrática do Congo, Sérvia e Cuba. Os media iranianos referem também a presença de delegações da Tunísia, Líbano, Namíbia, Sri Lanka, Myanmar, Gâmbia e Tailândia, e representantes da Organização de Cooperação de Xangai e da Organização de Cooperação Económica.
O chamado “eixo da resistência” esteve presente: foram a Teerão altos representantes palestinianos do Hamas e da Jihad Islâmica, um antigo ministro e deputados do Hezbollah (Líbano), representante do partido Amal (Líbano) e representantes dos Houthis (Iémen).
Pinhal Novo, 8 de Julho de 2026
23h30
jmr
