Marilyn Monroe não mora em Teerão

Capa da GEORGE Magazine, em Setembro de 1996, com Marilyn Monroe e a célebre frase. John F. Kennedy Jr., filho do expresidente JFK foi um dos fundadores desta revista, publicada entre 1995 e 2001.

Donald Trump queria anunciar um acordo com o Irão no dia em que comemorou 80 anos. O Irão não lhe fez a vontade. Aliás, com o habitual requinte da diplomacia iraniana, Teerão faz saber que iria assinar o acordo para negociar um acordo (é apenas disso que se trata) quando já passava da meia-noite na capital iraniana e, portanto, já estávamos a 15 de Junho. O aniversário de Trump é a 14 de Junho. É certo que nos Estados Unidos ainda era dia 14, mas é inevitável reparar no pormenor depois de Trump ter andado a insistir que o acordo seria assinado no Domingo.

Poder anunciar um acordo com o Irão em dia de aniversário, seria transformado por Trump numa vitória pessoal, permitiria a exploração mediática de um momento que o presidente norte-americano queria deixar registado na história e seria uma excelente ajuda para ocultar uma derrota em toda a linha no plano político. Donald Trump, sabemos, é um homem vaidoso que não se contenta com os bens terrenos em vida aspirando a que o mundo lembre o seu nome por muito tempo. Conhecemos-lhe a obsessão pelo Prémio Nobel, mas nesse aspecto não deve ir além do nobel de lata que lhe foi oferecido pelo inenarrável presidente da FIFA. Depois, sabemos que Trump gosta de registar o seu nome em tudo o que pode perdurar no tempo e até de se autonomear presidente eterno, como fez no “Conselho da Paz” para a Faixa de Gaza. Nos Estados Unidos, nem o Centro Cultural dedicado ao ex-presidente John F. Kennedy escapou a ter o nome de Trump associado ao nome da instituição.

Donald Trump tenta por todos os meios associar o seu nome a momentos que perdurem na memória e na história, mas a única coisa que tem conseguido é ser visto como um egoísta excêntrico, e saloio, fazendo lembrar alguns autarcas portugueses a cujo nome as piscinas, rotundas e bibliotecas não conseguiam escapar. Em Washington DC, Donald Trump passou a vergonha de ver a justiça determinar a retirada do seu nome da fachada do Centro JFK. Não se sabe se Trump também tem alguma obsessão com a memória que os norte-americanos guardam de JFK. Para além da morte dramática (assassinado), o ex-presidente JFK deixou esse momento célebre, icónico, do “Happy Birthday, Mr. President” cantado/sussurrado pela voz sensual de Marilyn Monroe, antecipando o aniversário de JFK. Trump não rejeitaria momento semelhante que o catapultasse para memórias deste género, mas apenas conseguiu celebrar os 80 anos com um evento de artes marciais nos jardins da Casa Branca. De Teerão, não chegou qualquer prenda de aniversário, muito menos uma Marilyn Monroe a cantar “Happy Birthday Mr. President”.  

Aquilo a que chamam Acordo

De facto – assim parece – as armas calaram-se no Irão, mas o anunciado acordo pouco mais é do que um estender do cessar-fogo. Pouco mais se sabe. O Irão anunciou alguns pontos, mas fez saber que o texto completo só será conhecido depois do acordo assinado: a guerra termina imediatamente em todas as frentes (já sabemos que não aconteceu); 12 mil milhões de dólares em activos iranianos serão desbloqueados antes do início de negociações (depois, mais 12 mil milhões); as sanções à venda do petróleo iraniano e derivados serão suspensas; o bloqueio naval norte-americano será levantado e as forças norte-americanas terão de retirar das proximidades do Irão. Não sabemos se é mesmo assim, mas Teerão avisa: as negociações não começam enquanto estas premissas não estiverem cumpridas. 

Do lado norte-americano, Donald Trump fez saber que o Estreito de Ormuz será reaberto. Sem tarifas/portagens, diz Trump. Pouco mais.

Falta saber como será com a questão de enriquecimento de urânio do Irão e com os mísseis balísticos.

Israel fora das negociações

Questão mais premente é a guerra no Líbano. Apesar de o Irão e o (mediador) Paquistão anunciarem que o acordo prevê o fim da guerra em todas as frentes, os principais protagonistas não estiveram envolvidos nas negociações e o ministro da defesa de Israel apressou-se a dizer que o país vai manter as suas tropas no Líbano, tal como na Síria e na Faixa de Gaza, “por tempo ilimitado”. O primeiro-ministro israelita confirmou a intenção e acrescentou que a guerra lançada contra o Irão salvou Israel do extermínio. Um dos líderes do partido israelita (Juntos), Naftali Bennett, que ameaça o poder de Netanyahu, disse que a contagem decrescente para a mudança de regime no Irão começará quando o governo de Netanyahu for substituído. Ou seja, se Netanyahu não mostra qualquer vontade de acabar com a guerra, um novo primeiro-ministro israelita promete que também não o fará.

Se o Hezbollah agradeceu ao Irão por ter incluído o Líbano no acordo, o governo israelita distanciou-se do que Estados Unidos e Irão acordaram, e o governo libanês continua a acreditar em negociações com Israel (próxima ronda a 22 de Junho), um processo que poucos acreditam possa conduzir a qualquer resultado, desde logo porque o Hezbollah não tem lugar à mesa.

É sempre bom fazer calar as armas, porque isso significa que não há mortes nem destruição e, neste caso concreto, a navegação internacional pode retomar o ritmo habitual com os óbvios benefícios para a economia. No entanto, há uma questão que é preciso explicar: se muitos analistas entendem que o Hezbollah, classificado como proxy do Irão, está subordinado às decisões de Teerão, em relação à dupla Estados Unidos e Israel não existe o mesmo tipo de relação. Cada um destes dois países tem a sua política de segurança e defesa independente, e apesar da dependência de Israel (apoio económico e militar) em relação aos Estados Unidos para continuar a guerra, não é certo que Benjamin Netanyahu se submeta à vontade de Donald Trump. Aliás, não se percebe porque é que tendo a guerra contra o Irão sido iniciada por Estados Unidos e Israel, a negociação do acordo agora anunciado apenas tenha envolvido Estados Unidos e Irão. Israel ficou de fora, porquê? Foi afastado pelos Estados Unidos que não quiseram ter à mesa líderes israelitas que insistem na continuação da guerra? Será para o governo israelita ter rédea livre e Donald Trump “lavar as mãos” podendo dizer que a mais que certa continuação da guerra no Líbano não é da sua responsabilidade?

Por agora, o que sabemos da guerra que Estados Unidos e Israel iniciaram a 28 de Fevereiro é que o regime iraniano não caiu, as capacidades militares do Irão não foram anuladas, o Hezbollah libanês continua a enfrentar o exército israelita e a ameaçar o norte de Israel, os 400 kg. de urânio enriquecido continuam no Irão, o bloqueio do Estreito de Ormuz desestabilizou o comércio internacional e milhares de pessoas morreram no Irão e no Líbano. Ganharam os especuladores bolsistas e gente próxima de Donald Trump que, ao que tudo indica, conhecia com antecedência algumas decisões de Trump no decorrer da guerra.

O ex-presidente norte-americano Barack Obama já veio dizer que é pouco provável que um novo acordo que venha a ser assinado seja muito diferente ou constitua uma melhoria significativa em relação ao anterior acordo que Donald Trump rasgou durante o seu primeiro mandato na Casa Branca.

Sexta-feira, se nada mudar, saberemos o que está registado neste acordo para negociar um acordo. Depois, muito provavelmente, teremos de esperar alguns anos.

Pinhal Novo, 16 de Junho de 2026

09h00

jmr

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