A coragem do Arcebispo Melquita de Tiro (Líbano)

Consequências dos bombardeamentos israelitas no sul do Líbano. O Arabfiles.news publica esta foto como sendo da cidade de Tiro.

Na segunda-feira (8), quinze localidades à volta de Tiro, cidade costeira no sul do Líbano, foram bombardeadas: 14 mortos e mais de 20 feridos, balanço divulgado pela Cruz vermelha e pelo governo libanês; hoje (9), à hora a que escrevo, pelo menos 8 pessoas morreram e 32 ficaram feridas, devido a um forte ataque israelita a um bairro residencial de Tiro. Este ataque foi efectuado antes do alerta de evacuação emitido pelo exército israelita que abrange toda a cidade, incluindo o bairro cristão de Tiro e os campos de refugiados palestinianos. A Agência de notícias France Press dá conta que a ordem é destinada a todos os habitantes desta cidade milenar, onde a Unesco classificou vários sítios arqueológicos como património da humanidade, alguns já atingidos pelos ataques israelitas.

Lembro-me bem, há 20 anos, numa outra guerra no Líbano, das pessoas em fuga, amontoadas em carrinhas de caixa aberta, segurando paus aos quais atavam um pano branco, na esperança de que esses panos brancos as livrassem das bombas que Israel disparava. Em alguns carros, através do vidro traseiro, também era possível ver o Corão aberto, uma outra tentativa de obter protecção. Em 2006, o destino supostamente seguro dessas pessoas era Beirute, menos o bairro de Dahiya, chão do Hezbollah especialmente visado pelos ataques israelitas; desta vez, Israel ameaça tudo o que estiver a sul do rio Zahrani, a 40 quilómetros da fronteira.

A coragem de ficar

São poucos os que recusam partir das zonas ameaçadas por Israel, mas ainda há quem diga “vou ficar em Tiro, a minha alma está aqui”. Afinal, o que é uma pessoa sem alma?


Entre os que ficam está o Arcebispo da Igreja Greco-Católica Melquita, George Iskandar. Nascido numa aldeia do sul do Líbano, em 1968, Iskandar conhece bem a história do terreno que pisa e diz que vai ficar: “Continuamos na cidade de Tiro, com o nosso povo” (…) “tal como fizeram os nossos pais e avós, antes de nós, e assim como os filhos firmes do sul permanecem hoje na sua terra, nas suas aldeias e cidades” (mensagem completa no final deste texto). Palavras de coragem, firmeza e determinação de quem não cede à ameaça desumana da extrema-direita que governa Israel.

Com a cidade a ser bombardeada, os líderes de várias Igrejas apelaram ao presidente libanês, Joseph Aoun, para que salve o bairro antigo da cidade: “A cidade velha é o coração de Tiro e qualquer ataque será uma catástrofe nacional”. Os líderes religiosos lembram que a cidade velha é a casa de pessoas inocentes e alberga a herança de séculos de história cultural e religiosa. O apelo estende-se à comunidade internacional e às agências das Nações Unidas para que assumam a responsabilidade moral de proteger a população de acordo com o direito humanitário internacional.


O problema destes apelos é que o presidente libanês não tem poder para nada, limitando-se a ver os ataques israelitas ao seu país e a fazer declarações que ninguém ouve. Quanto à chamada comunidade internacional, a falta de vontade (ou medo?) de confrontar Israel e forçar um cessar-fogo é por demais evidente. A impunidade das acções do governo e do exército israelita estão em roda livre. Alguns governos ocidentais tiveram hoje um pequeno gesto e anunciaram sanções contra organizações e colonos israelitas; a França proibiu a entrada do ministro de extrema-direita Bezalel Smotrich, o mesmo que já tinha feito relativamente a outro ministro de extrema-direita, Itamar Ben-Gvir. Coisa pouca perante a catástrofe que Israel está a semear. É caso para perguntar o que terá Israel de fazer, quantas pessoas terão de morrer e quantas terão de ser expulsas das suas casas, torturadas nas prisões, para que o chamado mundo livre assuma responsabildades e sancione o o governo israelita de uma forma séria e pesada?

Dados do Ministério da Saúde do Líbano, 9 de Junho de 2026

Ao contrário do que sempre fez com a guerra na Faixa de Gaza, desacreditando o número de vítimas porque “eram números do Hamas”, desta vez Israel nem contesta. Já não interessa. O Mundo habituou-se a dezenas, centenas, milhares de mortes. O governo libanês dá conta que, desde 2 de Março, já morreram pelo menos 3 666 pessoas (incluindo militares do exército libanês). Os deslocados são mais de um milhão. Também já não interessa. O Mundo habituou-se às ordens de evacuação emitidas por Israel e afinal, há quem assim pense, isso até revela alguma preocupação com a vida dos libaneses.

Pinhal Novo, 9 de Junho de 2026
17h00
jmr

A mensagem do Arcebispo Melquita de Tiro:

“Nestes dias difíceis que o nosso amado sul do Líbano está a enfrentar, afirmamos que permanecemos na cidade de Tiro, entre as nossas famílias e o nosso povo, assim como nossos pais e avôs permaneceram antes de nós, e assim como o povo resiliente do Sul permanece hoje nas suas terras, vilas e cidades.

A nossa presença entre o povo não é uma escolha temporária, mas sim parte da nossa missão e do nosso dever nacional, humanitário e espiritual. Assim como compartilhamos as alegrias com o nosso povo, também compartilhamos a sua ansiedade, o seu sofrimento e a sua esperança.

Não abandonaremos esta cidade, que foi abençoada pelos passos de Jesus Cristo, e que ao longo da história tem testemunhado a fé e a resiliência.

Elevamos as nossas orações pela protecção de todos os civis, e para que Deus poupe a nossa cidade e todo o Sul das desgraças da guerra e da destruição, e conceda aos governantes a sabedoria e a coragem para trabalhar na preservação das vidas das pessoas e na proteção dos seus lares e meios de subsistência.

Permanecemos juntos, em solidariedade e de mãos dadas, acreditando que o amor é mais forte do que o medo, e que a esperança é mais forte do que qualquer ameaça.

Tiro permanecerá a cidade da vida e a sua terra continuará vibrante com o seu povo e os seus filhos.”

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