Os Houthis e o Portão (Estreito) das Lágrimas

Posto de controlo Houthi à entrada da cidade de Sa’dah, Julho de 2019. Foto: jmr/arquivo

Por muito que Donald Trump estrebuche e ameace, o Estreito de Ormuz permanece fechado. Quanto ao outro estreito, Bab Al-Mandeb (Portão das Lágrimas), vamos ver… Se chegarmos ao ponto em que as duas principais portas de exportação do Médio Oriente fiquem encerradas, os problemas que a economia mundial está a sentir agora, vão parecer uma brincadeira.

Para além do bloqueio do Estreito de Ormuz, controlado pelo Irão, e também sob bloqueio norte-americano, os Houthis têm a possibilidade de bloquear, ou pelo menos perturbar, a navegação no estreito de Bab Al-Mandeb, complicando ou cortando o acesso ao Mar Vermelho e ao Canal do Suez.

O comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Esmaeil Qaani, prometeu um novo eixo de resistência do Estreito de Ormuz ao Estreito de Bab Al-Mandeb e do Golfo Pérsico ao Mar Vermelho. O que isto significa, não esclareceu.

Nesta fase da guerra, essa é a “carta” que ainda não foi jogada por Teerão: o apoio dos aliados iemenitas. Os Houthis entraram na guerra, por solidariedade, logo a seguir ao ataque do Hamas e à resposta de Israel, em Outubro de 2023, desencadeando vários ataques a Israel e aos navios no Mar Vermelho, mas sofreram também uma resposta poderosa que matou líderes importantes e atingiu muitas infraestruturas militares. Em Maio de 2025, um acordo com os Estados Unidos fez com que os Houthis tenham ficado à margem dos confrontos que se verificaram depois dessa data, com excepção do lançamento de mísseis alguns dias antes de ser anunciado um cessar-fogo (8 de Abril 2026 e tecnicamente ainda em vigor).

Agora, os Houthis deram um sinal – reivindicaram um ataque com mísseis contra Israel e decretaram a interdição total de navegação israelita no Mar Vermelho. Israel confirmou o lançamento de um míssil do Iémen contra o seu território. 

As contas dos Houthis. E do Irão.

Apesar da já referida declaração do comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, é preciso ter em conta alguns factores que podem travar o regresso dos Houthis à guerra.

Desde logo, ao contrário do Hezbollah e das milícias xiitas iraquianas pró-Irão, os Houthis não reconhecem o Guia Supremo iraniano como a máxima autoridade religiosa, o que, ainda assim, não exclui a influência dos alinhamentos religiosos nas decisões.

Na verdade, os Houthis, árabes, xiitas do ramo Zaydi, são uma das tribos do grupo Ansar Allah (Partidários de Deus) e é essa a sua verdadeira designação. O Partido é conhecido por “Houthis” porque é a tribo dominante e é esse o nome dos seus principais dirigentes.

O líder, Abdul Malik Al-Houhti, citado pela Reuters, disse a 5 de Março que “os nossos dedos estão no gatilho e prontos a agir a qualquer momento caso os acontecimentos o justifiquem”.

Apesar desta retórica Abdul Malik Al-Houhti sabe que há fragilidades e eventuais consequências que devem ser tidas em conta. Os Houthis controlam um território relativamente pequeno que é um alvo fácil; as defesas do grupo são frágeis; o apoio militar do Irão está muito debilitado face à dificuldade de o fazer chegar ao Iémen; qualquer ataque aos portos no território controlado pelos Houthis pode provocar um corte com o exterior e criar enormes dificuldades de abastecimento. Internamente, apesar de alguma acalmia, os Houthis enfrentam o governo internacionalmente reconhecido com sede em Áden (com apoio da Arábia Saudita) e as milícias separatistas do sul do Iémen (Conselho de Transição do Sul) apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos.

Perante a necessidade de apoiar o aliado Irão, manter a força suficiente para garantir a influência interna e prever as consequências de uma inevitável retaliação Estados Unidos/Israel, os Houthis terão de avaliar os custos e os benefícios de uma entrada mais intensa nesta guerra. Marcar pontos junto dos aliados e eventualmente ganhar influência regional pode não ser suficiente para eventuais custos económicos e de segurança numa região já com enormes problemas económicos, sociais e humanitários.

Em 2025, com um intervalo de dois meses, os ataques retaliatórios sofridos pelos Houthis mataram o primeiro-ministro e o chefe do estado-maior das forças Houthis, e custaram também a vida a outros dirigentes políticos e militares de topo.

Por último, a ameaça de bloqueio de Bab Al-Mandeb pode ser mais útil enquanto ameaça e dissuasão do que enquanto situação real que terá de ser imposta pela força. Parece ser isso que o Irão está a fazer à mesa das negociações: ou há um cessar-fogo que inclua o Líbano (e a Faixa de Gaza) ou as coisas podem piorar. Donald Trump parece estar claramente inclinado para essa solução, Benjamin Netanyahu nem pensar. Vamos ver até onde vai este conflito de interesses entre as lideranças norte-americana e israelita e que consequências terá na guerra: cessar-fogo abrangente e efectivo ou um escalar que a faça alastrar a outros países e com consequências imprevisíveis.

Pinhal Novo, 9 de Junho de 2026

01h00

jmr

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