As guerras que servem a Netanyahu mas prejudicam Trump

Donald Trump e Benjamin Netanyahu, na Casa Branca, Washington, em 11 de Fevereiro de 2026, duas semanas antes do ataque ao Irão. Foto: Avi Ohayon/GPO

O Médio Oriente enfrenta uma divergência de interesses entre dois dos actores com mais influência e poder militar, precisamente os actores que, em conjunto, decidiram atacar o Irão a 28 de Fevereiro. Essa divergência torna muito difícil acreditar na paz a breve prazo: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, precisa de acabar com a guerra, enquanto Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, precisa de continuar a guerra. Trump, de discurso errático, está atolado no Estreito de Ormuz; Netanyahu, autoritário e pragmático, está como “peixe-na-água”, usa a força para destruir os países à volta e roubar-lhes território.

Mas, em Israel e Estados Unidos, ainda há uns resquícios de democracia e há eleições em breve. Recorde-se que Trump quer compensar os que atacaram o Capitólio e recusavam aceitar a vitória eleitoral de Joe Biden; em Israel, há poucos dias, a procuradora-geral alertou para um momento de fim de mandato em que “começou uma corrida para desmantelar as instituições democráticas”. Ainda assim há eleições previstas, e da guerra, ou da ausência dela, podem depender os resultados eleitorais que preocupam Trump e Netanyahu, quando os norte-americanos votarem nas eleições intercalares de Novembro e quando os israelitas votarem nas legislativas previstas para Outubro (ou até antes…).

Se atendermos às sondagens e estudos de opinião, ambos correm o risco de perder as eleições. Trump está em queda no apoio da opinião pública e do próprio partido Republicano – a recente derrota na câmara dos representantes é a prova evidente (quatro eleitos republicanos votaram ao lado dos democratas para a retirada de tropas na guerra no Irão) – e quer inverter a tendência, conseguindo um acordo que há de apresentar como uma vitória, seja qual for o acordo; habituado à obediência cega dos eleitos republicanos, Trump considerou a votação na câmara baixa do Senado como uma iniciativa “antipatriótica” e não poupou os 4 eleitos republicanos que escolheram ficar ao lado dos Democratas. Um presidente que quer gastar mil milhões de dólares num salão de baile na Casa Branca, dá todos os sinais de ter as prioridades trocadas.

Em Israel, Benjamin Netanyahu sabe que qualquer acordo com o Irão, associado a um recuo no Líbano e na Faixa de Gaza, será alimento para a oposição e para os seus aliados da extrema-direita. Netanyahu enfrenta problemas internos semelhantes, mas a guerra tem um peso diferente: o parlamento já deu alguns passos para aprovar a dissolução que conduzirá a eleições antecipadas (talvez em Setembro) e as sondagens mostram o partido Likud (de Netanyahu) a perder as eleições, mas quanto à guerra, a sondagem (de Abril) do Instituto para a Democracia de Israel dá conta que 49% dos judeus israelitas aprova a estratégia do governo e considera que a situação de segurança é melhor do que antes da guerra com o Irão; outra sondagem, da Universidade Hebraica de Jerusalém mostra que cerca de dois terços dos israelitas rejeitam um cessar-fogo e defendem ataques ao Líbano (dados de Abril). Ainda assim, a popularidade de Netanyahu caiu de 40% para 34%.

A guerra e as negociações

Nas negociações entre Estados Unidos e o Irão, em que há troca directa (pelo menos houve…) de mensagens, Trump vai repetindo que um acordo está para breve, os iranianos desmentem, e andamos nisto, com Trump a ir dilatando os prazos para um entendimento. Percebe-se que não sabe como vai sair deste imbróglio. As tiradas erráticas de Donald Trump já o levaram a dizer que gostaria de se encontrar com o líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei. Trump quer encontrar-se com o homem que quase morreu no mesmo ataque norte-americano/israelita que matou o pai, o Aiatola Ali Khamenei, e de quem Trump disse, após saber que Mojtaba ia suceder ao pai, que “não poderia viver em paz”. Os iranianos responderam a outro nível, com uma recusa diplomática, através do ministro dos negócios estrangeiros; Abbas Araghchi: “penso que devemos ser realistas”!

Nas negociações sobre a guerra no Líbano, acontece algo que é impossível compreender: um dos intervenientes directos, o Hezbollah, não está à mesa das negociações. Isto é: os representantes de Israel estão a falar com representantes libaneses que não estão em guerra. Pelo menos, e valendo o que vale, Israel e os Estados Unidos dizem que a guerra é contra o Hezbollah e não contra o Líbano. Assim sendo, há uma pergunta a fazer: ninguém fala com o Hezbollah? Não. E isso significa algo que todos sabem, mas fazem que não sabem: a guerra no Líbano depende da guerra no Irão. E se assim não for, se a guerra no Líbano continuar mesmo que haja um acordo para a guerra no Irão, isso significará que quem manda é o primeiro-ministro israelita, o que será um péssimo sinal (de fraqueza) para a administração da (ainda) maior potência mundial.

Realidade e ficção

Perante esta realidade, não se consegue descortinar que as negociações “faz-de-conta” entre Israel e o Líbano, tenham outro objectivo a não ser criar condições que legitimem os ataques de Israel no Líbano. Apesar de todas as promessas de cessar-fogo, os ataques e combates nunca pararam. Esta sexta-feira (5), o líder do Parlamento, Nabih Berri (líder do partido xiita Amal) disse que o Hezbollah aceitaria retirar-se do sul do Líbano se houvesse um retirada israelita e um cessar-fogo “global e sem condições”. Nada que acrescente muito ao que o líder do Hezbollah, Naim Qassem, dissera na véspera. Qassem considerou as negociações uma humilhação, e exigiu a retirada total das forças israelitas do território libanês: “enquanto houver ocupação, a resistência continua”! Israel responde que só haverá cessar-fogo se o Hezbollah parar os ataques e não dá qualquer sinal de aceitar uma retirada. As forças israelitas prosseguem os ataques e mantêm a ocupação. Ainda esta sexta-feira (5) novas ordens para evacuação de uma dezena de localidades no sul do Líbano.

O comunicado do Departamento de Estado norte-americano na noite de 3 de Junho, com o anúncio do cessar-fogo, é farto em exigências ao Hezbollah, mas não há qualquer exigência a Israel. Exige-se que o Hezbollah pare os ataques e que retire da zona a sul do Rio Litani; refere-se o desmantelamento dos grupos armados e a prevenção do seu ressurgimento; são condenados os ataques do Irão a países da região; o Hezbollah é considerado inimigo, não apenas de Israel e dos Estados Unidos, mas também do Líbano. Por fim, é anunciada a criação de “zonas piloto” com controlo exclusivo do exército libanês. Ou seja, o exército libanês irá controlar umas bolsas de território em zona ocupada e Israel irá verificar se o exército libanês se “porta bem”. Ler este comunicado é ficar com a sensação de que alguém esteve a falar sozinho. E depois fez um comunicado.

Pinhal Novo, 6 de Junho de 2026

02h00

jmr

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