Até onde irá Israel?

Trump gostou das conversas, mas Netanyahu e o Hezbollah continuaram a guerra

Da última vez que o exército israelita conquistou o Castelo de Beaufort, em 1982, Ariel Sharon era Ministro da Defesa e terá dito ao governo israelita que a ofensiva em território libanês pretendia apenas empurrar os guerrilheiros da OLP (Organização de Libertação da Palestina) para longe da fronteira com Israel. Mais ou menos 40 quilómetros, precisamente até ao Rio Zahrani. Sabemos que não foi assim e as tropas israelitas só pararam quando cercaram Beirute, acabando depois por entrar em Beirute Ocidental (até contra a vontade dos Estados Unidos). Há narrativas divergentes quanto ao papel de Menachem Begin, então primeiro-ministro israelita: para uns, Begin não conhecia a intenção de Ariel Sharon chegar a Beirute; para outros, desde que Begin chegou ao poder (1977) a guerra no Líbano seria uma questão de tempo e ir ou não até Beirute era uma questão secundária. A guerra civil libanesa estava no auge.

Ariel Sharon, que já morreu, era visto como um “falcão”. Israel Katz, actual Ministro da Defesa, não o é menos, e faz parte de um governo de extremistas fiéis defensores da política de dedo no gatilho. Agora, tal como em 1982, o objectivo assumido na invasão do Líbano é empurrar os combatentes (desta vez) do Hezbollah para longe da fronteira de Israel, de preferência (mais uma vez) para norte do rio Zahrani, a 40 quilómetros da fronteira. É a política das “zonas tampão”, consideradas zonas de segurança, mas sabemos como a criação dessas “zonas tampão” dão origem a novas “zonas tampão” e por aí fora. Sempre mais território. Até onde, e até quando? Depois da invasão em 1982, Israel ocupou parte do Líbano até 2 000.

Não deixa de ser uma ironia que essa invasão do Líbano em 1982, e também a de 1978, ambas para combater a OLP, tenham estado na origem da criação do Hezbollah – criado para responder à invasão e ocupação israelita – o mesmo Hezbollah que Israel agora combate com os mesmos argumentos com que combatia a OLP: é uma ameaça à segurança de Israel.

Mais um cessar-fogo…

Das últimas horas vem a promessa de (mais um) cessar-fogo no Líbano. Promessa de Donald Trump, na sua rede social, TruthSocial, após dois telefonemas: um com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu (“foi uma conversa muito produtiva. Não haverá tropas (israelitas) a ir para Beirute e quaisquer tropas que estivessem a caminho já voltaram para trás”; outro telefonema, com o Hezbollah – Trump não disse com quem – “tive um telefonema muito bom e eles concordaram que o tiroteio vai parar – Israel não os atacará e eles não atacarão Israel”.

As palavras de Trump, simplificam uma situação que não pode ser resumida desta forma e acabam por criar um status quo consubstanciado na presença militar de Israel no sul do Líbano (pelo menos Trump não faz referência a qualquer retirada) como se aos libaneses bastasse que Israel não ataque Beirute. Da declaração minimalista de Trump, passamos para a declaração de Benjamin Netanyahu, uma semântica engenhosa que semeia dúvidas: “falei esta noite com o presidente Trump e disse-lhe que se o Hezbollah não parar de atacar as nossas cidades e os nossos cidadãos, Israel vai atacar alvos terroristas em Beirute. A nossa posição permanece inalterada. Simultaneamente, as Forças de Defesa de Israel continuarão a operar como planeado no Sul do Líbano.”

Desde logo esta declaração significa que Netanyahu não atende aos objectivos norte-americanos nas negociações com o Irão e desenvolve a sua própria política e a sua própria guerra. E essa atitude impõe que se tente a descodificação da declaração sobre o Líbano. Quando Netanyahu se refere a eventuais ataques “aos nossos cidadãos”, refere-se a quem? Aos militares israelitas envolvidos na ofensiva em território libanês?; quando diz que o exército vai “continuar a operar como planeado no sul do Líbano”, quer dizer o quê? Que vai continuar a atacar alvos sempre que considere que há um “terrorista” à vista ou uma “infraestrutura do Hezbollah” que seja considerada uma ameaça à presença israelita? Ainda na véspera, Netanyahu vangloriou-se da conquista do Castelo de Beaufort, considerando-a “um ponto de viragem crucial”: “esta noite, os nossos heróicos guerreiros conquistaram o Castelo de Beaufort, e orgulhosamente içaram a bandeira do Estado de Israel e a bandeira da Brigada Golani. Há 44 anos Beaufort era o símbolo de uma batalha heróica, mas também de uma profunda disputa entre nós. Hoje voltamos de forma diferente – unidos, determinados e mais fortes do que nunca”. Uma declaração na qual é impossível não ver a vontade de ficar no território agora conquistado e que alude às alegadas divergências no governo israelita sobre a profundidade que devia ter a ofensiva liderada por Ariel Sharon.

O cessar-fogo anunciado por Donald Trump surgiu pouco depois de notícias que ameaçavam fazer descarrilar todas as negociações: Netanyahu tinha dado ordem para atacar a zona sul de Beirute e o exército chegou emitir um alerta de evacuação; o Hezbollah respondeu que não iria parar de atacar Israel mesmo que Beirute fosse atacada; uma agência iraniana de notícias deu como certo que o Irão tinha rompido as negociações com os Estados Unidos; a Guarda Revolucionária Islâmica ameaçou “abrir novas frentes” de guerra. Tudo isto no mesmo dia em que delegações dos governos de Israel e do Líbano começaram mais uma ronda de negociações (não se sabe muito bem para quê…) em Washington. Em Beirute, o presidente libanês, Joseph Aoun, qualificara os ataques israelitas como “uma agressão feroz e condenável”; o primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, classificou a ofensiva israelita como “uma política de terra queimada”; o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, agradeceu ao Irão por forçar a inclusão de um cessar-fogo no Líbano num eventual acordo com os Estados Unidos: “o Líbano nunca irá esquecer a atitude positiva do Irão durante este período crítico”. Nenhum deles é do Hezbollah e, ao contrário do movimento xiita libanês, pelo menos Aoun e Salam são homens que ainda aceitam negociações com Israel e que ainda seguram uma parte da sociedade libanesa que não apoia o Hezbollah.

Afinal, quem manda?

Sendo impossível obter confirmação, corre a informação (via Axios) de que o telefonema entre Trump e Netanyahu foi agreste. Trump não estava a gostar de ver Netanyahu “boicotar” a tentativa norte-americana para chegar a um acordo com o Irão, porque é impossível conversar com o Irão deixando de fora a situação no Líbano. Com Trump nada é garantido, mas o presidente norte-americano, com este cessar-fogo no Líbano, pode estar a tentar construir uma breve janela de tempo para chegar a esse acordo com o Irão. Depois, logo se vê. Trump pode estar a pensar assim, mas Teerão já fez saber que não tem nenhuma confiança no interlocutor e a haver um acordo ele terá de abranger todas as frentes de guerra, incluindo o Líbano. E terá de ser um acordo com detalhes rigorosos.

Voltando às declarações de Netanyahu após o telefonema com Trump, elas transmitem ainda a ideia de que o primeiro-ministro israelita terá cedido à pressão do presidente norte-americano e terá ouvido o que não gostou. Segundo o Axios, Trump descreveu Netanyahu como “louco”, acusou-o de ingratidão face ao constante apoio norte-americano e avisou que Israel poderá enfrentar um ainda maior isolamento internacional. Uma das fontes citadas diz que Trump terá dito a Netanyahu que ele estaria na prisão se não fosse a intervençaõ de Trump – o presidente norte-americano foi ao Knesset pedir ao presidente israelita que emitisse um perdão nos casos em que Netanyahu é acusado na justiça.

A oposição quer guerra

Se Netanyahu enfrentou a fúria de Trump – não nos iludamos porque estes arrufos passam depressa – também enfrentou duras críticas internas, no próprio governo e na oposição, o que ajuda a compreender o que poderá acontecer na política israelita se Netanyahu for afastado do poder nas eleições do próximo Outono.
A extrema-direita fez-se ouvir. Itamar Ben Gvir, ministro da segurança interna, desafiou Netanyahu: “disse que um primeiro-ministro forte diz ‘sim’ ao presidente americano quando é possível, e ‘não’ quando é necessário. É o momento de dizer ao nosso amigo presidente (Donald Trump): ‘não'”.
O oposicionista Avigdor Lieberman, líder do Ysrael Beiteinu, foi o mais duro: “Isto não é um primeiro-ministro, é um fantoche”; Yair Lapid, líder do Yesh Atid e principal opositor no parlamento, disse que Israel é um “protectorado completo” acusando Netanyahu de permitir aos Estados Unidos ditar as decisões militares de Israel como se o país fosse um “Estado cliente” de Washington; outro líder da oposição (Nova Direita), Naftali Bennett, acusou o governo de “ter perdido o controlo da soberania de Israel. Estes dois homens da oposição formaram recentemente uma coligação – “Juntos” – para tentar derrotar Netanyahu nas próximas eleições.

Apesar do cessar-fogo anunciado ontem à noite por Donald Trump, não foi preciso esperar muito para perceber que dificlmente terá um fim diferente do cessar-fogo anunciado a 17 de Abril. A lista de mortos já aumentou depois disso.

Provavelmente já desactualizada, é esta a lista de vítimas, desde 2 de Março – quando o Hezbollah atacou Israel em resposta ao ataque (28 de Fevereiro) de Estados Unidos/Israel ao Irão: morreram 3 433 libaneses, mais de 10 000 ficaram feridos e mais de um milhão de pessoas foi deslocada à força; 25 militares israelitas morreram.

Pinhal Novo, 2 de Junho de 2026

20h00

jmr

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