Líbano, memórias de há 20 anos

Arredores Beirute, ataque israelita a posiçao do exercito libanês. Foto: jmr/arquivo 17 de Julho de 2006

Infelizmente para o Líbano, a história repete-se. Com novos contornos, mas tragicamente de forma ainda mais violenta. Não indo mais longe, recuemos 20 anos. Em Julho de 2006, o mundo acordou com os bombardeamentos israelitas ao Líbano, começando pelo aeroporto de Beirute. O argumento israelita foi o de querer evitar que o apoio sírio ao Líbano e ao Hezbollah, chegasse por via área. A guerra foi desencadeada por um ataque do Hezbollah a uma patrulha do exército israelita, em território de Israel. O ataque matou militares israelitas e dois foram feitos reféns.

Lembro-me muito bem, como se tivesse sido hoje, de ter entrado no bar da RTP, manhã cedo, para tomar o pequeno-almoço e ter à minha frente um membro da direcção de informação da Antena 1. Depois dos bons-dias perguntei: viste o que está a acontecer no Líbano? Estamos à espera de quê? Respondeu-me: queres fazer o quê? Queres avançar? A resposta foi música para os meus ouvidos. Pedi tempo para saber como poderia lá chegar porque o aeroporto estava fechado. Havia apenas uma hipótese, a Síria, porque a outra fronteira, com Israel, há décadas que está encerrada e era por aí que entrava a guerra.

Apenas ao correr da memória, porque de outra maneira teria de encontrar os meus cadernos de notas, um telefonema para um fixer jordano que tinha trabalhado comigo no Iraque foi a chave que abriu o caminho. Lembrava-se bem de mim (é uma outra história) e perguntou: consegues chegar a Damasco (Síria). Consigo, respondi. A resposta não demorou: vou lá buscar-te e levo-te para Beirute, de carro. E o visto, é problema? Não, dão vistos à chegada. Estava tudo resolvido. Faltava a burocracia interna, o voo, equipamento, dinheiro… e fazer a mala.

À chegada a Damasco, por volta das duas ou três da manhã, as coisas ameaçaram correr mal. A mala com a roupa demorou a aparecer, mas lá respirei de alívio quando surgiu, a última, já com o tapete das bagagens vazio e uns militares a olharem para mim. Os sírios deram-me um visto de 24 horas. O fixer estava à minha espera num bar do aeroporto. Acertámos o que havia para acertar e fomos ao encontro do motorista que iria comigo. À minha frente, em árabe (não entendi patavina…), e de uma forma muito assertiva (isso percebi…) deu as instruções para fazermos o caminho até Beirute.

Não perdemos muito tempo. Um pequeno-almoço apressado e já estávamos a rolar na estrada que liga Damasco à fronteira de Masnaa, não deve chegar a 50 quilómetros. Na Síria nada se passava, viagem rápida. Na fronteira, já não me recordo se do lado libanês ou sírio, foi preciso deixar cair uma nota por cima do alto balcão de atendimento, para que o passaporte sentisse o bater do carimbo. Estava no Líbano. E a partir daí comecei a ver a guerra. No caminho até Damasco, muitas vezes tivemos de deixar a estrada principal para contornarmos as crateras provocadas pelos bombardeamentos israelitas, porque para além do aeroporto, também por essa estrada Israel sabia que a Síria podia fazer chegar ajuda militar ao Hezbollah. A estrada era um alvo.

Chegámos a Beirute ao início da manhã. Não tinha hotel marcado e era a primeira vez que estava em Beirute. Não conhecia ninguém nem tinha tido tempo para organizar fosse o que fosse. Basicamente entrei no primeiro hotel que encontrei no centro de Beirute: o Napoléon. Pareceu-me simpático e tinha quartos livres. Pouco tempo depois era praticamente impossível encontrar um hotel que não estivesse lotado porque os libaneses do sul, e do sul de Beirute, refugiaram-se na capital e encheram os hotéis. Não sei quantas estrelas tinha o Napoléon, mas reparei que tinha um piano no lóbi, cuja música eu acabaria por utilizar numa peça de reportagem. Hei de ter nos meus cadernos de notas o nome do tranquilo pianista que deslizava os dedos no teclado enquanto Beirute era bombardeada. Não me recordo do nome do pianista, mas recordo-me da canção: My Love!

Estava na hora de o motorista regressar a Damasco. Telefonou ao fixer a dar conta do trabalho terminado e perguntou-me quando é que me levaria de regresso a Damasco. Não sei, depois telefono. Combinado.

Arrumei as coisas no quarto. Não tinha ninguém para trabalhar comigo e tenho uma vaga ideia de ter sido no hotel que consegui um taxista para poder movimentar-me nessas primeiras horas. Precisava de ver a cidade: sentir aquele primeiro contacto, os primeiros cheiros, as primeiras pessoas, o trânsito, o caos que já tinha começado, os locais bombardeados. Se a memória não me falha, fiz o primeiro directo para a Antena 1 no noticiário das 08h00 (mais duas horas em Beirute) ainda sem nada de substancial para contar. Mas a Antena 1 passava a ser o único órgão de informação português em Beirute a acompanhar a guerra.

O Hotel Napoléon não me teria como hóspede por muito tempo. Não sei se no segundo ou terceiro dia depois de chegar a Beirute, estava ao telefone com alguém da direcção de informação da Antena 1 e Beirute estava a ser bombardeada. Do Hotel via as colunas de fumo enquanto as explosões faziam vibrar as janelas do quarto. Quem estava a falar comigo apercebeu-se desses sons e perguntou o que era. O que é? São as bombas a cair em Beirute, respondi. Perguntou-me se conseguia encontrar outro hotel, menos exposto. Eu disse que sim, mas era caro, era onde estavam os jornalistas das “BBC’s e CNN’s”… a resposta foi imediata: não interessa, sai daí imediatamente! Lá fui, para o Commodore. Há coisas que não se esquecem.

Nas horas e dias que se seguiram consegui organizar-me, encontrei um fixer – ficou um camarada e amigo para a vida, e voltámos a trabalhar juntos várias vezes, no Líbano e em outros países – que também era repórter de imagem. Poucas horas tinham passado da minha chegada a Beirute e a RTP (televisão) telefonou a pedir um directo no Telejornal, recorrendo às agências internacionais com ligação satélite. Nunca tinha “feito” televisão, muito menos directos, e apenas uma vez, no Iraque, tinha inventado uma situação frente à câmara. E foi isso que disse a quem me telefonou. Vamos experimentar, sem drama, respondeu. E assim foi. A coisa parece não ter corrido mal porque quiseram mais. Continuei a fazer directos e comecei a fazer peças de reportagem, que também nunca tinha feito para televisão. Depois ainda, foi a Agência Lusa a pedir-me uma peça diária. Mas como, perguntei eu, se tudo o que vejo e faço já está nas peças e nos directos para a rádio e para a televisão. Arranjas um ângulo diferente, responderam-me. Por vezes é difícil dizer não. De um momento para o outro vi-me a trabalhar, diariamente, para três órgãos de informação, em três registos diferentes, com tempos diferentes.

Quem nasceu no início dos anos 60 do Séc. XX, lembra-se bem dos relatos que chegavam de Beirute. Essa memória criou em mim um fascínio por Beirute! Um fascínio sem grande explicação, porque nada me ligava à cidade ou ao país.

Depois de conhecer Beirute, ficou-me para sempre no coração.

Era lá que eu gostava de estar agora.

Pinhal Novo, 30 de Maio de 2026

03h30

jmr

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