António Guterres do lado certo. Israel, o costume…

Antigo representante de Israel nas Nações Unidas, Gilad Erdan, em Maio de 2024, quando triturou a Carta das Nações Unidas em plena Assembleia Geral

O embaixador israelita nas Nações Unidas, Danny Danon, anunciou o corte de relações de Israel com o actual secretário-geral da ONU, António Guterres, até ao final do mandato (31 de Dezembro de 2026), devido à decisão de colocar Israel na lista negra de suspeitos ou responsáveis por violência sexual em conflitos.

Um comunicado do porta-voz do ministério dos negócios estrangeiros israelita considera que é “uma decisão vergonhosa e absurda” e “uma prova adicional da verdadeira natureza da Organização: uma instituição politizada e corrupta, que renunciou aos seus princípios fundadores e que faz do ataque sistemático a Israel a sua principal missão”.

O governo israelita não suporta António Guterres. Desde logo, conhecendo nós a política do governo de Benjamin Netanyahu, isso significa que o secretário-geral das Nações Unidas está do lado certo da história, porque não há forma de defender os ataques de Israel na Faixa de Gaza, que ultrapassam descaradamente o legítimo direito à defesa após o ataque do Hamas a 7 de Outubro de 2023. Aliás, começou aí o ódio que Israel destila contra António Guterres, depois deste dizer em reunião do Conselho de Segurança que seria importante reconhecer que o ataque do Hamas não tinha “surgido do nada” e de ter denunciado “claras violações da lei humanitária internacional em Gaza”. Tinham passado três semanas após o ataque do Hamas.

Israel não suportou o realismo de Guterres (que condenou o ataque do Hamas) e a acertada leitura dos acontecimentos. No mesmo dia, o embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, exigiu a demissão de Guterres. O mesmo Gilad Erdan que, menos de um ano depois, tendo ficado isolado com uma pesada derrota na Assembleia Geral da ONU (uma resolução que aprovou o reconhecimento da Palestina como Estado soberano teve o apoio esmagador de 143 países. Apenas nove países, incluindo os Estados Unidos e Israel, votaram contra; 25 países abstiveram-se), triturou uma carta das Nações Unidas dizendo que à Assembleia: “Vocês estão a triturar a Carta da ONU com as vossas próprias mãos. Sim, é isso que estão a fazer”, disse Gilad Erdan, ao usar um triturador para destruir o documento fundador das Nações Unidas. Quem utiliza assim a Carta das Nações Unidas, demonstra toda a falta de respeito que tem pela Organização.

Depois Outubro de 2023, Israel continuou a criticar António Guterres sempre que o secretário-geral da ONU se pronunciava contra as represálias e os intensos bombardeamentos na Faixa de Gaza. Foi um caminho que levou Israel a considerar Guterres como “persona non grata”. É o único país do mundo a desqualificar o líder da ONU desta forma.

Que eu tenha registado, Guterres ainda não mereceu – directamente – os epítetos de antissemita ou terrorista, mas não será de estranhar se tal vier a acontecer. Tudo o que contraria o governo de Israel merece essa resposta e até o embaixador de Israel em Portugal teve o desplante de ameaçar Portugal – sim, deve ser lido como uma ameaça – que se Portugal defender a suspensão do acordo de comércio da União Europeia com Israel, passa a ser considerado um país extremista.

Esta mais recente reacção de Israel contra António Guterres, surgem na sequência de um relatório do secretário-geral sobre violência sexual em conflitos, que ainda não foi tornado público, mas que já foi apresentado aos Estados envolvidos. Desde Agosto do ano passado que era conhecida a possibilidade de Israel vir a fazer parte de uma lista em que já consta o Hamas. A ONU refere que tem “informações credíveis” de violência sexual cometidas pelas forças israelitas contra prisioneiros palestinianos.

De há muito que Israel critica as Nações Unidas e várias agências da Organização, nomeadamente acusando a UNRWA (Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos) de abrigar funcionários que eram simultaneamente membros do Hamas, tendo proibido a UNRWA de trabalhar nos territórios palestinianos.

Ao corte de relações agora anunciado por Israel, Guterres reagiu como se impõe a quem está no mais alto cargo das Nações Unidas e mandou o porta-voz dizer que “da nossa parte, a porta do secretário-geral continua aberta”. Se o governo de Netanyahu esperava gritaria ou lamentos, enganou-se. O facto está criado, mas Guterres não alimenta a polémica e tira a Netanyahu a oportunidade de desviar as atenções de outras situações mais preocupantes.

Há cerca de 10 anos, antes de António Guterres tomar posse como secretário-geral da ONU escrevi, neste blogue, que receava a possibilidade de Guterres ser o último secretário-geral da ONU e o homem com a ingrata tarefa de fechar a porta https://meumundominhaaldeia.com/2016/09/20/antonio-guterres-arrisca-se-a-ser-o-ultimo-secretario-geral-da-onu/ . António Guterres aguentou-se e, em particular sobre a guerra israelo-palestiniana, soube fazer a leitura certa, não cedeu a pressões nem a ofensas, dignificou o cargo e a Organização das Nações Unidas. Há quem pense que o secretário-geral da ONU é assim uma espécie de presidente que decide o que muito bem entende, mas não é. O poder está no Conselho de Segurança.

Que me tivesse apercebido (pode ser falha minha), o ministro dos negócios estrangeiros, Paulo Rangel, ainda nada disse sobre o corte de relações de Israel com António Guterres. E será importante que diga, porque não basta gostarmos de ver portugueses neste tipo de funções. É preciso, em determinados momentos, marcar uma posição e defender publicamente quem está nestes cargos, ainda por cima com a coragem de enfrentar lóbis poderosos.

E quanto às palavras do embaixador de Israel, exige-se o mesmo.

Pinhal Novo, 29 de Maio de 2026

03h00

jmr

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