Líbano mergulhado na tragédia

Cerca de 40 quilómetros entre a fronteira e o Rio Zahrani foram declarados “zona de combate”. Israel avança no controlo de território libanês.

Tal como fez na Faixa de Gaza, Israel está a demolir o sul do Líbano. Não se trata apenas de atacar posições do Hezbollah ou infraestruras utilizadas pelo movimmento xiita libanês. O exército israelita, para além disso, provoca o pânico, emite sucessivas alertas de evacuação em zonas muito para além da chamada linha amarela – suposta “fronteira” da zona de segurança que Israel quer esbalecer no sul do Líbano – destrói infraestruras civis, não poupa locais arqueológicos ou religiosos, mata civis, médicos, enfermeiros, bombeiros, em termos mais populares “atira a tudo o que mexe”. O exército israelita transformou-se numa empresa de demolição, arrasando tudo o que lhe apetece. À medida que vai penetrando em território libanês, faz explodir casas e infraestruturas, sempre com o argumento de que são locais utilizados pelo Hezbollah.
O jornal Haaretz publicou esta quarta-feira uma fotografia do castelo Beaufort (ou Belfort), junto ao Rio Litani, a fumegar depois de um ataque. O exército libanês – que não intervém nesta guerra – não escapa, e anunciou a morte de (mais) um soldado num ataque aéreo israelita no vale de Bekaa. Nas últimas horas, os ataques israelitas mataram mais de 30 pessoas, sendo que o ataque mais violento foi em Burj Al-Shamali (onde está um dos doze campo de refugiados palestinianos no Líbano), onde morreram 15 pessoas, incluindo duas crianças.

“Zona de combate”

Ao final da tarde de quarta-feira (27), o exército israelita declarou que toda a zona a sul do Rio Zahrani é “zona de combate”. Uma declaração que não pode deixar de ser vista como o fim do cessar-fogo.

Poucas horas antes, o porta-voz em língua árabe do exército israelita, Avichai Adraee, lançou um alerta de evacuação para a cidade de Tiro: “Alerta urgente aos residentes de Tiro, dos campos de refugiados e dos bairros vizinhos (…) para a vossa segurança, devem evacuar as vossas casas imediatamente (…) para norte do rio Zahrani” (…) “ficam avisados: qualquer movimento a sul do rio Zahrani pode colocar as vossas vidas em risco”. O Rio Zahrani fica a 40 quilómetros da “linha azul” (a “fronteira” entre Israel e o Líbano, estabelecida pela ONU quando Israel se retirou do Líbano, em 2000). Imagina-se o pânico. É bom ter em conta que a área do Líbano é o equivalente a pouco mais de duas vezes a área do Algarve.

A cidade de Tiro, encostada ao Mediterrâneo, tem locais arqueológicos que são Património Mundial da Humanidade, estima-se que tenha cerca de 200 000 habitantes e é uma das cidades mais antigas do mundo permanentemente habitadas. O exército israelita, para além de destruir vidas e infraestruras destrói cultura, destrói memória, destrói a componente material da história que resistiu até aos nossos dias. Não há forma de não ler esta estratégia como a de um exército de bárbaros em marcha completamente desenfreada.

Até onde irá Israel?

Enquanto Estados Unidos e Irão negoceiam os termos de um acordo que permita acabar com a guerra iniciada por Estados Unidos e Israel, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, anunciou na segunda-feira (25) que pretende intensificar os ataques no Líbano e “esmagar” o Hezbollah: “Não vamos travar, antes pelo contrário, pedi mais intensidade” (…) “Vamos intensificar os ataques, com mais potência e vamos esmagar” o Hezbollah.

À ameaça de Netanyahu, juntou-se o incentivo dos ícones da extrema-direita no governo. Bezalel Smotrich, ministro das finanças, fez um pedido: “Por cada drone ou explosivo (do Hezbollah), dez edifícios devem cair em Beirute”; Itamar Ben-Gvir, ministro da segurança interna, apelou ao “regresso a uma guerra intensiva” e ao controlo do Rio Zahrani, situado cerca de 10 quilómetros a norte do Rio Litani e a 40 quilómetros da “linha azul” (a “fronteira” entre Israel e o Líbano).

Na terça-feira (26) Israel avisou os habitantes de Nabatiyé (centro-sul do Líbano) para saírem da cidade. Foi a primeira vez que a ordem de evacuação abrangeu toda a cidade e os cerca de 100 000 habitantes. O porta-voz militar em língua árabe disse que os libaneses deviam ir para norte do Rio Zahrani. Se somarmos este “aviso” feito à população de Nabatiyé com o “aviso” feito hoje (27) à população de Tiro, chegamos à conclusão que a zona tampão deixou de ter limite no Rio Litani, e passou esse limite para o Rio Zahrani (10 quilómetros a norte do Litani), até porque Israel assumiu que vai estender as operações terrestres para lá da “linha amarela” (uma marca estabelecida por Israel cerca de 10 quilómetros dentro de território libanês) que seria o limite da “zona de segurança” que Israel quer impor no Líbano.
Vários órgãos de informação israelitas noticiaram logo ontem (26) operações terrestres para lá da linha amarela, alegadamente com o objectivo de travar o lançamento de drones por parte do Hezbollah e Benjamin Netanyahu foi claro no início da reunião do gabinete de guerra: “De acordo com as minhas orientações, do Ministro da Defesa e do Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, estamos a intensificar a nossa operação no Líbano. As Forças de Defesa de Israel estão a operar com grandes contingentes em terra e a conquistar territórios estratégicos. Estamos a fortificar a zona de segurança para proteger as comunidades do norte” (de Israel).

Nabatiyé, de onde muitos habitantes já tinham fugido devido aos frequentes ataques israelitas, voltou a ser violentamente atacada.

A ameaça de Natanyahu começou logo a ser cumprida e a Agência Nacional de Informação (agência do Estado libanês, não ligada ao Hezbollah) deu conta de ataques ao redor da cidade milenar de Tiro (onde as ordens de evacuação provocaram o pânico), na região de Nabatiyé, em Machghara (zona ocidental do Vale de Beqaa) e dezenas de localidades na região sul do Líbano. Segunda-feira (25) à noite, o exército israelita já anunciava ter atacado mais de 100 locais e infraestruturas do Hezbollah.

Quanto ao movimento xiita libanês, reivindica ataques com drones a alvos militares no norte de Israel e anuncia combates e ataques directos a forças israelitas em território libanês. O líder do Hezbollah, Naim Qassem, continua a recusar negociações com Israel e o presidente libanês (que também não aceitou encontrar-se com o primeiro-ministro israelita) afirma que qualquer acordo terá de ser antecedido pela retirada militar israelita do sul do Líbano. Delegações dos dois países têm encontro marcado em Washington a 2 e 3 de Junho.

O ministério da saúde do Líbano, na terça-feira (26) dava conta de um balanço de 3 123 mortos e 9 737 feridos, desde 2 de Março, dia em que o Hezbollah entrou na guerra em defesa do ataque que Estados Unidos e Israel lançaram contra o Irão a 28 de Fevereiro. Israel admite (Agência France Press) a morte de 23 militares desde a mesma data. O Hezbollah não revela o número de baixas sofridas.

Havia um cessar-fogo em vigor desde 17 de Abril, mas era como se não existisse.

O Líbano que recebeu centenas de milhares de refugiados palestinianos aquando da criação do Estado de Israel e que recebeu mais de um milhão de refugiados sírios durante a guerra na Síria, merece muito mais atenção da comunidade internacional.

Tal como fez em relação à Faixa de Gaza, o mundo vai assistir a esta tragédia libanesa sem nada fazer, para além de produzir declarações muito indignadas, mas vazias.

Pinhal Novo, 27 de Maio de 2026

17h30

jmr

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