
Está demorado o acordo entre Estados Unidos e Irão. Donald Trump não se cansa de estabelecer prazos e ameaças, mas as declarações do presidente norte-americano já passaram da fase de provocar um sorriso a quem o ouve, para aquela sensação de ridículo a que um verdadeiro estadista não deveria expôr-se.
Em Teerão, o racionalismo e a frieza de dirigentes que sabem pensar, independentemente de concordarmos ou não com as suas decisões, e a inteligência na utilização das armas e recursos que têm à disposição, Trump é o melhor que lhes podia acontecer. Claro que o presidente norte-americano, num acesso de loucura, pode varrer Teerão do mapa e, como já ameaçou, acabar com uma civilização. Tem poder militar suficiente para isso e muito mais, mas também (esperemos…) terá pessoas em seu redor que mesmo alinhando em parte da loucura não vão com Trump até ao fim do mundo.
Desconfiança
A grande questão em cima da mesa, que não faz parte das propostas feitas por Teerão e Washington, chama-se confiança. Há uma enorme desconfiança mútua e muitas razões para isso. Em abono da verdade, face ao discurso ameaçador, errático e sempre ambíguo de Donald Trump, os iranianos têm todos os motivos para estarem reticentes e exigirem um acordo blindado, na forma e no conteúdo, para não terem surpresas desagradáveis. Donald Trump tem constantes alterações de humor e cria labirintos para os quais não encontra saída. Trump já rasgou um acordo. Os iranianos sabem disso.
Basta ver o que aconteceu nas últimas horas. Após dizer que um acordo estava muito próximo, Donald Trump acrescentou que o acordo será benéfico para os Estados Unidos ou não existirá. E esse benefício de que Trump agora fala, inclui que vários países muçulmanos assinem os Acordos de Abraão (que Emirados, Bahrein e Marrocos já assinaram), normalizando relações com Israel. À boa maneira de Trump, trata-se de uma assinatura à força, bastando ver os termos em que o presidente norte-americano colocou a questão: ” Deveria começar com a assinatura imediata da Arábia Saudita e do Qatar, e todos os outros deveriam seguir o exemplo” (…) “É possível que um ou dois países tenham um motivo para não assinar, e isso será aceite, mas a maioria deve estar pronta”. A inépcia de Trump fica escancarada quando decide fazer uma proposta destas num momento em que os muçulmanos iniciam a grande peregrinação anual a Meca, o Hajj. Pior não podia ser, mas para além disso, ao mesmo tempo, os Estados Unidos voltaram a atacar o Irão, na região de Bandar Abbas.
Abraão vai ter de esperar
Desde logo, não é expectável que a Arábia Saudita aceite a assinatura dos Acordos de Abraão, porque desde há muito que repete a necessidade de ver passos credíveis para a criação de um Estado palestiniano, antes de qualquer normalização das relações com Israel. Por muito que uma normalização com Israel pudesse contribuir para melhores negócios e enriquecimento das monarquias do golfo e de outros líderes políticos (entre eles o genro de Trump que faz negócios na região ao mesmo tempo que participa em negociações de paz) , todos sabem que a questão do Estado palestiniano tem um peso enorme na “rua árabe” e na Umma (a comunidade muçulmana) e que normalizar relações com Israel antes de haver esse Estado, seria visto como uma traição dos líderes políticos com consequências imprevisíveis (ainda não esqueceram a Primavera Árabe).
O Irão tem apresentado condições, tal como os Estados Unidos, e uma delas é que para haver acordo, a guerra no Líbano tem de acabar. Não se sabe em que termos e condições, mas o Irão não vai deixar cair o seu mais fiel aliado, o Hezbollah. Isto é algo que deixa o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, de cabelos em pé, porque quer continuar a ofensiva no sul do Líbano, onde o Rio Litani já deixou de ser aquilo que Israel designa como fronteira de segurança da zona tampão. Talvez porque até poderá haver avanços nas negociações entre os Estados Unidos e o Irão, Netanyahu decidiu intensificar os ataques israelitas no sul do Líbano.
O labirinto de Trump
Donald Trump pode estar a tentar um ganho político onde não consegue um ganho militar. Um eventual ganho militar, que obrigaria a um elevado nível de destruição do Irão, teria um preço que Trump sabe que o mundo dificilmente iria aceitar. Por outro lado, (os Acordos de Abraão) é também uma forma de tentar acalmar Israel na eventualidade de um acordo com o Irão sem a tal destruição que o governo de Benjamin Netayahu gostaria de ver abater-se sobre o Irão e as suas capacidades militares. Por último, Trump teria alguma coisa para apresentar internamente: um acordo com países muçulmanos que aceitassem normalizar as relações com Israel, o que Donald Trump transformaria numa vitória pessoal, na linha do “Novo Médio Oriente” que há muito promete, e que justificaria parte da guerra e do apoio ilimitado a Israel.
Olhando para o calendário político, estamos a viver uma janela de oportunidade para o governo de Netanyahu: as intercalares de Novembro, nos Estados Unidos, e as eleições de Outubro (ou antes…), em Israel, podem fechar essa janela. Uma janela através da qual Israel continua a avançar e a arrasar o sul do Líbano; continua a ocupar a Faixa de Gaza (cerca de 60% deste território, disse Netanyahu); continua a expandir a ocupação na Cisjordânia e anseia que os Estados Unidos retomem os ataques ao Irão. Estamos, quem sabe, nos últimos três ou quatro meses, em que o governo mais à direita na história de Israel tem o aliado perfeito na Casa Branca, ainda com a força da vitória no confronto com Joe Biden, mas já a perceber que os ventos podem mudar.
Trump faz o que lhe dá na gana mas, mesmo com um ego descomunal, acaba por ser como o comum dos mortais e também quer ter algum reconhecimento internacional. Se não conseguir reabrir o Estreito de Ormuz e um acordo para acabar com a guerra que lhe permita salvar a face, e se de algum modo enveredar por “rebentar” com o Irão, sabe que tem um preço a pagar e não terá qualquer reconhecimento enquanto líder e enquanto estadista.
Pinhal Novo, 27 de Maio de 2026
00h30
jmr
