Ben-Gvir, o diabo vestido de ministro

Capturas de ecrã do vídeo puplicado pelo próprio Itamar Ben-Gvir, ministro da segurança interna de Israel, no momento em que os activistas da flotilha estavam a ser humilhados e maltratados.

A política israelita atingiu um nível de paranoia e esquizofrenia que torna difícil qualquer adjectivação. Está para lá de tudo o que a mente humana mais perversa possa conceber.

O ministro da segurança interna, Itamar Ben-Gvir, também líder do partido ultranacionalista de extrema-direita Poder/Força Judaica, divulgou um vídeo em que deambula entre activistas da flotilha (raptados por Israel em águas internacionais) que se dirigia à Faixa de Gaza, enquanto estes são humilhados e maltratados (algemados, agredidos e forçados ficar de joelhos com a testa encostada ao chão) por agentes da segurança. Em fundo, ouve-se o hino de Israel. Ben-Gvir segura uma bandeira de Israel e vai dizendo frases como “Bem-vindos a Israel, nós somos os donos da terra, e é assim que deve ser”. Enquanto incentivava (“bom trabalho!”) os seguranças, Ben-Gvir também lhes dava conselhos perante uma mulher a chorar: “Não se incomodem com os gritos deles”. Se Ben-Gvir faz isto com cidadãos estrangeiros, filma e mostra, podemos facilmente imaginar o que faz com os palestinianos que caem nas prisões israelitas.

Depravação absoluta

As imagens que fazem o deleite de um Ben-Gvir triunfante demonstram uma crueldade extrema, insensibilidade e total falta de empatia e respeito pela dignidade das pessoas. Um homem que se regozija com este tipo de situação e a exibe como troféu, é um homem doente e perigoso, de quem a sociedade precisa de ser protegida. Ben-Gvir revela-se um homem despido de qualquer sentido de humanidade e um sem-vergonha, mas está bem acompanhado.

As imagens são de tal modo incómodas e reveladoras que o próprio primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, sentiu necessidade de dizer que “as imagens são “incompatíveis com os valores de Israel” e que apesar de Israel ter o direito de travar “as flotilhas provocadoras dos activistas apoiantes do Hamas”, “a forma como o ministro Ben-Gvir lidou com os activistas não está em consonância com as normas e valores de Israel”. 

Estamos cansados de ouvir este argumento de que as normas e os valores de Israel são uns, mas soldados e ministros teimam em esquecê-los. 

O ministro dos negócios estrangeiros, Gideon Saar, também se demarcou, acusando Ben-Gvir de ter “prejudicado deliberadamente” a imagem do país: “prejudicou o país conscientemente com esta horrenda farsa, e já não é a primeira vez”. 

De facto, Ben-Gvir é o mesmo ministro de distribuiu milhares de armas aos colonos após o ataque do Hamas em Outubro de 2023. Os mesmos colonos que atacam diariamente os palestinianos na Cisjordânia. Ben-Gvir é o mesmo ministro da segurança interna que transformou a vida dos prisioneiros palestinianos num inferno, cortando-lhes a alimentação, a assistência médica, as visitas dos familiares e dos advogados, promovendo a tortura e a humilhação dentro das prisões israelitas. Organizações defensoras dos Direitos Humanos têm denunciado os maus-tratos, tortura e superlotação nas prisões e o próprio Ben-Gvir divulgou vídeos com a presença e encorajamento do próprio ministro a encorajar a desumanidade.

Não há nenhuma surpresa, nem novidade, nas imagens divulgadas por Ben-Gvir

Com o passado que se lhe conhece, o vídeo agora divulgado por Ben-Gvir, com a humilhação dos activistas da flotilha, não surpreende. A surpresa poderá estar na reacção de Netanyahu e Saar. O primeiro-ministro e o ministro dos negócios estrangeiros sabem que os activistas não são palestinianos, muitos são europeus. Há uma linha que convém não ultrapassar de forma muito descarada – ainda agora Israel este no festival da Eurovisão e a União Europeia não levanta um dedo contra Israel – e Ben-Gvir passou essa marca. Sabemos todos que se Netanyahu quisesse impedir o que aconteceu, tê-lo-ia feito. Preferiu deixar acontecer e agora condena o sucedido pretendendo dar a imagem do estadista digno. Mas afinal, são todos do mesmo governo – o governo que fez aprovar a pena de morte para palestinianos – e todos têm incentivado e dado cobertura a todas as atrocidades e desmandos que têm sido cometidas e que motivaram os mandados de captura do Tribunal Penal Internacional. Só o apoio do governo e o sentimento de impunidade permitem a homens como Ben-Gvir exibir a desumanidade como troféu.

Ainda ontem, outro ministro, Bezalel Smotrich, com a pasta das finanças, disse que tinha a informação de que o TPI iria emitir um mandado de captura internacional contra ele. Em função disso, Smotrich acusou a Autoridade Palestiniana de ter encorajado a decisão e interpretou-a como uma “declaração de guerra”. Em resposta, como represália (e vingança), Smotrich ameaçou assinar de imediato a ordem de expulsão da comunidade beduína palestiniana de Khan-al-Ahmar, a leste de Jerusalém, na Cisjordânia ocupada, onde vivem cerca de 750 pessoas (Agência France Press).

Convém dizer que muitas famílias desta comunidade beduína foram expulsas do Negev na década de 50 do século passado. A localização de Khan al-Ahmar atravessa-se em terrenos que Israel pretende utilizar no “projecto E1” para facilitar a expansão dos colonatos na região de Jerusalém e que irá cortar a continuidade territorial entre Jerusalém e a Cisjordânia. Portanto, a questão do alegado mandado do TPI contra Bezalel Smotrich é apenas um argumento útil a uma política de anexação de território que o actual governo israelita incentivou e desenvolveu. Desse governo fazem parte os ministros mais extremistas que alguma vez já governaram o país. Smotrich é um deles e Ben-Gvir é outro, e esse governo é liderado Benjamin Netanyahu. 

As reacções de Netanyahu e Gideon Saar, cujas declarações e actos anteriores pouco diferem da linha de Ben-Gvir, podem ainda ser entendidas à luz da política interna. O parlamento israelita acaba de aprovar (uma votação preliminar) um projecto de lei para a sua dissolução (e consequente queda do governo), o que conduzirá a eleições antecipadas (110 votos a favor entre 120 deputados). O projecto de lei terá de ser votado mais três vezes para que a dissolução se concretize. As eleições estavam previstas para Outubro e se forem antecipadas a diferença será apenas de poucas semanas.

Governos incomodados

As imagens divulgadas por Ben-Gvir são daquelas que tornam o silêncio impossível. Vários governos apressaram-se a condenar a situação e a chamar os embaixadores israelitas para registarem um protesto e pedir explicações.

Os comunicados e as diferentes declarações dos governos cujos cidadãos estavam na flotilha e foram raptados por Israel estão recheados de palavras e frases como “consternação”, “choque”, “Monstruoso, indigno e desumano”, “intolerável”, “condenação veemente”…

Quanto a Portugal, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, admitiu que é uma “situação absolutamente inaceitável” e admitiu que “Portugal já tem manifestado a sua disponibilidade para uma suspensão parcial do acordo com Israel”. Falta saber, em concreto, o que significa “suspensão parcial do acordo”.

Antes, o ministério dos negócios estrangeiros já tinha condenado “veementemente o comportamento intolerável do Ministro israelita Ben Gvir e o tratamento infligido aos activistas da flotilha em humilhante violação da dignidade humana”.

Percebe-se este coro de protestos porque para consumo interno os governos têm de dizer alguma coisa. Muito mal estaríamos se a cumplicidade com Israel chegasse ao ponto dos governos ignorarem a humilhação a que os seus cidadãos são submetidos pelas autoridades israelitas.

Mas a dignidade e os direitos dos activistas não são mais importantes do que a dignidade e dos direitos dos palestinianos, e imagens semelhantes com prisioneiros palestinianos humilhados e maltratados são bem conhecidas e não geraram as palavras de indignação que agora saem, apressadas, das chancelarias e dos discursos governamentais. Aliás, os ministérios dos negócios estrangeiros dos países que agora se mostram indignados bem podiam reservar um dia por semana aos embaixadores israelitas para lhes pedirem contas sobre todas as violações de direitos humanos e crimes que são cometidos em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. 

Não tarda muito o assunto será esquecido.

Pinhal Novo, 20 de Maio de 2026

21h30

jmr

Deixe um comentário