Se isto não é perseguição aos cristãos…

Fotografia e legendagem da página de Facebook icatolica.com

Se os cristãos da Palestina ainda tinham a ilusão de que estavam a salvo da fúria dos extremistas israelitas, chegou o momento de deixar as nuvens e assentar os pés no chão.

O mais recente episódio é a não renovação de visto ao Padre católico Louis Salman. O Padre Salman é jordano, nasceu em 1989, serviu como pároco em Beit Sahour (próximo de Belém) e era o capelão do movimento de jovens cristãos palestinianos. O site http://www.indcatholicnews.com diz que Louis Salman despediu-se em Beit Sahour de forma comovente, no último domingo, perante centenas de palestinianos, depois de conhecer a recusa de renovação de visto que foi comunicada após intensos interrogatórios das forças de segurança israelitas. Teve ordem para sair antes de 11 de Maio. E saiu.

Jovens palestinianos com o Papa Leão XIV e o Padre Louis Salman (vestido
de preto e de óculos escuros a segurar na bandeira da Palestina), Praça de
S. Pedro, 1 de Outubro de 2025. Foto: Vatican News

O mesmo site católico cita fontes da Igreja que revelam os motivos da não renovação do visto: as suas ideias e a sua influência nos jovens cristãos, particularmente por descrever Israel como um poder de ocupação e por ter uma atitude humanista que marcava presença em muitos eventos palestinianos, como foi o caso no funeral da jornalista palestiniana-americana Shireen Abu Akleh (assassinada por um soldado israelita em Maio de 2022), no qual liderou a oração fúnebre.

Outro site (www.pillarcatholic.com), refere que Louis Salman fez também ouvir a sua voz contra os ataques dos colonos à cidade de Taybeh, cidade cristã na Cisjordânia, durante meses, sem que ninguém tenha sido preso: “Não podemos ignorar a realidade que está mesmo à nossa frente. Estas questões são visíveis para todos os que observam e formam o verdadeiro contexto da nossa situação atual; no entanto, as autoridades queriam que ele se calasse e agisse como se nada estivesse a acontecer”.

O Patriarcado Latino de Jerusalém não fez qualquer comentário oficial e prepara uma acção legal para reverter a recusa de visto. Percebe-se que as autoridades religiosas não queiram afrontar o poder israelita: têm noção do clima político em Israel e tentam não perder direitos no local mais sagrado para os cristãos. O certo é que, com essa mesma atitude ao longo dos tempos, não têm conseguido travar as investidas, cada vez menos dissimuladas, contra a presença cristã na Terra Santa.

Outros casos

A expulsão do Padre Louis Salman é apenas o mais recente episódio. Lembremos como durante a Páscoa, a pretexto da situação de guerra, Israel impediu o Patriarca Latino de Jerusalém, Pierbatista Pizzaballa, e o Custódio da Terra Santa, Francesco Ielpo, de entrarem na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, para celebrar a missa do Domingo de Ramos. A Igreja denunciou: foi “a primeira vez em séculos: medida grave e irracional, um afastamento dos princípios da liberdade de culto e do respeito ao status quo”.

Há muitos outros casos de ataques a locais e a membros da Igreja, e até de profanação de símbolos religiosos cristãos, como foi o caso (no sul do Líbano) dos soldados que destruiram uma estátua de Cristo à marretada e outro em que o soldado israelita coloca um cigarro na boca de uma imagem da Virgem Maria. O exército israelita anunciou que os militares que surgem nas fotografias foram punidos com penas que não excederam um mês de prisão e que outros foram chamados para serem ouvidos.

Os habituais argumentos das autoridades israelitas sobre os actos de soldados que profanam símbolos cristãos ou sobre a freira recentemente agredida num rua da cidade velha de Jerusalém, ou ainda dos actos de soldados que roubam ou vandalizam habitações palestinianas depois e durante as intervenções militares, já são palavras vãs. Ouvimos sempre o argumento de que esse tipo de actos não é compatível com os padrões de comportamento exigidos aos militares e a cidadãos israelitas em geral; ouvimos sempre apregoar uma conduta moral acima de qualquer suspeita, mas com o passar do tempo, verificamos que essas normas de conduta respeitadora não são a regra e são já a excepção. Um argumento cada vez mais insignificante como insignificante é hoje a acusação de terrorismo a tudo o que mexe desde que tenha cores palestinianas.

Os extremistas israelitas – campo aparentemente cada vez mais amplo que tem como grandes referências os actuais ministros Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir – e os defensores do supremasimo judaico, têm um caminho bem definido, e estão a percorrê-lo, em claro conflito com os direitos humanos e com o direito internacional.

Nem todos são extremistas

Membros da organização Tag Meir distribuem flores aos muçulmanos na cidade velha de Jerusalém. Foto da Tag Meir: Yossi Zamir

Todos os israelitas estão alinhados com esta atitude? Não, claro que não, e nas últimas horas tivemos prova disso mesmo: enquanto no “Dia de Jerusalém” (que celebra a conquista e ocupação de Jerusalém Oriental na guerra de 1967) os extremistas israelitas cantaram frases racistas (“morte aos árabes” e “Gaza é um cemitério”), agrediram muçulmanos e jornalistas nas ruas da cidade velha, no dia seguinte mais de 200 activistas da Tag Meir (a maior coligação de organizações judaicas que combatem os crimes de ódio e o racismo religioso em Israel, e que tem como objectivo aproximar diferentes grupos da sociedade israelita na batalha para erradicar o racismo) distribuiram 3 600 flores a comerciantes e residentes muçulmanos explicando o objectivo da acção: “os cânticos nacionalistas e violentos ouvidos (na véspera) não representam o judaísmo nem a sociedade israelita, e não podemos ficar de braços cruzados enquanto tais actos são realizados em nosso nome”. Haja esperança!

Por agora, as sondagens indicam que as políticas do governo de Benjamin Netanyahu recolhem um apoio significativo da sociedade israelita e é sempre bom não esquecer que Israel é o único país do mundo que considera o secretário-geral da ONU como persona no grata.

Não é coisa pouca.

Pinhal Novo, 16 de Maio de 2026

01h00

jmr

Deixe um comentário