Irão e Líbano, a mesma guerra, a mesma paz

Qana, Líbano, a sul do Rio Litani, dia 30 de Julho de 2006, dia em que um ataque israelita matou quase 30 pessoas, a maioria crianças. Ficou conhecido como o segundo massacre de Qana, porque em 1996 um outro ataque israelita na mesma zona, a um campo da ONU onde estavam pessoas deslocadas pela guerra, matou mais de uma centena de pessoas. Foto: jmr/arquivo

Delegações do Líbano e de Israel têm encontro marcado, em Washington, dias 14 e 15 de Maio. A data foi anunciada pelo departamento de estado norte-americano utilizando uma fonte anónima. É suposto, de acordo com a mesma fonte, que as duas delegações discutam os termos de um acordo de paz.

Uma questão que parece ser ignorada pelos Estados Unidos é que a guerra no Líbano está umbilicalmente ligada à guerra no Irão. Pretender separar as duas guerras é uma falácia que apenas pode servir quem tem o objectivo de prolongar as guerras e que vai encontrar mais argumentos num mais que provável falhanço das discussões entre as delegações israelita e libanesa. Não é crível que seja possível chegar à paz no Líbano sem que antes disso seja encontrada uma solução para a guerra que Estados Unidos e Israel desencadearam contra o Irão.

No Estreito de Ormuz não há qualquer sinal de apaziguamento e Donald Trump ainda não recebeu a proposta iraniana que dizia esperar na sexta-feira à noite (8). No Líbano, Israel mantém a ocupação do sul do país e continua a atacar território libanês, ataques nunca interrompidos desde o anúncio do cessar-fogo (17 de Abril), tendo atacado Beirute no dia 6 de Maio. O Hezbollah tem lançado mísseis e drones contra o norte de Israel e tem enfrentado as forças israelitas que ocupam território libanês.

Líbano e Israel não têm relações diplomáticas – oficialmente continuam em estado de guerra – mas houve dois encontros entre delegações dos dois países, dias 14 e 23 de Abril, na sequência dos quais o presidente norte-americano, Donald Trump, manifestou vontade de sentar à mesma mesa o primeiro-ministro israelita e o presidente libanês.

Israel e o alegado mediador norte-americano dizem que “não há qualquer problema entre os governos libanês e israelita”, acusando o Hezbollah de ser o grande obstáculo. Há alguma verdade nesta afirmação, mas é uma verdade muito incompleta, o que muitas vezes constitui uma grande mentira.

Soldado israelita no sul do Líbano profana imagem da Virgem Maria. Fonte desconhecida, circula redes sociais desde 6 de Maio de 2026. Exército israelita disse que vai investigar o soldado em causa.

A história mostra-nos as ligações de Israel com algumas facções dos cristãos libaneses e como essas ligações, muitas vezes, resultaram em consequências dramáticas para o Líbano, como foi o caso dos massacres de Sabra e Shatila, em Setembro de 1982, ou a colaboração do Exército do Sul do Líbano, maioritariamente formado por cristãos libaneses, que colaborou com a ocupação israelita até praticamente ao ano 2 000. Acontece que o presidente libanês, Joseph Aoun, é um cristão maronita. No Líbano, o presidente representa o Estado nas relações internacionais, negoceia e ratifica Tratados, mas terá de ter a aprovação do governo e em alguns casos do parlamento. Convém sublinhar que o governo é liderado por um muçulmano sunita, Nawaf Salam, (disse que é prematuro falar de qualquer reunião de alto nível entre o Líbano e Israel) e o parlamento por um muçulmano xiita, Nabih Berri, (que recusa negociações com Israel enquanto continuarem os combates no sul do Líbano). Depois de uma aparente hesitação inicial, o presidente libanês parece ter percebido que não tem companhia e que uma ida a Washington poderia agradar a Israel e aos Estados Unidos, mas iria mergulhar o Líbano numa crise de consequências imprevisíveis.

Negociações sem o Hezbollah?

Mas a verdade incompleta (para além da impossibilidade de separar as guerras no Irão e no Líbano), referida anteriormente neste texto, está mais relacionada com o facto de serem promovidas negociações para chegar a um eventual acordo de paz (ou consolidação do cessar-fogo) sem a presença daquele que todos reconhecem como um dos principais protagonistas: o Hezbollah. É difícil entender que se queira negociar a paz sem ter à mesa quem faz a guerra, ou apenas uma das partes que faz a guerra, Israel.

O movimento xiita libanês desde o início que tem recusado reconhecer estas discussões israelo-libanesas, acusa as autoridades libanesas de conduzirem o país à capitulação, e já se percebeu que dificilmente aceitará qualquer decisão que venha a ser tomada em Washington.

O próprio presidente libanês, que numa primeira fase pareceu estar disposto a um encontro com o primeiro-ministro israelita, recuou, e diz agora que um encontro com Benjamin Netanyahu só poderá acontecer depois de um acordo de segurança com Israel e depois de terminarem as “agressões israelitas”. O ministro dos negócios estrangeiros libanês estabeleceu como objectivo para o encontro de Washington a “consolidação do cessar-fogo”.

Sul do Líbano transformado numa nova Gaza

Israel continua a efectuar dezenas de ataques diários na zona sul do Líbano com o argumento de estar a perseguir combatentes do Hezbollah e em simultâneo aproveita para dinamitar aldeias inteiras, tal como já fez na Faixa de Gaza. Aldeias cristãs não escapam aos ataques israelitas e as fotografias de profanação de símbolos e imagens cristãs são uma vergonha a que o exército israelita não consegue escapar apesar de repetir que a actuação dos soldados não corresponde aos padrões de conduta que Israel diz defender.

O drama maior do Líbano foi sublinhado pela responsável da União Europeia para as situações de crise humanitária, Hadja Lahbib: “actualmente, mais de três milhões de pessoas, mais de metade da população do Líbano, depende da ajuda humanitária para sobreviver”.

Os ataques israelitas ao Líbano (desde os ataques americano-israelitas ao Irão em 28 de Fevereiro) mataram 2 750 pessoas, fizeram mais de 8 000 feridos e mais de um milhão de deslocados.

Face ao caos humanitário no sul do Líbano, Hadja Lahbib exigiu “acesso humanitário em pleno respeito pelo direito internacional humanitário. A ajuda não pode salvar vidas se não chegar às populações” e sublinhou como as intensas operações militares israelitas não têm poupado nada nem ninguém: “Os hospitais e as ambulâncias alvejados, e os jornalistas atacados simplesmente por fazerem o seu trabalho – nada o pode justificar. O direito internacional humanitário deve ser respeitado”.

Pinhal Novo, 10 de Maio de 2026

01h30

jmr

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