
Já todos percebemos que há um nó górdio no Médio Oriente. Donald Trump desencadeou uma guerra e não sabe como sair dela. As palavras de Trump perdem valor a cada dia que passa e os líderes iranianos sabem disso. Prolongar a guerra tem várias consequências: desde logo, serve os interesses do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu; agrava a queda de popularidade de Trump e pode comprometer os resultados eleitorais em Novembro, nos Estados Unidos; provoca a escassez de petróleo na Europa e o aumento dos preços; permite ao Irão reorganizar as suas defesas.
Claro que Donald Trump tem poder para acabar com a guerra de um momento para o outro, bastando fazer no Irão o que os Estados Unidos fizeram em Hiroshima ou Nagasaki. Será bom acreditar que tal não lhe passa pela cabeça. Mesmo com toda a boçalidade que o caracteriza, ainda não foi tão longe, embora já tenha ameaçado fazer desaparecer uma civilização inteira numa só noite, sem que tenhamos ficado a saber o que realmente queria dizer. A verdade é que, até hoje, os Estados Unidos foram o único país a utilizar armas nucleares. Esperemos que, na mesma sala oval, onde os crentes fazem as orações colocando uma mão no ombro do “grande líder”, haja uma réstia de lucidez.
E por falar em armas nucleares, as tais que Donald Trump diz que o Irão nunca poderá ter, um grupo de deputados norte-americanos do partido democrata enviou uma carta à administração Trump para que acabe com o silêncio relativamente ao programa de armas nucleares israelitas. Silêncio sobre o nuclear israelita, tem sido a política das administrações norte-americanas.
Longe vai o tempo (5 de Outubro de 1986) em que o segredo mais mal guardado (nesse tempo ainda bem guardado) do mundo, foi revelado por Mordechai Vanunu, e publicado pelo Sunday Times: “Revealed: the secrets of Israel’s nuclear arsenal”; e mais longe vai o dia (24 de Outubro de 1956) em que Shimon Peres, em Sèvres, França, abordou o ministro dos negócios estrangeiros francês, Christian Pineau e o ministro da defesa francês, Maurice Bourgès-Maunoury, e pediu ajuda francesa para que Israel construísse um reactor nuclear. Shimon Peres confessa, no livro “Não há Sonhos Impossíveis”, a enorme surpresa da rápida resposta francesa. Desde esse momento que se tem mantido o segredo e a “ambiguidade” quanto ao nuclear israelita. Israel nunca assinou o Tratado de Não Proliferação nuclear e não se submete às inspecções da Agência Internacional de Energia Atómica. Ninguém conhece, oficialmente, o armamento nuclear de Israel.
E se há quem não saiba, há quem, sabendo ou não, nada diz sobre o assunto, nomeadamente os Estados Unidos. Precisamente por isso, o grupo de cerca de 30 eleitos do partido democrata quebrou um tabu até aqui partilhado por democratas e republicanos: “não podemos desenvolver políticas coerentes de não-proliferação no Médio Oriente, nomeadamente no que concerne ao programa nuclear civil do Irão e as ambições do nuclear civil da Arábia Saudita, mantendo uma política oficial de silêncio sobre as capacidades em matéria de armas nucleares de um protagonista central (Israel) no conflito em curso”. Estes deputados exigem à administração norte-americana que “exija a Israel que esteja em conformidade com os mesmos padrões de transparência que os Estados Unidos esperam de qualquer outro país que procure desenvolver ou manter capacidades de armamento nuclear”.
A carta estabelece o dia 18 de Maio como data limite para uma resposta do secretário de estado Marco Rubio. Deve poder usar-se aquela expressão popular “podem esperar sentados”.
Pinhal Novo, 8 de Maio de 2026
03h00
jmr
