
A pergunta não é retórica. Desde logo porque os palestinianos poucos poderes têm para decidir o seu próprio destino face à ocupação israelita que tudo condiciona. Ainda assim, os palestinianos votaram a 25 de Abril em eleições autárquicas. Votaram, mas pouco, porque os territórios palestinianos estão em guerra: Gaza, apesar do cessar-fogo em vigor desde Outubro, soma mais de 800 mortos vítimas de ataques israelitas; a Cisjordânia, desde Outubro de 2023, conta com mais de 1 000 mortos, vítimas do exército e dos colonos israelitas.
Acresce que mais de metade da Faixa de Gaza está sob controlo israelita e a outra metade, onde estão mais de dois milhões de palestinianos, está destruída, com as pessoas a viverem em tendas e a lutarem pela sobrevivência; na Cisjordânia, as sucessivas ofensivas do exército israelita e os ataques dos colonos, provocaram milhares de deslocados e obrigam os palestinianos a viverem em pequenas bolsas de território com acessos controlados por check-points.
Na terça-feira, 28 de Abril, o vice-secretário-geral da ONU para Assuntos Políticos, Khaled Khiari, disse ao Conselho de Segurança que a população de Gaza enfrenta ataques israelitas contínuos e mortais, além de condições humanitárias “calamitosas”. Na Cisjordânia, a violência, o deslocamento forçado e a aceleração da actividade de colonatos ameaçam comunidades inteiras e minam ainda mais as perspectivas de um processo político capaz de resolver o conflito.
Para além de tudo isto, a particular perseguição israelita contra os dirigentes do Hamas, e também de outras formações políticas palestinianas, faz com que muitos tenham sido mortos e muitos outros tenham sido presos, impossibilitando (principalmente) o Hamas de se apresentar ou de apoiar listas concorrentes às eleições, aliás o Hamas boicotou as eleições na Cisjordânia. Um factor que condiciona por completo as eleições porque o Hamas tem sido o grande rival político da Fatah, partido político que domina a Autoridade Palestiniana (AP) desde a sua formação.
Os palestinianos votaram nas eleições possíveis. Na perspectiva da AP, a realização das eleições em cerca de metade da Cisjordânia e apenas num município de Gaza, foi um sinal de que a AP tem capacidade para governar os territórios e que a Faixa de Gaza é uma parte inseparável de um Estado da Palestina. É também um sinal que a AP quis dar de que pode governar todo o espaço palestiniano.

É difícil imaginar eleições em territórios onde a violência é diária, onde a lista de mortos faz sempre parte das notícias, onde muitas casas são agora tendas, onde os ataques ora chegam do exército israelita, ora chegam de um outro “exército” de colonos com o apoio do primeiro. Em Gaza, no dia anterior às eleições (dizem que há um cessar-fogo…), o exército israelita matou 13 palestinianos. Ainda assim, os palestinianos foram votar.
Falta saber se é uma vitória organizar eleições, mesmo que apenas em parte do território palestiniano, sob condições terríveis e num contexto de enorme sufoco, ou se a impossibilidade prática de participação do Hamas alimenta a dúvida da preferência dos palestinianos e da legitimidade dos agora eleitos, na maioria afectos à Fatah.
Nunca saberemos qual seria o resultado destas eleições se o Hamas pudesse apresentar ou apoiar listas concorrentes. Sabemos que, nas actuais condições, as listas “Firmeza e Generosidade”, apoiadas pela Fatah, ganharam a maioria dos lugares em disputa.
Resultados
Na Cisjordânia, com cerca de 1,5 milhões de eleitores inscritos, os dados da Comissão Eleitoral referem uma participação de 53,4%. Em Gaza, eleições apenas no município de Deir Al Balah (centro da Faixa de Gaza), 70 000 eleitores inscritos, votaram 23%. No caso deste município da Faixa de Gaza (governada pelo Hamas desde 2007), com 15 lugares em disputa, a lista apoiada pela Fatah e AP conquistou 6; a lista que era vista como próxima do Hamas conquistou 2 e os outros 7 lugares foram para duas listas de grupos independentes.

Críticas e boicotes
Para além das limitações impostas pela situação de guerra e ocupação, outros factores levaram ao boicote das eleições por várias formações políticas. Mustafa Barghouti, uma das vozes mais credíveis e líder da Iniciativa Nacional Palestiniana, foi um dos que boicotou as eleições por discordar da imposição da Autoridade Palestiniana (AP) que exigia a todos os candidatos que se comprometessem com os objectivos e compromissos assumidos pela própria AP. Barghouti explicou na AL Jazeera que apenas houve eleições em 183 das 429 comunidades da Cisjordânia; em 49 não se apresentou qualquer lista e em 197 apenas se apresentou uma lista, não chegando a haver votação (casos de Nablus e Ramallah). Em Jenin, cidade onde a resistência armada tem longa tradição, dos 15 lugares em disputa, a Fatah conquistou 6 e a lista “Jenin”, outros 6. A agência AFP deu conta de comemorações de grupos de jovens no centro de Jenin com palavras de ordem relacionadas com os grupos armados locais, um sinal de que o resultado eleitoral foi uma derrota para a Fatah. O Hamas disse que iria respeitar o resultado eleitoral e a polícia de Gaza garantiu a realização das eleições em Deir Al Balah.
É cedo para saber para que serviu este voto dos palestinianos, mas terá servido, pelo menos, para contrariar e mostra firmeza em relação aos que, em Israel, assumem que vão “continuar a matar a ideia de um Estado da Palestina. O voto possível, nas eleições possíveis.
01 de Maio de 2026
01h30
jmr
