A paz da linha amarela

A “linha amarela” (neste caso a vermelho) traçada pelo exército israelita na região sul do Líbano. Território libanês ocupado em nome da segurança de Israel.

Quando não há fronteiras estabelecidas através de Tratados entre países e com reconhecimento internacional, criam-se as linhas coloridas. Linha Verde, no caso da separação de Israel e dos Territórios Palestinianos (ano de 1 949); Linha Azul, no caso de Israel e do Líbano (2 000); mais recentemente surgiram as “linhas amarelas”, uma na Faixa de Gaza (onde Israel ocupa cerca de metade do território) e outra na região sul do Líbano, ambas impostas por Israel.

No caso do Líbano, esta “linha amarela” foi referida pela primeira vez no sábado, 18 de Abril, num comunicado do exército israelita, já depois do governo de Telavive ter dito que os militares tinham ordem para transformar a zona a sul do Rio Litani numa zona letal para os combatentes do Hezbollah. Usar “força total”, foi a ordem de Benjamin Netanyahu e do ministro da defesa, Israel Katz. Para além disso, Israel Katz especificou que as ordens são para demolir estradas e estruturas que estejam armadilhadas e sejam vistas como uma ameaça para os soldados; outra ordem: “destruir as casas, nas aldeias próximas da fronteira, que serviram de postos avançados dos terroristas do Hezbollah e ameacem as comunidades israelitas”, do outro lado da fronteira. Nem mais nem menos do que Israel fez na Faixa de Gaza.

A Agência oficial de notícias do Líbano, a ANI, dá conta da destruição das casas nas aldeias a sul da “linha amarela”. A aldeia de Bint Jbeil, a cerca de cinco cinco quilómetros da fronteira, palco de violentos combates, está quase totalmente destruída.

O eufemismo do cessar-fogo

Apesar do cessar-fogo em vigor desde 17 de Abril, e apesar de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter dito que “Israel não bombardeará mais o Líbano. Estão proibidos de o fazer pelos Estados Unidos. Já chega!”, as forças israelitas atacam tudo o que consideram ser uma ameaça, mesmo quando não são atacadas.

O cessar-fogo, de dez dias, aceite pelo primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e pelo presidente libanês, Joseph Aoun, é um compasso de espera enquanto são esperadas negociações directas que o Hezbollah continua a recusar.

No primeiro discurso à nação depois da entrada em vigor do cessar-fogo, o presidente libanês disse que pretende um acordo permanente com Israel, que salvaguarde os direitos do povo libanês, a unidade e a soberania da nação, recusando a ideia de que as negociações com Israel sejam sinal de fraqueza e prometendo não ceder um centímetro do território libanês.

A visão do presidente libanês choca de frente com a visão do Hezbollah. O movimento xiita está contra as negociações com o inimigo israelita e classifica o encontro de embaixadores (israelita e libanesa) em Washington como “um espectáculo vergonhoso”. O líder do Hezbollah, Naim Qassem, diz que o Líbano está a ser insultado, com os Estados Unidos a ditar as regras e a falar em nome do governo libanês. Apesar desta forte discórdia, o Hezbollah diz estar aberto a “total cooperação” com as autoridades libanesas, abrindo um novo capítulo e utilizando as suas forças “no quadro de uma estratégia de segurança nacional”.

O que o Hezbollah não abdica é de responder aos ataques israelitas avisando que um cessar-fogo significa uma paragem completa das hostilidades, e acrescentando que o movimento não confia no inimigo e por isso, “os combatentes da resistência continuarão no terreno, de dedo no gatilho, para responder às violações” do cessar-fogo.

Quem desarma o Hezbollah?

Pede-se, exige-se, ao governo libanês que desarme o Hezbollah, sabendo todos os actores internacionais que isso é impossível – o governo não tem poder e, eventualmente, nem apoio popular para o fazer – sendo assim um acto de pura hipocrisia a exigência de desarmamento do Hezbollah. Quando muito, essa exigência, ao não ser cumprida, servirá para justificar outras acções contra o Líbano.

O Hezbollah tem o apoio de cerca de um terço da população libanesa e, para além da população xiita, há outros libaneses que consideram o Hezbollah a única força que pode opor-se a Israel.

Convém lembrar que Israel já invadia o Líbano antes do Hezbollah existir e que o movimento libanês foi criado precisamente com o argumento de resistir à invasão e aos ataques israelitas.

Exigir ao governo e ao exército libanês – ele próprio vítima dos ataques israelitas mesmo sem estar directamente envolvido na guerra – que desarme o Hezbollah, significa criar um confronto com o movimento xiita e, muito provavelmente, acender o rastilho de uma nova guerra civil. Ninguém deve ter a ousadia de lembrar aos libaneses qual é o preço de uma guerra civil. Aliás, também sabem muito bem que isso apenas beneficiaria Israel e poderia ser um argumento para manter a ocupação do sul do Líbano. A linha amarela já existe.

Pinhal Novo, 21 de Abril de 2026

02h00

jmr

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