A NATO já dorme mais descansada

Mahmut Tat, curdo deportado pela Suécia, já na Turquia. Foto: Kurdistan au Féminin

Sono imperturbável em Bruxelas. Há mais um Curdo nas prisões turcas. É uma parte do preço a pagar para que a Turquia aceite a entrada da Suécia e da Finlândia na NATO. O Ministro da Defesa turco disse que é um “bom princípio”, mas a Turquia quer mais. A Turquia pretende que Suécia e Finlândia deportem, pelo menos, mais de trinta curdos (há dúvidas quanto ao número concreto) que Ankara acusa de pertencerem ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) ou às YPG (Unidades de Protecção Popular) sírias.

Mahmut Tat, o curdo agora deportado, foi enviado pelas autoridades suecas para Istambul depois de rejeitarem um pedido de asilo. Este refugiado Curdo (na Suécia desde 2015) tinha sido condenado na Turquia a 6 anos e 10 meses de prisão por alegada ligação ao PKK, classificado de terrorista pela Turquia, União Europeia e Estados Unidos. A designação tem cada vez menos peso, de tal forma foi banalizada por todos os que apontam o dedo a um inimigo. Basta ver a troca de acusações entre Moscovo e Kiev e ficamos elucidados.

Quem hoje tira o tapete aos activistas curdos, esqueceu-se rapidamente que o PKK e as milícias sírias YPG foram a linha da frente na luta contra a organização Estado Islâmico. Quem assim procede, talvez diga agora que tivemos terroristas a combater terroristas. Foram úteis, agora podem ser descartados. Tão simples quanto isso.

O advogado de Mahmut Tat contou à rudaw.net que as autoridades suecas disseram ao curdo (a esta hora já nas prisões turcas), que era uma pessoa perigosa para a Suécia porque era procurado pela Turquia. Mahmut Tat terá respondido que apenas participou em dois protestos democráticos como cidadão comum e que tinha ficado “do lado dos oprimidos apoiando a luta democrática. Se isso é terrorismo, sim, eu sou um terrorista”.

A Turquia manda

Esta cedência da Suécia está em linha com o Memorando entre Turquia, Suécia e Finlândia, assinado a 28 de Junho de 2022, em Madrid. Um acordo, em dez pontos, que vale a pena ser lido em cada linha das suas três páginas, e que mostra como a Turquia se impõe, ditando os termos em que Suécia e Finlândia podem aderir à NATO; um acordo que, embora não o diga explicitamente, deixa implícito que os Estados Unidos também apoiam o terrorismo ao darem abrigo a Fethullah Gülen (recusando extraditá-lo), teólogo que lidera o Movimento Fetö, que a Turquia considera terrorista e acusa de ter orquestrado a tentativa de golpe em 2016.  Ora, no referido Memorando, Suécia e Finlândia comprometem-se a não dar apoio às YPG/PYD (Unidades de Protecção Popular/Partido da União Democrática) nem à organização “designada como FETÖ na Turquia”. Os Estados Unidos fizeram que não viram o que está escrito neste acordo.

Direitos Humanos

Mas se os Estados Unidos, em termos de Direitos Humanos, têm uma Guantánamo para dar exemplos ao Mundo, já a Suécia e a Finlândia, supostamente enquadradas por valores mais decentes, cederam em toda a linha em termos de Direitos Humanos. Dois países da União Europeia a cederem ao país que, após um processo de décadas, não conseguiu preencher os critérios para ser admitido na União Europeia. Dois países europeus a cederem a um país onde qualquer pessoa ou organização que se atreva a afrontar o poder é facilmente classificado de “terrorista”. Basta ver os relatórios das organizações de direitos humanos ou relativos à liberdade de imprensa.

Para já, a Suécia sofre uma humilhação ao ser forçada a alterar a sua legislação, para aceder às exigências da Turquia, em nome de um alegado combate ao terrorismo que tem como único objetivo atingir os curdos que encontraram refúgio no país. Os Direitos Humanos dão um passo atrás na Suécia. E na Europa.

Os Direitos Humanos não têm fronteiras e não podem servir de moeda de troca, seja qual for o pretexto. Sabemos que a organização NATO não tem uma relação directa com a Democracia – será bom lembrar que o Portugal de Salazar foi um dos países fundadores – mas então também será bom que excluam essa palavra do léxico oficial e que nos deixem de falar em Direitos Humanos.

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