Curdos massacrados, silêncio da comunidade internacional. Nada de novo!

Legenda da foto: Kobani, 2 de Novembro de 2015, mais ou menos 05h30. Créditos: jmr/arquivo.

Agrava-se a situação no Curdistão sem que se conheça qualquer reacção de peso da chamada “comunidade internacional”.

A Turquia ataca (regiões curdas) no norte do Iraque e norte da Síria; o Irão ataca a região leste da Região Autónoma do Curdistão (em território do Iraque). O Mundo está calado ou, por outro lado, critica o Irão devido à sangrenta repressão das manifestações após a morte de Mahsa Amini, mas esquece a especificidade dos curdos. Há também uma questão maior em cima da mesa que é o Acordo Nuclear com o Irão, e falar de curdos seria acrescentar dificuldades às que já existem e que não permitiram ainda que o acordo fosse assinado. Parece que é do interesse do ocidente criar dificuldades ao Irão, mas parece não interessar defender os curdos; quanto à Turquia parece que tem “carta-branca” na “questão curda”, talvez devido ao papel de mediador que o presidente turco tem tido na guerra na Ucrânia e porque ainda é um obstáculo à entrada da Suécia e da Finlândia na NATO. Na recente reunião do G20, tal como noutros tempos na Turquia, “Curdistão” foi palavra proibida.

Chovem mísseis

Nos últimos dias, a Turquia intensificou os bombardeamentos no norte do Iraque e no norte da Síria, com o argumento de ser uma resposta ao atentado de 13 de Novembro, em Istambul. Recorde-se que as forças curdas acusadas da autoria do atentado rejeitaram de imediato qualquer responsabilidade. A rejeição é para levar a sério, porque sempre que no passado as forças curdas cometeram atentados, reivindicaram a autoria e assumiram a responsabilidade.

O Ministro da Defesa turco confirmou 89 alvos atacados e destruídos e “muitos terroristas neutralizados”; o Observatório Sírio dos Direitos Humanos dá conta de 18 mortos entre os combatentes das Forças Democráticas da Síria (FDS) e 12 mortos entre as forças do regime sírio, havendo ainda cerca de 40 feridos. Entre os mortos está o jornalista Issam Abdallah, correspondente sírio de uma agência de notícias curda. As autoridades curdas da Síria dão conta de 29 mortos. No Iraque, O Governo Regional curdo disse que não houve vítimas.

Legenda da foto: Mazloum Abdî, comamdante das Forças Democráticas da Síria. Créditos: Kurdish Front News

FDS preparadas para a guerra

Perante este quadro, há notícia de reacção das forças de Bashar Al Assad com ataques a posições turcas na região de Idlib. O Ministério da Defesa sírio, tinha acusado a Turquia de agressão e reconhecera a morte de soldados sírios.

O comandante das FDS, General Mazloum Abdî, acusou os serviços secretos turcos de estarem por detrás do atentado de 13 de Novembro de modo a que a Turquia possa justificar uma invasão de Rojava (Curdistão ocidental, integrado na Síria). Este líder militar avisou: “não queremos uma grande guerra, mas se a Turquia assim quiser, nós e o nosso povo estamos preparados para a guerra. Será uma guerra que não ficará limitada apenas a uma área, como outras vezes, mas estender-se-á a toda a região”.

Mahsa Amini era curda

Quanto ao Irão, o Governo aumentou significativamente a presença de forças militares nas zonas curdas e os Guardas da Revolução Islâmica mataram 25 curdos, entre 15 e 18 de Novembro, em cidades curdas que foram palco de protestos. Eram contra a actual situação política no Irão, mas também para lembrar o terceiro aniversário do “Novembro Sangrento” em 2019, quando se registou o massacre de 1.500 pessoas que protestavam contra o aumento do preço dos combustíveis. Fontes curdas referem que desde o início dos protestos após a morte de Mahsa Amini (de origem curda), em 16 de Setembro, a repressão já provocou a morte de mais de 400 pessoas, cerca de 15.000 foram detidas e há um número indeterminado de pessoas condenadas à morte. Os curdos representam uma forte preocupação para o governo iraniano porque são cerca de 10 milhões (a população total do Irão são cerca de 86 milhões) e porque são maioritariamente sunitas enquanto no Irão existe uma maioria xiita.

Kobani celebrou a vitória e honrou os mártires

Legenda da foto: 1 de Novembro de 2015, Dia Internacional de Solidariedade com Kobani. Em Kobani. Créditos: jmr/arquivo

A Turquia e o Irão massacram os curdos, consideram-nos terroristas e beneficiam de uma “comunidade internacional” com outras prioridades e completamente desinteressada da “questão curda”. Os curdos apenas foram úteis quando enfrentaram a organização Estado Islâmico. Longe vão os tempos em que o mundo celebrava o Dia Internacional de Solidariedade com Kobani (a 1 de Novembro), a cidade mártir. Kobani resistiu e libertou-se do cerco da organização Estado Islâmico e é agora bombardeada pela Turquia. A Paz tarda a chegar.

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