Israel: mudam os governos, mantém-se a ocupação

Em Israel, há cinco anos, foi assim: Yair Lapid (Partido “Yesh Atid”, centro), Naftali Bennett (partido Bait Yehudi, o homem que disse “já matei muitos árabes e isso não tem problema nenhum”) e Mansour Abbas (Lista Árabe Unida), fecharam o acordo que permitiu uma maioria no Knesset, atirando Benjamin Netanyahu para a oposição. Com um acordo de rotação na liderança do governo, Naftali Bennett foi primeiro-ministro durante um ano; Yair Lapid sucedeu-lhe (era esse o acordo), mas apenas resistiu cinco meses. Foto: Nawaf Navari

Netanyahu ou Eisenkot, um deles deverá ser primeiro-ministro de Israel na sequência das recentes eleições, mas nem um nem outro vão resolver/acabar com o principal problema: a ocupação israelita dos territórios palestinianos. Por Netanyahu falam os muitos anos em que tem estado à frente do governo; de Gadi Eisenkot temos o que disse na campanha eleitoral: não vai permitir “colonatos ilegais”, esquecendo que à luz do direito internacional todos os colonatos na Cisjordânia são ilegais.

Seja quem for o primeiro-ministro do próximo governo israelita, os palestinianos nada podem esperar que altere o status quo (na Cisjordânia e em Gaza) em seu benefício. Com Netanyahu, a ocupação será ainda mais intensa e violenta. Poderá, no caso de Eisenkot, mudar a retórica e a estratégia, mas o objectivo mantém-se: anexar a Cisjordânia é uma questão de tempo e a velocidade a que esse objectivo será concretizado depende apenas do carácter mais ou menos radical de quem está no governo.

As recentes eleições dizem-nos várias coisas: os israelitas querem ver Netanyahu afastado (tem processos na justiça a que dificilmente escapará e está por determinar a responsabilidade que teve no 7 de Outubro, para além de ter tentado anular o poder do sistema judicial transferindo poderes para o Parlamento); os colonatos não são um problema para os israelitas; a população palestiniana decidiu votar, dando aos “partidos políticos árabes” o melhor resultado de sempre: 19 dos 120 deputados do Parlamento.

Mas outras coisas que estas eleições não dizem: como deve Israel lidar com a situação na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Aliás, não podiam dizer porque, no contexto actual, qualquer candidato que admitisse em campanha eleitoral uma retirada de Gaza, mudança de política em relação aos colonatos ou aliança/entendimento com os partidos árabes para formar governo, teria a derrota garantida.

Os fiéis de Benjamin Netanyahu (também de Trump, Bolsonaro e Milei…) que olham de fora para estas eleições, desdobram-se a referir que a participação da população palestiniana de Israel no acto eleitoral é a prova que Israel não é um apartheid e que não está a decorrer qualquer genocídio.

As eleições, o voto, é o último reduto em que os palestinianos que vivem em Israel ainda podem dizer o que pensam sem arriscar a prisão ou a perseguição. Em tudo o resto são considerados e tratados como cidadãos de segunda. Só quem não conhece a realidade se pode deixar iludir.

Aliás, entre a própria população judaica, a origem é também uma forte condicionante na hierarquia social, mesmo que seja um subtema ou um tema tabu. Basta ver que nunca Israel teve um primeiro-ministro que não fosse de origem Ashkenazi. Pode ser uma coincidência, mas é um facto. O próprio Gadi Eisenkot acusou recentemente Benjamin Netanyahu de marginalizar os representantes sefarditas no Parlamento. O mesmo Eisenkot que, em tempos, escreveu ao primeiro-ministro israelita alertando para o problema demográfico que Israel iria enfrentar no caso de anexação da Cisjordânia. Mais três milhões de palestinianos a votar nas eleições israelitas seria um problema.

Henrique Raposo escreve no online do Expresso (Se há partidos “palestinianos” em Israel, como é que há “genocídio” e “apartheid”?) que «Israel tem de decidir: ou é democracia ou é judaico? Qual é a sua natureza? Qual é a sua raiz? Como já salientei várias vezes ao longo destes anos todos, há uma tensão entre a ideia de “democracia” e a ideia de “estado judaico”. Se a escolha for a segunda hipótese, isso coloca em causa a liberdade cosmopolita do país e abre espaço a uma segregação que daria finalmente razão aos críticos. Ou seja, se os partidos árabes são vistos como uma ameaça à segurança, então isso coloca em causa a própria democracia israelita e abre, de facto, o caminho para um apartheid.»

Aqui chegados, é bom recordar que houve uma tentativa de Netanyahu para excluir os partidos árabes destas eleições, à qual a Comissão Eleitoral deu seguimento e que só o Supremo Tribunal travou. Depois, uma parte importante (não consigo quantificar…) da população judaica israelita considera que a inclusão de partidos árabes numa coligação de governo seria um acto de traição.

Apesar disso, não seria a primeira vez: em 2021, Mansour Abbas, líder da Lista Árabe Unida, foi vice-ministro para os assuntos árabes no gabinete do primeiro-ministro, quando a aliança Naftali Bennett e Yar Lapid interrompeu temporariamente os sucessivos governos de Benjamin Netanyahu.

Se para muitos israelitas a presença palestiniana num governo de Israel é vista como traição, essa presença não é menos complicada para os eleitores palestinianos. Mansour Abbas terá de explicar muito bem como vai ser possível integrar um governo que mantém a guerra na Faixa de Gaza – todos os dias morrem palestinianos -, que mantém a ocupação da Cisjordânia e toda a terrível violência dos colonos, que recusa um Estado da Palestina e que pratica a punição colectiva (expressamente proibida pelo Direito Internacional e classificada como crime de guerra). No entanto, estamos perante obstáculos e dificuldades que podem ser ultrapassadas através de “milagres” em que a política é fértil. Se não conseguirem, num cenário de repetição de eleições, é Benjamin Netanyahu quem sai a ganhar.

Mas, ainda quanto a «Israel tem de decidir: ou é democracia ou é judaico?», a resposta já é conhecida. Henrique Raposo está a esquecer que o Knesset aprovou (62 – 55) a “Lei Básica: Israel como Estado-Nação do Povo Judeu”, habitualmente referida por “Projecto de Lei do Estado-Nação”. Essa lei, estabelece que “o Estado de Israel é o lar nacional do povo judeu, no qual ele realiza seu direito natural, cultural, religioso e histórico à autodeterminação”, sendo esta um “exclusivo do povo judeu”. Nos 11 pontos da Lei, apenas um deles refere o “idioma árabe”, mas nunca a população ou o povo árabe/palestiniano é referido, numa evidência clara da marginalização de mais de 20% da população do país. Até a questão do calendário a utilizar evidencia essa marginalização: será utilizado o calendário hebraico em paralelo com o calendário gregoriano (o que utilizamos na Europa e em geral no Ocidente), mas não é referido o calendário muçulmano. Os feriados nacionais são os judaicos e apenas é reconhecido aos “não-judeus o direito de manterem dias de descanso em seus shabatots (dias de descanso semanais) e festivais”. Esta Lei explica tudo e não deixa dúvidas, mesmo que algumas leituras consigam produzir interpretações mais suaves.

Quanto aos genocídios, não são todos iguais, tal como existem diferenças significativas nos casos de apartheid que é possível sinalizar. Aliás, este argumento deve ser facilmente entendido por aqueles que defendem que Portugal não viveu um verdadeiro fascismo só porque existiu também o fascismo italiano.

Pinhal Novo, 31 de Outubro de 2026

01h00

jmr

Deixe uma Resposta