
Israel é dos países do mundo em que a política externa e a política de defesa pouco ou nada mudam na sequência de eleições parlamentares. Evidentemente que os protagonistas podem mudar mas, principalmente num contexto pós 7 de Outubro e num clima de guerra em várias frentes, dificilmente será alterada a essência da governação israelita que tem vindo a ser desenvolvida nos últimos anos. Para além das questões de política interna, o que está em jogo é precisamente a escolha de um primeiro-ministro e o tipo de governo que poderá formar para continuar a política de costas voltadas para uma solução política com os palestinianos e as guerras em que o país está envolvido. Não parece que perante os candidatos que se apresentam a votos, esteja em causa saber se Israel vai privilegiar a diplomacia ou a guerra.
Todas as sondagens apontam claramente para que o Yashar, de Gadi Eisenkot, e o Likud, de Benjamin Netanyahu, sejam as forças políticas mais votadas, com vantagem para o primeiro. Falta saber quais os partidos que conseguem entrar no Parlamento (é preciso 3,25% de votos a nível nacional) e que relação de forças vai existir que permita/condicione as possibilidades de coligação governamental. Há também a possibilidade de um governo minoritário com eventuais apoios parlamentares, o que não é hábito em Israel.
De Netanyahu sabemos o que esperar; de Eisenkot, as palavras permitem esperar uma liderança diferente, e mesmo dizendo que não haverá um Estado da Palestina num próximo governo liderado por ele, alguns analistas interpretam a construção da frase como não sendo um absoluto fechar de portas a essa solução. Quanto a Gaza, promete acabar com o poder do Hamas em 18 meses. Na Cisjordânia, defende os colonatos “legais” (esquecendo neste caso que à luz do Direito Internacional todos os colonatos são ilegais).
Sendo um antigo militar de alta patente, Eisenkot é também filho de judeus marroquinos, uma origem (sefardita ou mizrahi) que é vista como um estatuto menor e se chegar a primeiro-ministro será a primeira vez que o cargo é ocupado por alguém com estas origens. A origem dos candidatos ganhou peso na campanha eleitoral e Eisenkot acusou Netanyahu de marginalizar os representantes sefarditas no Parlamento.
Pode acontecer que os israelitas considerem chegado o momento de ter um primeiro-ministro menos mediático, sem estar envolvido em casos de justiça e que devolva a Israel algum respeito no plano internacional. Há poucos dias, Eisenkot fez a pergunta: “Estas eleições são as mais importantes desde a criação do Estado. E a questão que se impõe é: que tipo de líderes desejam os cidadãos? Querem a liderança de Ben Gvir, Smotrich e Netanyahu, que falharam miseravelmente a 7 de Outubro? Ou querem uma liderança diferente, que ofereça um governo honesto?”. Saber o que de facto aconteceu a 7 de Outubro, e que permitiu o ataque do Hamas, é uma questão que a maioria dos israelitas quer ver esclarecida e em relação à qual Benjaimn Netanyahu nunca permitiu que fosse feita uma investigação independente. Uma questão que poderá ter consequências no voto.
Eisenkot, que recusa entrevistas à imprensa estrangeira, é descrito como um homem de poucas palavras, mas que sabe ouvir, perdeu um filho e dois sobrinhos em combate na Faixa de Gaza, mas não hesitou em falar de “terrorismo judaico sob os auspícios do governo” quando na Cisjordânia os colonos atacaram recentemente uma jornalista norte-americana e um autarca francês. Ainda assim, está longe de poder ser considerado um pacifista ou um “pró-palestiniano”, como tem feito notar alguma imprensa.
É certo que nenhum dos partidos políticos terá uma maioria absoluta – é assim há décadas – e aquele que o presidente israelita indigitar para formar governo (não é obrigatoriamente o líder do partido mais votado) terá de negociar com as outras forças políticas. Sabemos no que deu quando Benjamin Netanyahu se rodeou dos actuais parceiros governamentais do Likud. Partindo do princípio que uma coligação de Governo entre os dois principais candidatos é uma solução inviável, a questão é saber se será possível formar um governo que deixe de fora as forças mais radicais. Se Eisenkot chegar a primeiro-ministro que parceiros vai privilegiar e que tipo de negociações e cedências poderá fazer de modo a garantir o apoio de 61 deputados?
Se atendermos ao que tem vindo a prometer durante a campanha, não vai ter tarefa fácil:
– Uma comissão nacional de inquérito sobre as falhas de segurança que permitiram o ataque do Hamas a 7 de Outubro de 2023;
– Limitar as excepções aplicadas ao serviço militar dos ultra-ortodoxos;
– Proteger a independência da justiça e defender o Estado de Direito;
– Defender os direitos das minorias
– Defender a liberdade de imprensa
Deixando os partidos árabes fora da equação, Gadi Eisenkot dificilmente poderá contentar os sectores mais liberais, de maior pendor democrata e, simultaneamente, aceder às aspirações de colonos religiosos, de ultra-ortodoxos ou da extrema-direita. Mas, em Israel, governar e formar coligações tidas como improváveis, é uma arte muito antiga.
Uma última pergunta está a pairar nestas eleições: se Netanyahu perder, o que lhe irá acontecer?
Pinhal Novo, 27 de Outubro de 2026
03h00
jmr
