O dilema libanês

É bom termos em conta que a actual guerra no Líbano apenas existe porque Estados Unidos e Israel decidiram atacar o Irão em 28 de Fevereiro. Concordemos ou não, é a realidade que não pode ser negada. E é perante essa realidade que não se compreende que Estados Unidos e Irão tenham assinado um protocolo para negociar a paz sem que o Líbano, o Hezbollah e Israel tenham sido incluídos nas negociações. Aliás, o texto do protocolo não faz qualquer referência a Israel, nem ao Hezbollah, sendo o Líbano referido três vezes, logo no primeiro ponto, no qual fica determinado fim imediato das operações militares em todas as frentes. Dirão que está implícita a referência ao Hezbollah e a Israel, mas não é. Outro aspecto que não se compreende é o das negociações entre Israel e o governo do Líbano que deixam de fora o Hezbollah. Há claramente uma estratégia de Estados Unidos e de Israel para dividir o campo inimigo e, de preferência, acrescentar uma divisão dos libaneses. É uma estratégia que deve estar condenada ao fracasso, mas ainda assim é com ela que os libaneses estão confrontados.

Lições da história

O Líbano tornou-se independente poucos anos antes da declaração de independência de Israel. Talvez por ser um Estado ainda em construção, teve uma participação muito limitada na guerra de 1948, quando vários países árabes não aceitaram a criação de Israel. Desde essa guerra, o Líbano não teve intervenção nas guerras que se seguiram e em que Israel enfrentou coligações de Estados árabes: 1956, 1967 e 1973. Mas, depois dessas guerras e até outubro de 2023, o Líbano – a par dos palestinianos – foi o maior alvo de Israel, que por 3 vezes invadiu o país: 1978, 1982 e 2006. A invasão israelita iniciada em 1982, que motivou a criação do Hezbollah, apenas terminou em 2000. Pelo meio, uma guerra civil, com apoio de Israel a diferentes facções, principalmente cristãs, mas não só.

De uma forma muito geral e abreviada, é este o histórico que conta quando pretendemos analisar a forma como o Líbano encara a actual guerra e a forma como os libaneses olham para o outro lado da “linha azul”.

Para além da influência da memória, é redutor dividir a sociedade libanesa em compartimentos religiosos estanques, esperando encontrar posições muito bem definidas, e interpretar a realidade social e política exclusivamente com base nessa divisão. Desde logo porque xiitas, sunitas e cristãos maronitas, sendo os principais pilares do Líbano, não são os únicos (há outros, como os drusos…). São os mais numerosos, mas cristãos e muçulmanos albergam diferentes confissões entre eles e também diferentes sensibilidades políticas. Não há Censos recentes que forneçam dados rigorosos sobre a dimensão das comunidades xiitas, sunitas e cristãs.

O pilar da política libanesa

Depois de um primeiro pacto nacional quando o Líbano se tornou independente, em 1943, um segundo pacto, o Acordo de Taifa, foi assinado em 1990 e continua em vigor. Esse Acordo, que encerrou a guerra civil libanesa, reduziu o poder dos cristãos (privilegiados pelos franceses no momento da independência, em 1943), retirando poderes ao presidente, estabelecendo que muçulmanos e cristãos têm igual número de deputados e mantendo que os três altos cargos do Estado são distribuídos por cristãos (presidente da república), sunitas (primeiro-ministro) e xiitas (presidência do parlamento).

Este Acordo de Taifa pode ser visto de duas maneiras com avaliações (quase) opostas: os que consideram que tem garantido a estabilidade do Líbano ou, pelo menos, tem evitado uma nova guerra civil; e os que defendem que o Acordo não permite o desenvolvimento do país, com os diferentes grupos mais interessados em parcelas de poder que satisfaçam clãs e confissões religiosas do que num verdadeiro interesse nacional. Talvez estas duas visões tenham, ambas, alguma razão, mas para quem viveu uma guerra civil trágica, a paz entre libaneses é um bem maior e essa tem sido mantida.

Por outro lado, a divisão de poder no Líbano criou uma teia demoradamente construída, criando dependências e muitas vezes apenas com esse propósito único de satisfazer interesses particulares. Para alterar esta situação – na qual se inclui o Hezbollah e o poder que o movimento xiita libanês tem – é preciso encontrar uma solução política muito trabalhada e que terá de ser igualmente demorada, de modo a evitar rupturas que mergulhem o Líbano numa nova tragédia.

O peso do Hezbollah

Face aos ataques, influência, invasões e ocupação israelita, o olhar dos libaneses tem muitas nuances e, mais uma vez, não é propício ao simplismo de pretender encontrar um olhar homogéneo de cada uma das principais comunidades. Ao longo da história, as alianças foram de geometria variável.

Se regressarmos à guerra e invasão do Líbano em 2006, um olhar para a conferência internacional de Roma em que o então primeiro-ministro (sunita), Fouad Siniora, disse que o Hezbollah (xiita) fazia parte do tecido político, social e histórico do Líbano, rejeitando a classificação como grupo terrorista ou corpo estranho dentro do Líbano. Siniora acrescentou que o Hezbollah tinha um histórico legítimo de resistência à ocupação israelita, deixando claro que a destruição ou erradicação militar do Hezbollah era irrealista e nunca seria uma solução.

É certo que Fouad Siniora apresentou um plano de 7 pontos que atribuída ao Estado Libanês a exclusividade de controlo do território e, na conferência de Roma, Siniora defendeu a entrega das armas do Hezbollah ao Estado, mas também disse que seria através da integração nas estruturas políticas e de defesa do Líbano. Para além disso, o Plano Siniora, serviria de base à Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, a mesma que Israel diz que o Líbano não cumpriu. No plano enviado à ONU, consta um ponto em que Siniora pretende que o Conselho de Segurança se comprometa a colocar a área das Quintas de Shebaa e as Colinas de Kfarshouba sob jurisdição da ONU até que a delimitação das fronteiras e a soberania libanesa sobre as mesmas estivessem totalmente definidas. Essa pretensão nunca foi cumprida. A Resolução 10701, não consegue ir mais longe do que reiterar “o seu forte apoio, conforme reiterado em todas as suas resoluções anteriores relevantes, à integridade territorial, soberania e independência política do Líbano dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas, conforme previsto no Acordo Geral de Armistício Israelo-Libanês de 23 de março de 1949”. Para o Líbano, as quintas de Shebaa eram território libanês aquando da assinatura do referido Armistício; para Israel eram território sírio ocupado na guerra de 1967.

O desarmamento do Hezbollah não é impossível, mas a segurança do Líbano tem de estar garantida. E não está. As últimas décadas mostram que tem sido o Hezbollah a defender o Líbano. Aliás, Israel já atacava o Líbano antes da existência do Hezbollah.

Podemos gostar ou não, mas se houver alguma tentativa de desarmar o Hezbollah pela força, o Líbano arrisca – se a mergulhar no abismo.

A escolha difícil

Só os libaneses têm o direito de dizer o que é melhor para o Líbano. O país atravessa dificuldades enormes, fruto das guerras e da corrupção das elites que controlam a política e a economia. A ocupação israelita, e também síria, minaram os alicerces da sociedade e deixaram o libanês comum desamparado.

O contexto é muito difícil, mas há decisões que não podem esperar pela resolução de todos os problemas e os libaneses têm de escolher entre permitir uma nova fractura da sociedade, com consequências imprevisíveis e certamente dolorosas, ou encontrar uma estratégia de união, um mínimo denominador comum, que permita aos libaneses defender o país e enfrentar os inimigos externos, sem que isso os divida e coloque uns contra os outros. Os libaneses conhecem o elevado preço da tragédia de uma guerra civil.

Nota final: há um livro muito interessante para ajudar a conhecer a realidade libanesa: “No Labirinto, o Líbano entre guerras, política e religião”, de Miguel Portas. É de 2006, mas está profundamente actual se o soubermos ler.

Pinhal Novo, 21 de Junho de 2026

21h00

jmr

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