Somalilândia, achas para a fogueira no Corno de África

As guerras que varrem o mundo ofuscam naturalmente outros acontecimentos que em situação de paz mereceriam outra atenção. Talvez por isso, e apesar de ter sido noticiado em Portugal, passou quase despercebido que Israel foi o primeiro país a reconhecer a Somalilândia como Estado independente e soberano. Foi a 26 de Dezembro de 2025. 

Quase seis meses depois, a Somalilândia abriu Embaixada em Jerusalém e os presidentes dos dois países encontraram-se na cidade que tem um estatuto internacional para ser a capital da Palestina e também de Israel. Foi a primeira visita oficial de um presidente da Somalilândia ao estrangeiro desde que foi declarada a independência, em 1991.

A Somalilândia declarou independência em plena guerra civil na Somália, mas até agora não conseguiu reconhecimento internacional, para além de Israel. O presidente, Abdirahman Mohamed Abdullahi, sublinhou isso mesmo: ” Durante 35 anos, a Somalilândia tem-se empenhado em diálogos e tentado estabelecer contactos com líderes de todo o mundo. Só nos pedem uma coisa: querem ver-nos. Apenas um país nos quis ver e reconhecer a Somalilândia: o Governo israelita e o seu povo”.

O presidente israelita, Isaac Herzog, sublinhou uma visita que “simboliza o grande potencial desta nova e maravilhosa parceria” e lembrou que os dois países “enfrentam a ameaça do extremismo radical. Ambos procuramos a segurança e a estabilidade na região e no Corno de África. Ambos reconhecemos a importância de proteger a liberdade de navegação”. Aqui chegados, esta frase diz muito da ambição de Israel relativamente à Somalilândia e à enorme importância da sua localização: zona de acesso ao Mar Vermelho – uma das mais importantes rotas comerciais – com uma extensa costa no Golfo de Áden junto ao Estreito de Bab El-Mandeb e tendo o Yémen (e os Houthis) na margem oposta do Estreito.

Abdirahman Mohamed Abdullahi, presidente da Somalilândia e Isaac Herzog, presidente de Israel, encontraram-se em Jerusalém, 14 de Junho de 2026. Foto divulgada pelo GPO/Ma’ayan Toaf

Três dias depois, o ministro da defesa de israelita, Israel Katz, em comunicado, foi mais assertivo: “Há muitos anos que cooperamos discretamente numa série de operações que permanecerão confidenciais” (…) “Agora, estamos determinados a levar a nossa cooperação em matéria de segurança a um novo patamar”.

De facto, não se sabe ao certo em que ponto está a cooperação. Em Maio, numa entrevista ao Fórum de Segurança e Defesa de Israel, o general israelita reformado, Amir Avivi, disse que “Israel está a desenvolver capacidades militares na Somalilândia… agora temos lá uma base”. E acrescentou: “as pessoas não sabem disto, mas a Marinha israelita opera na região”, o que “melhorou significativamente” a capacidade de Israel para lidar com os Houthis (do Iémen), aliados do Irão. É muito claro que Israel tem um objectivo estratégico e de segurança: um importante ponto de apoio militar nas margens do Mar Vermelho. O especialista em geopolítica do Corno de África, Roland Marchal, disse ao jornal francês Le Monde, que para além de Embaixadas no Quénia e Etiópia, Israel já tinha “estações de escuta” nas ilhas Dahlak (sob soberania da Eritreia) mas com o reconhecimento da Somalilândia, Israel entra na região pela “porta grande”, o que representa uma ruptura da Ordem Regional. A União Africana desaprova e a Liga Árabe também. Olham para este reconhecimento como mais uma acha para uma fogueira numa região já suficientemente servida de conflitos.

Dentro da habitual reciprocidade nas relações diplomáticas, Israel também já nomeou um embaixador para a Somalilândia.

Um abanão na Ordem Regional

O reconhecimento da Somalilândia levanta questões na Ordem Internacional e mais directamente na Ordem Regional. Desde logo, a Somália reclama a Somalilândia como parte do seu território. O governo da Somalilândia acredita que outros países podem agora seguir o exemplo de Israel, mas nada garante que assim seja. As milícias Al Shabab, da Somália, e os Houthis, do Iémen, ameaçaram com represálias. A Somalilândia, que não tem qualquer ajuda económica internacional e vive principalmente da exportação de gado (85% das receitas), espera retirar benefícios económicos deste reconhecimento, mas a presença de qualquer infraestrutura militar israelita no país torna-o um alvo sem capacidade militar de defesa.

Israel e Estados Unidos isolados na ONU

Três dias depois de Israel reconhecer a Somalilândia, o Conselho de Segurança da ONU reuniu-se de urgência para debater o tema. De forma unânime, com excepção dos Estados Unidos, todos criticaram e condenaram Israel. O embaixador da Somália acusou Israel de pretender fragmentar a Somália; o representante do Paquistão acusou Israel de ser uma fonte de instabilidade e conflito no Médio Oriente devido à ocupação dos territórios palestinianos e “agora, Israel está a exportar essa conduta desestabilizadora para o Corno de África”; o observador da União Africana sublinhou que deve ser feito o “pleno reconhecimento” do Estado da Palestina “em vez de tomar medidas provocatórias se sem precedentes contra uma região no continente africano”; o representante da Liga Árabe foi o mais incisivo ao acusar Israel de “legitimar as aspirações separatistas” para ter pretexto de uma presença ilegal em território somali, para promover a sua própria agenda. As implicações mais perigosas, acrescentou, incluem planos para o deslocamento forçado do povo palestiniano e a exploração dos portos do norte da Somália para a construção de bases militares. China, Rússia, Turquia, África do Sul foram alguns dos outros países que criticaram Israel.

O representante de Israel defendeu que o reconhecimento da Somalilândia não é um acto de hostilidade em relação à Somália: “o reconhecimento não é um acto de desafio, é uma oportunidade”.

Tentando misturar o que não pode ser misturado, o representante dos Estados Unidos defendeu Israel afirmando que “muitos países, incluindo membros do Conselho de Segurança, tomaram a decisão unilateral de reconhecer o não-existente Estado da Palestina, sendo que não foi convocada qualquer reunião de emergência do Conselho de Segurança”. O embaixador da Eslovénia teve de lembrar ao embaixador norte-americano que a comparação não fazia sentido porque a “Palestina não faz parte de nenhum Estado, é um território ocupado ilegalmente… a Palestina é também um Estado com o estatuto de observador nas Nações Unidas. Por outro lado, a Somalilândia é uma parte de um Estado-membro da ONU e reconhecê-la vai contra a Carta das Nações Unidas”.

Economia frágil

O país, com cerca de 6 milhões de habitantes quase todos muçulmanos sunitas tem uma constituição que estabelece o Islão como religião de Estado e determina que as leis não podem contrariar a Sharia. Apesar da relativa acalmia desde a declaração da independência, há conflitos entre os diferentes clãs e as vozes que se levantaram contra esta relação com Israel foram rapidamente silenciadas através da prisão. Foi o caso de vários Imãs e também alguns intelectuais.

Noutros tempos foi a União Soviética, depois os Estados Unidos da América, mas agora os Emirados Árabes Unidos são os únicos que investem na Somalilândia, desde há alguns anos, tendo construído um porto militar e um porto comercial (Berbera) através do qual o país exporta e recebe bens, e que serve também a Etiópia, país sem acesso ao mar que procura fazer crescer a relação com a Somalilândia para reduzir a dependência do vizinho Djibouti. Atualmente, não há bancos estrangeiros na capital, Hargeisa, nem sequer a Somalilândia tem código SWIFT atribuído, o que a deixa fora do sistema internacional. As grandes empresas não têm forma de investir no país e os empresários da Somalilândia têm de recorrer aos bancos dos Emirados ou da Etiópia para fazerem transações. São também estes problemas que os líderes da Somalilândia esperam começar a ultrapassar depois do reconhecimento israelita.

O vizinho Djibouti

Apesar da posição dos Estados Unidos no Conselho de Segurança, a esperança das lideranças em Hargeisa passa por Washington. Os Estados Unidos anunciaram que não mudaram de posição (“não temos qualquer anúncio a fazer sobre um reconhecimento da Somalilândia por parte dos Estados Unidos. Não há alteração da política norte-americana”), mas apesar disso existe um lóbi Republicano que vê a Somalilândia como alternativa à localização da grande base norte-americana no Djibouti, instalada muito próximo da única base chinesa no estrangeiro, realidade que não agrada aos norte-americanos, sendo que os Estados Unidos vão ter de optar entre a relação que mantêm com a Somália e aquela que poderão vir a ter com a Somalilândia.

Pinhal Novo, 26 de Junho de 2026

14h00

jmr

Deixe um comentário