
A 13 de Abril de 1975, um autocarro que transportava palestinianos em Beirute foi atacado por milícias cristãs no bairro de Ayn El Remmaneh. Este momento é considerado o início de uma guerra civil que dilacerou o Líbano durante 15 anos. Muitas guerras e 51 anos depois (quase no mesmo dia de Abril), o Líbano está de novo a viver o martírio da guerra e senta-se à mesa com Israel para tentar um entendimento que permita calar as armas.
Foi um primeiro encontro, que juntou os embaixadores de Israel e do Líbano nos Estados Unidos, embaixador dos Estados Unidos no Líbano, um conselheiro do Departamento de Estado e o secretário de estado norte-americano. Chegaram a acordo para começar negociações directas, mas não se conhece a data, nem o local, nem os protagonistas. Em Washington, até prova em contrário assistiu-se a uma encenação e o que todos sabem, mas não dizem, é que as negociações entre Israel e o Líbano vão dar em coisa nenhuma. Este primeiro encontro mereceu o carimbo de “ocasião histórica” por parte de Marco Rubio, secretário de estado norte-americano, mas o que seria realmente histórico seria as anunciadas negociações produzirem um Acordo de Paz.
Até lá, e admitindo esse milagre, há vários motivos para não acreditar nessa possibilidade e é preciso sublinhar que, por agora, fala-se apenas na cessação de hostilidades. O que já seria bom.
Desde logo merece registo a ausência do Hezbollah, o inimigo de Israel, sendo o próprio ministro dos negócios estrangeiros israelita, Gideon Saar, a dizer que “não há diferenças importantes/maiores entre Israel e o Líbano. O problema é o Hezbollah”. Assim sendo, parace evidente que a paz ou um cessar-fogo terão de ser negociados com o Hezbollah.
Depois, porque o papel de mediador está entregue aos Estados Unidos que não é, como sabemos, um interveniente equidistante, sendo aliás o melhor aliado de Israel, como o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, repete sempre que pode, afirmando que nunca Israel teve melhor amigo do que Donald Trump.
Depois ainda porque Israel continua a invasão do sul do Líbano com Netanyahu a dizer que não vai parar enquanto não destruir o Hezbollah, exigindo o desarmamento do movimento libanês. Netanyahu exige um acordo de paz duradouro, o que é pedir muito na situação actual e pode comparar-se à exigência que Donald Trump diz ter feito à equipa norte-americana que negociou com o Irão: “quero tudo (os pontos que constavam da proposta norte-amerianca)!”.
É da praxe dizer-se que é em situações extremadas e aparentemente insolúveis que muitas vezes os inimigos dão um aperto de mão e selam um acordo, mas dificilmente será o caso.
Benjamin Netanyahu disse que foi o presidente libanês que pediu as conversações e que Israel iria aceder a esse pedido, o que dá o mote para uma narrativa que prepara a responsabilização do Líbano perante um eventual fracasso. E, de facto, quando o governo e o presidente libanês aceitam negociar em tais condições, colocam o Líbano numa situação de enorme fragilidade. O presidente libanês aceitou (e pediu para) sentar-se à mesa com aqueles que estão a destruir uma parte significativa do país e que recusaram incluir o Líbano no cessar-fogo entre Estados Unidos e Irão, apesar do mediador, o primeiro-ministro paquistanês, ter dito que o acordo incluía o Líbano. A 13 de Abril, o Ministério da Saúde libanês deu conta de 2 089 mortos e 6 762 feridos, desde 2 de Março. É este o balanço trágico que não para de aumentar enquanto as negociações dão os primeiros passos.

O governo israelita tenta ganhar tempo. Respira, rearma-se, reorganiza-se e tenta dizer internamente que até está a tentar negociar e se as negociações não trouxerem resultados terá mais apoio para continuar a guerra. É muito provável que Israel venha a criar uma “zona tampão” (semelhante à que está criada em Gaza) em território libanês (até ao Rio Litani, a cerca de 30 km da fronteira entre os dois países). O anterior cessar-fogo, obtido em Novembro de 2024, foi constantemente violado por Israel (também pelo Hezbollah) que nunca retirou totalmente de território libanês.
O presidente libanês, Joseph Aoun, disse esperar que estas negociações sejam “o princípio do fim do sofrimento dos libaneses”, acrescentando que “não haverá um regresso à estabilidade no sul do Líbano se Israel continuar a ocupar o território”. O ministro dos negócios estrangeiros israelita, Gideon Saar, disse que “não há diferenças importantes/maiores entre Israel e o Líbano. O problema é o Hezbollah”. De facto, sendo esse o problema e não estando o Hezbollah envolvido nas negociações, que resultado se pode esperar? O Hezbollah, pela voz do líder, Naim Qassem, considera as negociações uma “submissão e uma capitulação”. Nair Qassem rejeita negociações enquanto não for encontrado “um acordo e um consenso libanês”. Até lá, promete “resistir. Não nos renderemos e ficaremos no campo de batalha, até ao nosso último fôlego”.
Quando se diz que o Hezbollah é o problema do Líbano, convém não esquecer que o Hezbollah surgiu precisamente como resposta à agressão israelita. Israel invadiu o Líbano, em Março de 1978 – “Operação Litani”, em plena guerra civil libanesa, e de novo em Junho de 1982. É neste contexto que surge o Hezbollah, inspirado na revolução iraniana de 1979 e como resposta à agressão de Israel.
A narrativa que tenta fazer crer que Líbano e Hezbollah são duas realidades completamente distintas distorce a realidade. Muitos libaneses podem não ter qualquer afinidade com o Hezbollah, não tenhamos dúvidas, mas uma outra parte muito considerável da sociedade libanesa está ligada ao movimento xiita libanês. E sempre que Israel invadiu o Líbano, os libaneses sabem que foi o Hezbollah que defendeu o país e valeu aos libaneses através da sua própria rede de assistência médica e social.
Esta divisão que Israel tenta exacerbar no Líbano é semelhante ao que faz com o Irão, incentivando a revolta dos iranianos contra o governo de Teerão, é o que fez com os palestinianos, aproveitando a divisão entre a Fatah e o Hamas, e é o mesmo que quer fazer na Síria, instrumentalizando os drusos e os curdos, para enfraquecer o poder sírio pós-Assad. Dividir e alimentar as divisões internas enfraquece os poderes nos territórios em que o governo de Israel tem ambições expansionistas.
No caso concreto do Líbano, governo e presidente arriscam-se com estas negociações, que pediram, a ter o mesmo tratamento que neste momento uma boa parte dos palestinianos reserva à Autoridade Palestiniana, olhando-a como uma entidade que colabora com Israel.
Sem querer ser profeta da desgraça, um eventual acordo entre os governos de Israel e do Líbano, deixando o Hezbollah de fora, vai estilhaçar o equilíbrio precário da política interna libanesa e pode atear o rastilho de uma nova guerra civil no Líbano. O senador republicano, Lindsey Graham, citado na imprensa internacional, disse que “o exército libanês tem sido decepcionante” e que não acredita que “o comandante do exército esteja à altura do desafio de desarmar o Hezbollah”. Acrescentou que apoia “as operações israelitas contra o Hezbollah”, e que “nada mudará no Líbano até que o governo e o exército libaneses passem das palavras à acção”. Palavras que são um sinal de perigo a ter em conta.
Pinhal Novo, 15 de Abril de 2026
02h30
jmr
