Tanto de bom devemos a Julian Assange

Manifestação de apoio a Assange, em Viena de Áustria. Foto: Joe Klamar(AFP) publiada pela France Info

Julian Assange prestou um serviço à Liberdade e aos Direitos Humanos; Priti Patel, Ministra do Interior do Reino Unido, é a mulher que quer ver o mundo a andar para trás. Ele, fundou a Wikileaks e revelou crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos; ela, assinou o decreto que permite extraditar Assange e submetê-lo à justiça daqueles que ele denunciou, os quais, esses sim, deveriam ser julgados. É o mundo do avesso e é isso que vai ficar para a história: tanto de bom devemos a Julian Asssange, mas a Priti Patel devemos apenas a vergonha alheia.

Os Estados Unidos pedem a extradição. Podem escudar-se e apoiar-se nas leis que muito bem entenderem, podem até dizer que Assange não tinha o estatuto de jornalista, mas não têm nenhuma legitimidade para Julian Assange sem antes julgarem os responsáveis pelos crimes revelados pelo próprio Assange. E sem antes, também, julgarem os líderes políticos que fizeram a guerra no Iraque, incluindo o ex-Presidente George W. Bush e o ex-Primeiro-ministro britânico, Tony Blair.

O vídeo que incrimina os Estados Unidos

Foi este o primeiro vídeo a denunciar crimes cometidos no Iraque. Um grupo de homens, com dois jornalistas da Reuters, foi varrido por balas disparadas de helicópteros norte-americanos.

Quem é Priti Patel?

Priti Patel, a ministra britância que já assinou o decreto que autoriza a extradição de Julian Assange, é uma mulher que reivindica uma herança de Margaret Thatcher e, portanto, do mais conservador que há dentro do Partido Conservador britânico; é a mulher que quer enviar refugiados para o Rwanda, pagando muitos milhões de euros para se ver livre deles; é a vice-líder do grupo parlamentar dos Conservadores amigos de Israel (grupo favorável a tudo o que seja contra os palestinianos). Ainda quanto aos refugiados que quer enviar para o Rwanda, Priti Patel revela-se em todo o seu esplendor esquecendo as própria origens, porque também ela é filha de refugiados. Os pais, indianos, fugiram da pobreza na Índia indo para o Uganda, de onde também fugiram devido às perseguições, terminando a viver em Inglaterra. Priti Patel nem por um momento deve ter reflectido sobre o que teria acontecido aos pais dela se tivessem encontrado uma Ministra do Interior como ela, disposta a pagar para os poder enviar para um outro país. É isto que Priti Patel tem no currículo e, conhecendo apenas uma pequena parte dos “feitos” da ministra britânica, entendemos melhor a decisão. É esta mulher que assinou o decreto para extraditar Julian Assange.

Não se deve misturar o que são os povos e o que fazem os seus líderes políticos, sendo que os governos mudam, mas o Reino Unido não pode querer fazer esquecer o Governo de Tony Blair e a sua acção na guerra desencadeada no Iraque. Talvez por isso, ou na senda desse posicionamento, os actuais líderes querem fazer pagar um dos que mostraram as atrocidades cometidas num país invadido e numa guerra à margem de qualquer enquadramento legal à luz do Direito Internacional. Querem poder dizer: “estão a ver? Não se atrevam a repetir a denúncia porque pode acontecer-vos o mesmo”. Que pior sinal se pode dar à Liberdade de expressão e ao jornalismo? Ainda estamos no chamado “mundo livre”?

Por muito que os Estados Unidos garantam que vão respeitar os Direitos Humanos no processo para julgar Julian Assange, essa garantia nada representa pois aquilo que Julian Assange denunciou e que provoca esta perseguição norte-americana foi precisamente o desrespeito pelos Direitos Humanos e os crimes cometidos pelos Estados Unidos. Quem fez o que fez no Iraque, e que Assange tão bem denunciou, não tem crédito em matéria de Direitos Humanos.

Thatcher e Pinochet

E se da parte dos Estados Unidos podemos entender a perseguição a Assange, da parte do Reino Unido, a não ser por vassalagem, nada o justifica, embora, vindo de quem vem, também não surpreenda. A ministra que agora assina a extradição de Assange reivindica-se herdeira política da ex-Primeira-ministra Margaret Thatcher que deu abrigo político ao criminoso Pinochet, com quem se deixava fotografar e a quem enviava garrafas de whisky. Isto é: receber um criminoso, sim, faça favor de entrar; proteger quem defende os direitos humanos, revelou crimes de guerra e prestou um serviço público, isso não pode ser.

Teresa Ribeiro do lado certo

Neste caso, talvez não tenha sido do conhecimento geral, mas é preciso que se saiba da posição assumida por Teresa Ribeiro, ex-secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e actual representante da OSCE para a liberdade de imprensa. Se Priti Patel nos envergonha, Teresa Ribeiro engrandece-nos enquanto seres humanos ao pedir ao Reino Unido para não extraditar Assange, lembrando que a decisão vai ter impacto na liberdade de expressão e que muitas das revelações da WikiLeaks foram de interesse público, tendo contribuído para importantes investigações. A antiga governante portuguesa sublinhou “que alguém que revele material de interesse público possa enfrentar uma longa pena de prisão, pode ter um impacto sério e duradouro no jornalismo de investigação”.

Obviamente que quem quer julgar Assange e quem se dispõe a extraditá-lo preferia que nada se soubesse sobre a guerra no Iraque, para além da respectiva propaganda governamental.

Ainda pode haver apelo da decisão da ministra britânica e resta esperar que uma lufada de bom senso chegue rapidamente a Londres.

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