Quem pode mediar um cessar-fogo na Ucrânia? Só a ONU!

O que espera António Guterres para avançar na mediação de um cessar-fogo? Foto ONU/Mark Garten

Tudo se pode esperar de uma guerra: das maiores atrocidades às maiores lições de humanismo. E há também lugar ao absurdo, como é o caso de o Presidente Volodymyr Zelensky sugerir negociações de paz em Jerusalém. Concedamos que Zelensky quer o calar das armas seja a que preço for. Obviamente ninguém o pode criticar por isso. Mas, Zelensky, que é judeu, não pode ignorar o simbolismo inevitavelmente associado a eventuais negociações em Jerusalém. Desde logo, muito provavelmente serão apresentadas pelo governo de Israel como negociações na “capital una e indivisível de Israel”, quando só essa designação já viola o Direito Internacional; depois, porque Jerusalém é uma cidade ocupada (outra violação do Direito Internacional), sendo absolutamente paradoxal que a invasão da Ucrânia e a ocupação do território ucraniano possam ser discutidas num território ocupado.

ISRAEL

Para além disso, as políticas dos governos de Israel em relação aos palestinianos, a construção de um muro que separa Israel dos territórios palestinianos, a ocupação da Cisjordânia, o cerco à Faixa de Gaza, e o desrespeito pelas resoluções da ONU, retiram a Israel legitimidade para mediar qualquer conflito que envolva situações da soberania e fronteiras de outros países.

E temos ainda os interesses de Israel relativamente ao Irão e à Síria, duas questões em que Israel está muito próximo da Rússia. No caso do Irão, a Rússia disse que as sanções europeias por causa da invasão da Ucrânia são um obstáculo à assinatura do acordo que pretende recuperar o Acordo sobre o Programa Nuclear do Irão de 2015 – Israel é contra a recuperação deste Acordo – e, no caso da Síria, Israel precisa da coordenação com as forças russas – que apoiam Bashar Al Assad – para poder continuar a atacar as milícias iranianas, que também apoiam Assad. Pode dizer-se que são assuntos distintos, mas não são. Na política internacional há sempre múltiplas frentes e interesses e tudo serve para conquistar apoios. Atravessar a questão do acordo sobre o Programa Nuclear do Irão, em eventuais negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, seria acrescentar problemas a um problema que já é suficientemente difícil de resolver.

TURQUIA

Outro caso, a Turquia: estamos conversados quanto a Democracia e quanto à liberdade de expressão: é um dos piores países do mundo para os jornalistas. O Comité de Protecção de Jornalistas dá conta, em finais de 2021, de que a Turquia tinha mais jornalistas presos (18) do que a Rússia (14); são frequentes as detenções de políticos que afrontam Erdogan, nomeadamente políticos curdos, mas não apenas; a Turquia ataca com frequência a região curda no norte do Iraque e da Síria com o argumento de que está a atacar “terroristas” (PKK e YPG). A Turquia apoia ainda grupos de milícias que combatem as forças do Governo sírio de Bashar Al Assad (apoiado pela Rússia) e, em simultâneo, as SDF (que junta curdos e árabes sírios, criadas para combater o Estado Islâmico); Vladimir Putin já recorreu a 16.000 homens que combatem ao lado das forças de Assad, na Síria, para irem para a Ucrânia em apoio ao exército russo. Além disso, recordamo-nos como a Turquia provocou ataques de nervos na NATO ao comprar à Rússia mísseis S-400 e como Erdogan tem utilizado os refugiados como arma de arremesso contra a Europa.

É certo que a Turquia acolheu a primeira reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia e da Rússia, e que foi a reunião de mais alto nível desde que invasão começou, mas a Turquia é também fornecedora de drones à Ucrânia, arma que tem vindo a ser utilizada com sucesso na resistência contra a invasão russa. Todo este envolvimento retira legitimidade para uma mediação desinteressada.

Poder-se-á dizer que, face à necessidade, a legitimidade de quem mediar o conflito virá da possibilidade real de se conseguir um cessar-fogo. Admitamos que sim, em nome dos que sofrem a guerra, mas que se tenha em atenção que essa mediação pode legitimar outras políticas e outros líderes que não andarão muito longe da mentalidade de Vladimir Putin e pode dar-lhes um peso no xadrez internacional que, de todo, não merecem.

ONU – Guterres

No actual contexto não será fácil encontrar quem possa mediar um cessar-fogo: uns não serão aceites pela Rússia, outros não serão aceites pela Ucrânia. Parece então ter chegado o momento de um passo em frente das Nações Unidas. Mesmo com as declarações iniciais de António Guterres a condenar a invasão russa – de que a Rússia não gostou – a ONU surge como único mediador legítimo e credível. Num momento em que a organização sofre tantas críticas, é uma ocasião para demonstrar a utilidade que muitos dizem que já não tem. O secretário-geral, António Guterres, devia dar o passo que falta.

Obter um cessar-fogo é, sem dúvida, o que qualquer ser humano sensível e humanista quer para a Ucrânia. Só um cessar-fogo, o mais rápido possível, consegue o mais importante: evitar mais mortes e mais destruição!

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