Guterres: o poder da presença e da palavra

António Guterres, em Irpin, zona a oeste de Kiev. Foto da conta oficial do secretário-geral da ONU no Twitter.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, esteve esta quinta-feira em Kiev, depois de ter estado em Moscovo. E fez muito bem! António Guterres faz o que pode e a ONU permite. Para quem saiu a terreiro criticando a deslocação, alegadamente tardia, seria bom que entendesse – claro que entende – que Guterres não é o dono nem o “Presidente” da ONU. É tão-só o secretário-geral, sujeito às decisões do Conselho de Segurança, esse sim, o órgão que, de facto, manda na organização.

Ao contrário do que Guterres é acusado – de se ter sujeitado a uma recepção arrogante e displicente de Vladimir Putin naquela longa mesa que já tem um lugar na História – a verdade é que Putin não teve a coragem de não o receber, mesmo depois de o Kremlin ter acusado Guterres de parcialidade ao ter condenado a invasão russa logo nos primeiros dias de guerra. E se António Guterres já o tinha dito, agora voltou a dizer, mas desta vez na cara de Vladimir Putin. Imaginemos por um momento a irritação de Putin com o “descaramento” de António Guterres em pleno Kremlin. Só por isso já valeria a pena ter ido a Moscovo. E se conseguiu que as pessoas de Mariupol possam ter um ponto de fuga, tanto melhor.

Já na Ucrânia, António Guterres voltou a dizer que nada pode justificar esta guerra, apelou à Rússia para colaborar com o Tribunal Penal Internacional de modo a apurar responsabilidades na situação “horrível” de Boucha e qualificou a situação em Mariupol como uma crise dentro da crise e um “apocalipse”. Criticou ainda o próprio Conselho de Segurança da ONU por não ter conseguido evitar a guerra e por não conseguir agora acabar com ela. Também não é de somenos sublinhar as palavras de Guterres quando olhou para os edifícios esventrados e se identificou com os ucranianos que sofrem com a guerra, dizendo que não imaginava o que seria se ali estivessem os seus netos e a sua família. Esta proximidade com as vítimas da guerra é um bálsamo precioso para uma ONU bloqueada e incapaz de nos assegurar a paz.

Guterres exerceu os poderes que tem e em relação aos quais não depende de nada nem de ninguém: o poder de estar presente e o poder da palavra.

A prova maior do incómodo provocado pela presença de António Guterres em Moscovo e na Ucrânia foi o ataque russo a Kiev precisamente quando lá se encontrava o secretário-geral da ONU. Essa era uma linha vermelha que a Federação Russa não podia ultrapassar, mas foi o que fez. Alguma réstia de consideração que ainda pudesse existir pelas razões de Moscovo – em termos de realpolitik – esfumou-se!

Por fim, num plano mais doméstico, a deslocação de António Guterres a Moscovo e Kiev, também trouxe à liça aqueles que não se cansam de sempre tentar “ajustar contas” com algo que cheire a esquerda, por muito suave que seja o aroma. Tal como Putin, ficaram irritados, mas o ressabiamento é mau conselheiro e conduz ao ridículo.

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