Não se pode humilhar o inimigo

Infografia CNN Portugal. A azul os países NATO em 2022.

Há mais de 30 anos, a URSS e a antiga Ordem Internacional terminaram sem que fosse disparado um tiro. A mudança de paradigma internacional deu-se sem a habitual convulsão violenta que sempre caracterizou o fim dos impérios. Sim, é de Impérios que se trata. O mundo bipolar desfez-se e houve quem, apressadamente, decretasse o “fim da história”. Tinha sido, diziam, a vitória do capitalismo – ou do “mundo livre” como também gostam de dizer – sobre o socialismo. Nem o tal mundo a que se referem é assim tão livre, nem a URSS era socialista, mas esse não é agora o assunto. Certo é que percebemos há muito que a história não terminou nesse início da década de 90 do século XX. Ela está aí, a desenrolar-se, dolorosamente, à nossa frente.

Recuando mais de um século, lembremos como terminou a Guerra 1914-18. A Alemanha, humilhada no Tratado de Versailles (ao qual chamou de diktat), respondeu a essa humilhação da forma que sabemos, colocando Hitler no poder e arrastando o mundo para uma nova guerra, ainda mais devastadora. Os livros registam esse erro cometido em Versailles (não se humilham os derrotados), mas o mundo não aprendeu.

O fim da era bipolar terminou precisamente com a humilhação da Rússia. Moscovo cedeu em toda a linha. Pelo menos foi essa a interpretação dos actuais líderes russos. Teria sido necessário que a nova Ordem Internacional definisse fronteiras e esferas de influência, de forma clara, para que não se pudesse ouvir agora a Rússia a dizer que teve uma promessa de não alargamento da NATO para a Europa de Leste, e a NATO a dizer que não houve promessa nenhuma. A Rússia, assim humilhada, teria de reagir e Putin avisou em 2005 quando classificou o colapso da União Soviética como “a maior catástrofe geopolítica do século”. Os vencedores da guerra-fria, não satisfeitos, levaram a NATO à fronteira da Rússia. Foi uma segunda humilhação. Depois, tivemos a Geórgia e a Crimeia. De caminho, Donetsk e Lugansk.

Resumindo: a reacção que a Rússia foi incapaz de ter nesse início do século XX, e que poderia não ter tido se tivesse sido evitada a pressão nas suas fronteiras, acabou por surgir. E surgiu da pior forma, através da invasão – e destruição – de um país soberano e de uma guerra que ainda não sabemos como vai terminar.

Evidentemente que teria sido possível evitar a guerra – é sempre possível recusar iniciar uma guerra – mas à decisão insana de Vladimir Putin devemos juntar, por um lado, a incompetência e a falta de visão estratégica de muitos líderes ocidentais, em particular os europeus, e por outro lado os “falcões” que moram do outro lado do Atlântico, sempre ávidos de “uns bons tiros de canhão”.

Foi a falta de visão estratégica da Europa associada aos “falcões” norte-americanos que permitiu à NATO “esticar a corda”. Em 2008, a NATO anunciou a intenção de integrar a Ucrânia e a Rússia respondeu que tinha sido passada uma linha vermelha. Desde 1999 entraram na NATO os países bálticos e outros países da Europa de Leste, 14 ao todo. Ucrânia, Geórgia e Bósnia e Herzegovina são oficialmente reconhecidos como países aspirantes a membros da NATO. A União Europeia, que não devia servir para alimentar este tipo de coisas, juntou-se ao cortejo.

Infografia CNN Portugal. A azul os países NATO em 1991; a vermelho os países da URSS em 1991.

Imaginemos por um momento que a Organização do Tratado de Segurança Colectiva (Rússia, Bielorrússia, Arménia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão – Azerbaijão, Geórgia e Uzbequistão já foram membros mas saíram) integrava uma dúzia de países das Américas. Depois, construía bases, instalações de defesa de mísseis balísticos e deslocava milhares de soldados para esses países. Qual seria a reacção dos Estados Unidos da América? Devemos olhar para os Estados como iguais ou devemos admitir que uns façam o que querem e aos outros reste a resignação?

Podemos argumentar que cada país tem o direito de escolher as Alianças de que faz parte e os parceiros com quem se quer relacionar. É verdade e, em abstracto, deveria ser assim. Mas não é. Na realpolitik não é assim que funciona. Por muito que custe a cidadãos comuns que gostam de Liberdade e democracia, não é assim que o Mundo funciona.

Qualquer aluno de primeiro ano numa licenciatura de política internacional sabe que o sentimento de insegurança de um Estado gera uma corrida ao armamento e a consequente insegurança dos Estados vizinhos, que passam também eles a desenvolver uma corrida ao armamento. É uma escalada. É precisamente aquilo a que estamos a assistir.

Na última visita que Emmanuel Macron fez a Moscovo, dedicámos muita atenção à enorme mesa em que Macron e Putin conversaram. Prestámos porventura menos atenção ao que foi dito na conferência de imprensa conjunta. Macron disse coisas simples, mas importantes. Lembrou que a Geografia não muda e que a segurança da Europa é indissociável da segurança da Rússia. Está tudo aqui, nestas poucas palavras. Quanto a Putin, incomodado com algumas perguntas de jornalistas franceses – foi visível o balançar de corpo do Presidente russo – lembrou que o poder militar da NATO é superior ao da Rússia, mas acrescentou que a Rússia “é uma potência nuclear”. Ou seja, os objetivos russos estão definidos e o plano está traçado, se as coisas correrem mal a Rússia tem um botão vermelho para ameaçar o Ocidente. Mas reparemos como Macron falou da Europa e Putin falou da NATO.

Para que não se possa dizer que esta é uma visão putinista do conflito, cito Mário Soares (no ano em que a NATO anunciou a intenção de integrar a Ucrânia), insuspeito de simpatia por Putin: “A NATO, que se tornou um verdadeiro braço armado dos Estados Unidos, está a fazer também estragos noutras regiões do mundo. Refiro-me ao Cáucaso, às zonas do Cáspio e do Mar Negro e aos países limítrofes da Rússia Ocidental. Estes quiseram logo entrar na NATO, com a ilusão de que teriam mais garantias de segurança, sob o chapéu americano, do que na União Europeia… e a NATO, cercando a Rússia e instalando na Polónia e na República Checa bases de mísseis, começa a ser uma ameaça para a Rússia, que a pode tornar agressiva. Um perigo!”(…) “a NATO, criada como organização defensiva, no início da «guerra fria» está a tornar-se, por pressão dos neo-cons americanos, uma ameaça à paz. Cuidado União Europeia!”. (Revista Visão, 11 de Setembro de 2008, p.30)

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