O líder iraquiano Moqtada al-Sadr vence eleições mas não quer ser Primeiro-ministro.

MOQTADA AL-SADR. Foto AFP publicada em iranpress.com

O Iraque continua à espera dos resultados finais e oficiais das eleições legislativas de 10 de Outubro. A Comissão Eleitoral está ainda a avaliar recursos e queixas e, em muitos casos, a recontar manualmente os resultados da votação em cerca de 3.000 urnas. Nada de anormal, sendo quase uma tradição, num país em que dificilmente alguma força política consegue uma maioria absoluta. A divisão política, religiosa e étnica, levam à dispersão de votos e o cenário que sempre se coloca é o da necessidade de um acordo ou coligação que viabilizem um governo no Parlamento. Desta vez, não foi/será diferente, sendo que há várias mudanças em relação às eleições de 2018, apesar do domínio dos partidos xiitas não ter sido posto em causa.

Resultados provisórios

Os resultados não são ainda definitivos, mas o “Movimento” Sadrista repetiu a vitória e melhorou o resultado: passou de 54 para mais de 73 deputados.

A “Aliança da Conquista”, força política que alberga a coligação de milícias pró-iranianas Hachd al-Chaabi, perdeu dois terços dos 48 deputados (passam a ser 17), mas pode ainda ter algum peso parlamentar se cooptar alguns deputados independentes (um novo e pequeno partido “Extensão” elegeu cerca de uma dezena de deputados e há ainda cerca de duas dezenas de independentes eleitos). As milícias pró-Irão, que formam a Aliança, entraram no Parlamento, em 2018, beneficiando do combate que fizeram ao Estado Islâmico, mas são agora acusadas do rapto e assassínio de dezenas de activistas que se manifestaram nos últimos meses contra o governo iraquiano.

Grande surpresa destas eleições foi a “Aliança do Estado de Direito” do antigo Primeiro-ministro xiita Nouri al Maliki. O homem que mais tempo foi Primeiro-ministro (2006-2014) é também o líder do Partido Daawa e tem agora um grupo parlamentar com 35 deputados (tinha 25).

O grande derrotado destas eleições é o também antigo Primeiro-ministro (2014-2018) Haider al-Abadi. A “Aliança das Forças de Estado” que al-Abadi construiu com Ammar al-Akim, líder do “Movimento da Sabedoria” foi quase varrida da representação parlamentar.

Entre os partidos curdos que têm a votação assegurada e os partidos xiitas, surge o bloco sunita: o Movimento Progresso, de Mohammed al-Halbousi (actual presidente do parlamento) tem 37 lugares e a coligação AZM (Determinação) pode chegar aos 12 deputados.

Quanto às forças curdas, o Partido Democrático do Curdistão (clã Barzani) tem 33 lugares; a União Patriótica do Curdistão (do clã Talabani) obtém 16 lugares e a “Nova Geração” (uma nova formação política, obtém 9 deputados.

Coligações

Sendo que as contas finais ainda não estão feitas, coloca-se a questão de saber quem vai liderar o próximo governo. Na política iraquiana não existe a cultura de oposição. Todos querem uma fatia de poder e a solução que responde a esta “tradição” é uma coligação que garanta apoio parlamentar e distribua lugares de poder, bem como proximidade em relação à vontade de Teerão. A questão da liderança do governo pode ser resolvida encontrando alguém que aceite ser o pivô de uma coligação que não hostilize o Irão.

A anteceder a divulgação dos resultados finais, as pressões já se fazem sentir: Moqtada al-Sadr avisou que as armas devem estar nas mãos do Estado e que apenas nesse quadro devem ser utilizadas. Isto inclui aqueles que se reivindicam da “Resistência”, isto é, as milícias xiitas pró-Irão. Ora, estas milícias, que não são um grupo homogéneo, contestam os resultados preliminares dizendo que as eleições foram manipuladas, referindo “a maior fraude a que o Iraque já assistiu”, e manifestam-se na rua. Entretanto, os morteiros (cuja responsabilidade é geralmente atribuída a estas milícias) voltaram a cair na “zona verde” de Bagdad, o que não acontecia desde Julho. Está à vista a pressão que as principais forças políticas exercem para se posicionarem nas negociações para construir um governo.

Neste cenário e com os resultados até agora conhecidos – se forem confirmados – há várias possibilidades de coligação. Eventualmente até seria possível uma coligação que deixasse de fora as principais forças políticas aliadas do Irão, mas esse é um cenário que dificilmente se concretizará. Matematicamente é possível, mas é extremamente difícil de conceber que o Irão aceite um cenário desses.

Primeiro-ministro

Mas o Irão também terá dificuldade em afastar das negociações e qualquer influência governativa o líder da força política que venceu as eleições. Moqtada al-Sadr é incontornável na política iraquiana. Desde logo, goza do respeito de muitos iraquianos por ser filho do grande Aiatola Mohammad Sadeq al-Sadr, executado pro Saddam Hussein. Para além disso, esteve na linha da frente no combate à presença norte-americana no Iraque e mantém alguma distância em relação ao Irão, dizendo que as relações regionais devem ser mais equilibradas, significando isto que o Iraque precisa de mais parceiros estratégicos para além do Irão. Se o prestígio de Moqtada al-Sadr assenta nestes pilares, a base de apoio mais forte está na população xiita mais desfavorecida e no carisma de Moqtada, visto por uns como líder nacionalista e, por outros, apenas como um populista.

O facto de nunca ter querido ser Primeiro-ministro prende-se provavelmente com um possível veto do Irão, mas também com a liberdade que ganha ao estar fora do governo. Mesmo que desde há muitos anos vários governantes tenham sido da área política de Moqtada al-Sadr, ele tem mantido as críticas à governação como se não tivesse qualquer responsabilidade na acção governativa

O Irão não vê Moqtada al-Sadr como um inimigo, mas sabe que não é homem para dizer sempre “sim” a Teerão. Moqtada al-Sadr apoiou de início o Movimento de contestação ao governo pró-Irão e só cessou esse apoio quando, depois de centenas de mortes, Teerão percebeu que a situação poderia ficar fora de controlo e disse a Moqtada al-Sadr para retirar o apoio aos protestos.

Enquanto espera por um novo governo, o Iraque definha. O sistema política pós-invasão de 2003 afundou-se na corrupção, grande parte da população vive na pobreza, os serviços públicos não respondem às necessidades, o Estado Islâmico mostra que ainda não foi exterminado e as milícias armadas são quase um Estado dentro do Estado. O movimento de contestação que marcou os últimos largos meses no Iraque não conseguiu a mudança que pretendia, faltando saber se vai continuar a exigir mudanças depois de umas eleições em que a abstenção foi de 41%.

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