O Líbano precisa de paz e de ajuda, não de ameaças e de guerra

Beirute, Agosto de 2019, ainda havia “The Daily Star”. O jornal fechou portas devido à crise que varre a sociedade libanesa. Fotografia da AFP publicada em https://www.middleeasteye.net/

Há países que podem fazer (quase) tudo, mas outros há a quem é exigido o mais rigoroso respeito por todas as regras e normas, seja no campo das relações internacionais, seja em termos internos, por exemplo, em relação aos Direitos Humanos ou às forças políticas que podem ou não fazer parte dos governos. Falemos dos primeiros – dos que podem fazer (quase) tudo – a propósito do Líbano, país mergulhado numa crise enorme e a quem tudo está a ser exigido.

A mais recente polémica, vejam só, tem origem numa frase (sim, eu sei que as palavras são importantes…), proferida pelo actual Ministro da Informação libanês, quando ainda não era ministro. George Kordahi considerou “absurda” a intervenção da coligação liderada pela Arábia Saudita na guerra no Iémen (desde 2015) e acrescentou que os rebeldes Houthis defendem-se de “uma agressão externa”. Foi esta leitura, feita a 5 de Agosto, mas recuperada agora a 25 de Outubro – quase três meses depois – que está na origem da “guerra diplomática” desencadeada por várias monarquias do golfo, com a Arábia Saudita à cabeça.

As “democracias” do Golfo contra a “hegemonia” do Hezbollah

Temos então que a Arábia Saudita mandou regressar o embaixador em Beirute e deu ordem de expulsão ao embaixador libanês; Riad decidiu interromper também todas as importações a partir do Líbano; Bahrein, Koweit e Emirados Árabes Unidos mostraram-se “solidários” e acompanharam as decisões sauditas; vários países do Golfo aconselharam os seus cidadãos a deixarem do Líbano; as empresas de transporte DHL e FedEx interromperam as operações entre Riad e Beirute.

O chefe da diplomacia saudita disse que o problema vai muito além dos “simples comentários de um ministro” e sublinhou a “hegemonia do Hezbollah no Líbano”. E o problema é esse, de facto. O Hezbollah, não é o Líbano, mas tem um papel importantíssimo no país e tem o apoio do Irão. É bom recordar neste momento as palavras do então Primeiro-ministro libanês Fuad Siniora (sunita), na conferência de Roma, após a guerra (2006) em que Israel bombardeou Beirute e o sul do Líbano. Disse Siniora que o Hezbollah (xiita) é parte da resistência e da história do Líbano, nomeadamente contra as investidas israelitas. Ficou tudo dito para quem na altura pretendia o desarmamento do Hezbollah. Recentemente, o Ministro dos Negócios Estrangeiros disse algo muito semelhante.

A realidade

Aqui chegados, convém sublinhar que não se trata de defender ou criticar o papel do Hezbollah no Líbano, trata-se apenas de tentar perceber a realidade tal qual ela é e não como poderia ser; não se trata de dizer que a política libanesa não precisa de uma renovação total, mas aqui será preciso, para além de exigir, explicar como isso se poderá fazer atendendo à realidade libanesa.

Arábia Saudita versus Irão

E a realidade é que a Arábia Saudita (sunita) tendo o Irão (xiita) como grande inimigo, resolve declarar esta guerra diplomática contra o Líbano, tentando assim atingir o rival regional. Independentemente dos dados e objetivos concretos que possam ter provocado esta acção das monarquias do Golfo – e aconselhar a saída dos seus nacionais não é um bom sinal – o que fica mal a Riad é aproveitar este momento de enorme fraqueza do Líbano (a viver uma verdadeira catástrofe social, económica e política) para apertar ainda mais o torniquete. Na capital saudita há quem ignore quão mal visto é bater em alguém que já está caído, e sem com esta metáfora querer ofender o povo libanês.

Os bons exemplos

Mas para quem tanto exige a outros é indispensável recordar o episódio do então Primeiro-ministro libanês Saad Hariri, em Novembro de 2017, quando foi à Arábia Saudita e daí não saiu enquanto não apresentou a demissão do cargo. Sim, demitiu-se estando fora do país e só abandonou Riad quando o chefe da diplomacia francesa se deslocou à Arábia Saudita, saindo depois Hariri para Paris com o argumento de ter sido convidado. Na altura, o Presidente libanês falou em sequestro e o caso ficou sempre mal explicado, sendo certo que após regressar ao Líbano Saad Hariri retirou o pedido de demissão e continuou Primeiro-ministro.

O assassínio do jornalista Jamal Khashoggi (no consulado saudita em Istambul) é outro caso que enfraquece a legitimidade da Arábia Saudita à mesa das relações internacionais. Houve muitas palavras de condenação, mas acções concretas ou sanções – sempre tão rápidas noutros casos e com outros países – nada! Os responsáveis políticos não foram punidos. É esta a monarquia que agora fica zangada e ofendida com umas palavras de um ministro libanês.

Os dois casos referidos relativamente à Arábia Saudita dariam certamente outro brado e seriam severamente punidos se o país protagonista não pertencesse ao círculo de amigos das potências ocidentais. Tal como por exemplo acontece com os frequentes bombardeamentos israelitas na Síria, contra os quais não se ouve uma palavra dos mesmos ocidentais tão lestos noutros casos; ou como acontece com os bombardeamentos da Turquia no Curdistão iraquiano e sírio. É sempre mais fácil fazer exigências e “bater” no Líbano do que ter a mesma exigência e atitude em relação a quem tem petróleo, a quem é aliado ou a quem é um bom cliente das empresas de material de guerra. Um pouco menos de hipocrisia e talvez possam ser levados a sério.

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