Incompetência, negligência, ingratidão

Um intérprete (à esquerda) ouve um militar da ISAF (à direita) para depois traduzir para uma terceira pessoa (de costas). Créditos da fotografia: noonpost.com

Em todas as guerras e conflitos armados há sempre um grupo específico de pessoas que fica numa especial situação de fragilidade quando a guerra termina. Principalmente quando o conflito provoca uma mudança de poder e de regime. Pessoas que tenham trabalhado com militares, jornalistas ou instituições ligadas à (s) parte (s) derrotada (s), são frequentemente tratadas como traidoras e alvo de todo o tipo de vingança e violência, que não poupa as famílias. Muitos pagam com a vida.

Sem estas pessoas, os estrangeiros que não falam a língua de um país em guerra dificilmente conseguem “dar um passo”. No caso dos jornalistas, um “fixer” é um “anjo da guarda”. Um bom “fixer” é meia reportagem feita. Mais do que um intérprete é um guia, facilitador – de pessoas a contactar, caminhos a seguir, alimentos, combustível – é os olhos que vêm coisas que nós não conseguimos ver, dorme connosco no chão, corre riscos e, por vezes, terminado o trabalho, ganhámos um irmão.

Não fazendo qualquer tipo de julgamento da opção que cada uma dessas pessoas fez no momento em que decidiu trabalhar com militares, jornalistas ou instituições estrangeiras – são tantos os motivos para decisões difíceis em zonas de conflito… – parece razoável perguntar o que fizeram essas instituições por aqueles que lhes serviram, por exemplo, de tradutores. E aqui, refiro-me obviamente aos países que estiveram nesses conflitos. São os Governos que passam vistos, concedem protecção e asilo. Se os intérpretes que trabalharam com jornalistas e outras instituições correm riscos, os que trabalharam com forças militares estrangeiros têm um alvo “marcado na testa”.

A retórica versus realidade

Podem os governos ou as forças militares dizer que o contrato não previa nenhum tipo de protecção. Ou que o trabalho foi pago e, portanto, a relação terminou. Ou podem até dizer que o contrato dizia literalmente que nenhuma protecção era devida. Sim, podem dizer isso tudo. Mas para além dessa retórica existe a ética e o humanismo.

Estas pessoas ficam expostas a todo o tipo de abusos e violência dos que passam a controlar o terreno. É, provavelmente, o que está a acontecer no Afeganistão e, não por acaso, os Estados Unidos admitem acolher muitas dessas pessoas (cerca de 50.000 intérpretes trabalharam para os militares norte-americanos durante os 20 anos de guerra; 20.000 ainda procuram uma solução para sair do Afeganistão https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-58032003), a Alemanha diz que não se importa de queimar etapas burocráticas para poder receber afegãos nessas condições, a França também retirou do país cerca de três mil pessoas e Portugal diz ter feito o mesmo. Ainda bem que o fizeram. Salvaram vidas, as dos intérpretes e das respectivas famílias. Mas há uma pergunta a fazer: porquê só agora, quando o caos já estava instalado? Principalmente porque esta era uma questão para a qual há muito tempo todos os governos tinham sido alertados. Não podem dizer que não sabiam ou sequer justificar-se com o rápido avanço Taliban na tomada de Cabul. Quantos vão ficar para trás? Quantas famílias vão pagar por terem alguém que trabalhou para os estrangeiros?

Em Janeiro de 2018, a convite do Parlamento Europeu e de eurodeputados portugueses (Carlos Coelho, Ana Gomes e Marisa Matias), participei numa conferência (“Words at War), em que a questão da segurança dos intérpretes em zonas de conflito foi abordada. O problema estava há muito identificado mas foi reforçado nesta conferência com o objetivo de lhe dar visibilidade. Por essa altura, janeiro de 2018, o Conselho Europeu tinha bloqueado uma proposta do Parlamento Europeu para que os Estados membros aceitassem pedidos de asilo (por razões humanitárias) dos intérpretes que tinham conseguido chegar à Europa.

Cartaz da conferência, em Bruxelas, sobre a segurança dos intérpretes, em 2018.

Em Maio de 2019, várias organizações de intérpretes enviaram ao Secretário-geral da ONU, António Guterres, um projecto de resolução para o Conselho de Segurança, que defendia a protecção dos civis tradutores e intérpretes em zonas de conflito.

Mas como sempre, neste tipo de casos, o mundo demora a mover-se.

Quem disse que ninguém fica para trás?

Muito do caos que se vive por estes dias em redor do aeroporto de Cabul é da responsabilidade total de uma retirada mal organizada, de um acordo Estados Unidos/Taliban feito por um homem (Donald Trump) que queria, fosse como fosse, um trunfo eleitoral nas presidenciais norte-americanas. O acordo que deu origem a uma retirada caótica (e sangrenta) é de Fevereiro de 2020. Sabemos que a retirada de uma força militar de um terreno como o Afeganistão, após 20 anos de ocupação, não é uma tarefa simples. Mas todos tiveram mais do que tempo para organizar a protecção e a retirada dos afegãos com quem trabalharam. Era uma obrigação, um dever, algo que deveria ser uma das prioridades. Estão a fazer o melhor que podem? Talvez, mas é pouco, porque podia ter sido inciado há muito tempo. Que ninguém ouse dizer que não sabia o perigo que estas pessoas iriam correr – que, aliás, sempre correram, mas ainda mais quando aqueles para quem trabalharam saem do país. E que não ousem dizer que não conseguiram prever a forma rápida como os Taliban chegaram a Cabul e o caos que se gerou a seguir. Se não previram o avanço rápido dos Taliban, foram incompetentes; no caso dos intérpretes e respectivas famílias que não foram retirados e protegidos a tempo, foram negligentes, o que é terrível. A ingratidão é do pior que podemos encontrar.

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