Estados Unidos sem maquilhagem

Imagem do Cartoon Movement, assinada por Marco de Angelis

A “América”, “mestre-escola” da democracia, levou um murro no estômago. A invasão do Capitólio, o deboche e a violência de uma turba incitada por Donald Trump, são imagens devastadoras para um país que quer ser exemplo e exportador de democracia (como se isso fosse possível). Mesmo atendendo ao contexto de um país em que as armas são o “pão nosso de cada dia”, ver grupos de milícias armadas a rondar o Capitólio, é algo que não pode fazer parte de um mundo civilizado. Não se entende como é possível ter na mesma equação, democracia, eleições livres e grupos de milícias equipadas com armas automáticas a ameaçarem as instituições que governam o país.

Felizmente para quem vive na Europa, as coisas são diferentes e essa diferença dá à União Europeia uma legitimidade que os Estados Unidos não tinham e agora ainda têm menos. Sim, perderam legitimidade. A altivez e sobranceria com que olhavam acontecimentos noutros pontos do mundo – muitos deles mais do que justos, por representarem reivindicações legítimas do povo que de outra forma não seriam tidas em conta – e a forma como têm aplicado sanções a Estados que não alinhavam com a vontade política norte-americana, é agora motivo de chacota.

De Teerão ao Mali, de Bagdad ao Zimbabwe, as reacções foram no sentido de ridicularizar quem quer ser farol da democracia e da liberdade, mas tem um Presidente que não aceita ceder o poder depois de ter sido eleitoralmente derrotado. O Médio Oriente não esquece tudo o que os Estados Unidos por lá têm feito e África também tem boa memória. Aliás, Trump referiu-se mesmo a alguns países africanos como “países de merda”. Sem descer a esse nível, muitas reacções com origem em África, lembram que, afinal, não acontece apenas em África. Também nos Estados Unidos, quem perde eleições recusa deixar o poder.

China e Rússia passam ao lado dos acontecimentos em Washington. É a atitude habitual de Estados com políticas soberanistas e que não conseguem pronunciar as palavras Liberdade e Democracia. Mas a União Europeia tem, mais do que nunca, possibilidade de se demarcar dos Estados Unidos na forma de olhar o mundo. As parcerias, apoios, alianças, Tratados Internacionais, nos quais a União Europeia entenda envolver-se não podem mais depender dos Estados Unidos. É certo que a ideia não agrada aos “Aiatolás” – no sentido de seguidores do dogma – de serviço (uns por convicção, outros apenas por ódio a tudo o que tem um leve cheiro a esquerda). Sempre defenderam, e provavelmente sempre defenderão, tudo o que chega com remetente da Casa Branca. Acaba de ficar exposto à evidência que os Estados Unidos, com muitas coisas admiráveis, têm outras verdadeiramente aterradoras e só a cegueira política ou interesses obscuros podem obliterar essa leitura.

Alguns, que defendiam Trump, continuam a fazê-lo, desvalorizando a irresponsabilidade presidencial nos acontecimentos no Capitólio. Outros, que também o defendiam, mas sentem agora alguma vergonha, demarcam-se de mansinho. Como se Trump fosse algo dissociável do todo que são os Estados Unidos para a política internacional e como se um novo Trump não possa surgir daqui a quatro anos. Que os norte-americanos elejam quem entenderem, é um direito que lhes assiste, e que na Europa surjam outros Orban também é uma possibilidade forte, mas aquela União Europeia que queremos preocupada com as pessoas, com a democracia, com a liberdade, não pode arrastar-se refém das políticas decididas em Washington.

Será bom não esquecer que o país herdado por Joe Biden está profundamente dividido e Trump tem centenas de milhar de fiéis seguidores. Biden vai certamente alterar o rumo dos Estados Unidos, mas tem problemas internos para resolver e embora não se possa medir a influência que Trump vai continuar a ter, é certo que o próximo Presidente não vai querer ter as ruas em efervescência e isso pode ter influência na política externa.

A questão central, colocada pelos acontecimentos do Capitólio, é a de saber como é possível que um país tão ferozmente democrático (presume-se que isso inclua aceitar resultados eleitorais) e sempre tão lesto a dar lições a outros, qual patrono da forma certa de estar no mundo, tenha tido um Presidente como Donald Trump. A questão já antes se colocava, mas agora Trump revelou-se em toda a sua plenitude. Nos Estados Unidos, pior do que a invasão do Capitólio, só mesmo quando John F. Kennedy foi assassinado ou se a invasão tivesse por alvo a Casa Branca ou o Pentágono. A Agência France Press dizia que a força policial que protege o Capitólio tem 2 mil agentes. 2 mil!!! A mesma polícia que não hesita em disparar – e matar – à mínima suspeita, seja do que for, assiste quase pacificamente à entrada de uma urbe desmiolada no santuário da democracia norte-americana. Os Estados Unidos são isto e, por muito que nos tenham levado à Lua, o melhor conselho para eventuais parceiros de jornada é caminhar com os pés bem assentes na terra.

Quanto às manobras para um novo processo de destituição ou para o afastamento de Donald Trump ao abrigo da 25ª emenda, chegam tarde. Ninguém, nos círculos políticos norte-americanos, pode alegar que não conhecia Trump e muito menos aqueles que estiveram com ele na Administração e agora saltam do barco, numa atitude hipócrita que apenas serve para não hipotecar o futuro político.

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