Bonito serviço…

Ilustração retirada de colegioweb.com.br

Se Ana Gomes não se tivesse apresentado a eleições, é muito provável que o candidato da extrema-direita tivesse ficado em segundo lugar. Teríamos assim a vitória de um candidato da direita (dou de barato que digam de centro-direita, mas por mais que façam o pino é essa a origem política do vencedor) e um segundo lugar para a extrema-direita. Será este o mesmo país que ainda não há muito tempo deu à esquerda duas maiorias parlamentares? Quem é que não percebeu o quê?

Estou habituado a não ganhar eleições. Digo não ganhar, em vez de perder, porque poder votar é desde logo uma vitória. De facto, recordo-me de, apenas por uma vez, numas presidenciais, ter feito a cruzinha no candidato vencedor. Nestas presidenciais, a vitória do candidato vencedor foi muito clara. E há uma derrota clara de todas – todas – as forças de esquerda, num momento em que a extrema-direita ganha força.

Tenho a convicção de que os eleitores cativados pela extrema-direita, para além de alguns fascistas convictos, que os há, são pessoas legitimamente desencantadas com uma vida política enredada em escândalos, corrupção e promessas não cumpridas. São pessoas fartas de ser enganadas e que, em último recurso, acreditam num candidato que expõe, admitamos, algumas vezes de forma assertiva, as manchas da República. Mas, as pessoas legitimamente desencantadas com a situação, para além de sentirem algum conforto quando ouvem o arauto da extrema direita elencar os vícios e maleitas do sistema, não percebem que as propostas desse candidato para debelar essas manchas são muito piores e até o contrário do que, estou convicto, esses eleitores pretendem para Portugal. Aquilo que os desiludidos do sistema querem e precisam não tem resposta na extrema-direita.

Esta situação reflecte um outro problema: traduz o desinvestimento na Educação. Semelhante , nas causas, ao desinvestimento na área da Saúde, quando agora precisamos de combater a pandemia. No caso da Saúde, damos pelo desinvestimento de forma muito palpável e concreta quando as urgências dos hospitais rebentam pelas costuras e quando se constata a falta de médicos e enfermeiros; no caso da Educação, embora menos palpável, reflecte-se nas escolhas pouco esclarecidas dos cidadãos quando não conseguem discernir entre as propostas políticas sérias e honestas – de esquerda e de direita – e optam por candidatos de discurso fácil, populista, racista, mentiroso e muitas vezes brejeiro e ordinário. É uma questão de Educação! Não de grau académico, mas de civismo, de ética, de preocupação com o outro e com o todo, de preocupação com o futuro das gerações mais jovens, de respeito por quem lutou e morreu pela Liberdade.

E a esquerda? Não é que seja obrigatório haver uma polarização da vida política, mas as águas devem ser claras e transparentes: onde está a esquerda? Que força tem e que força quer ter? Ou será que estamos naquele momento a seguir ao Maio de 68, em França, quando Jean-Paul Sartre, confrontado com a vitória gaullista nas eleições que se seguiram a esse Maio de 68 e a responsabilidade da esquerda ao permitir essa vitória, respondeu: “Depende da esquerda de que se falar”. Há esquerdas que sabemos quem são e onde estão. Depois há outras coisas que ora são esquerda ora são direita, e muitas vezes “lavam as mãos” de tomadas de posição de que não se podem demitir. Fazem-no numa alegada tentativa de equilíbrio que, sendo legítima, retira legitimidade para reivindicar pertença a um campo político que, precisamente pela opção (p)referida, não se pertence.

Há quem se situe ideologicamente à esquerda e continue a pensar que não há política sem ideias. Há quem acredite convictamente que não há homens ou mulheres providenciais e acredite numa esquerda em que o bem-comum apenas poderá ser conseguido com a mobilização e o envolvimento do colectivo. A esquerda tem um lastro de lutas internas fraticidas que nunca deram outro resultado que não o avanço da direita ou até de coisas piores. Não adianta que cada porção da esquerda se acantone e diga “a esquerda somos nós”. Na linguagem do futebol é hábito dizer-se que uma equipa não é apenas onze jogadores em campo, por muito talentosos que sejam. É assim também na política. Ninguém precisa de abdicar de princípios, mas é preciso identificar inimigos e adversários comuns, estabelecer prioridades e objectivos. Só essa esquerda tem futuro. Uma esquerda em defesa do bem-comum, solidária, onde os mais desprotegidos tenham protecção, onde não pode haver sectarismo e onde terá de ser construído um campo de encontro que defenda a Liberdade, a Democracia e uma sociedade em que os principais problemas consigam ter resposta. A esquerda tem de saber construir um horizonte de esperança.

Houve meio milhão de portugueses que votaram na extrema-direita. Não é possível que exista este número de portugueses a querer um país como aquele que a extrema-direita defende e há, certamente, neste número de eleitores, diferentes explicações para a opção de voto que fizeram. Mas há um problema claro. Na guerra, mata-se ou aprisiona-se o inimigo; na política, em Democracia, conquistam-se os adversários para o nosso campo. Com ideias e argumentos.

Portugal tinha beneficiado até agora de uma vacina proporcionada por décadas de fascismo. Quase 50 anos depois de termos acabado com esse regime sinistro, fica evidente que o efeito da vacina está a passar. Se não entendermos isto agora e se a política à esquerda continuar a ser feita da mesma maneira, nada de bom podemos esperar.

One thought on “Bonito serviço…

  1. Vamos por partes:
    Sic 1: “dou de barato que digam de centro-direita, mas por mais que façam o pino é essa a origem política do vencedor”. E depois, meu caro, que mal há nisso? Em Democracia, existe a esquerda e a direita civilizadas e as que não são. E se a esquerda (defina-a!), não tem candidato credível para substituir o da direita que acaba de se reeleger, e tem exercido um papel mais que razoável e andado ao colo com a “geringonça”, é um imperativo que para ter o direito a proclamar-se de esquerda uma pessoa tenha que votar nas “esquerdas” fraticidas, sectárias, demagógicas, radicais ou em sacos onde cabe tudo?
    Sic 2: “Há esquerdas que sabemos quem são e onde estão”. Se sabe quem são e onde estão, diga. Vindo de si, estou muito interessado em saber.

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