
Parece seguro afirmar que temos andado um pouco distraídos quanto ao interesse dos jovens pela política. Não se trata de interesse pela partidarite, é um interesse pela Política. As recentes manifestações são a prova disso. Naturalmente que não estamos perante um movimento político organizado de forma tradicional como os que até agora têm pautado a política portuguesa. Alguns dos que agora se manifestam, organizam-se em associações, movimentos, grupos, sem uma liderança única, sem “elite” dirigente. Gostam de “assembleias populares”, que mais não são do que momentos em que a palavra é utilizada de forma livre. Na resposta a este “sacrilégio” (o que é lá isso de assembleias populares…), a direita faz referências ao PREC, assustada com tempos de que tem má memória, entenda-se do 25 de Abril e os agitadores de serviço anunciam que as manifestações estão “infiltradas” pela extrema-esquerda, por pessoas ligadas ao Bloco de Esquerda e ao PCP. Como se ser de esquerda fosse crime.
Temos uma organização político-partidária que dá sinais de esgotamento e não consegue resolver os problemas das pessoas. A Democracia nunca se esgota, mas no actual contexto muitos dos actuais protagonistas (dos dois partidos que têm alternado no governo) parece que não têm nada para oferecer a não ser a troca de acusações e o passa-culpas entre eles. O debate parlamentar está transformado num espectáculo mediático para ver quem tem mais tempo de antena nas televisões, quem grita mais alto e quem é o mestre da boçalidade, com destaque para um terceiro partido que nunca esteve no poder e que em nada contribui para resolver problemas, antes pelo contrário. A uma direita que não consegue esconder o ressabiamento e recusa ouvir a rua, aquela que é habitualmente referida como a maior bancada de esquerda tem respostas moles e convicções gelatinosas. Entretanto, a vida das pessoas agrava-se. A renda de casa, as contas do supermercado, da farmácia e da bomba de gasolina, começam a ser produtos de luxo.
Quando a rua fala, a direita decide pedir pelotões de fuzilamento (“encostem-nos à parede”), promete ser “implacável”, diz que “as acampadas acabaram” e promete não ouvir a rua (ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, no Parlamento: o Governo “não vai ceder aos gritos que vêm da rua”) ou, para resolver o problema de vez, quer três Salazares.
A rua, em Portugal, tem cravos vermelhos na mão. Nada pior para a tal direita ressabiada que responde com o 25 de Novembro sempre que ouve referências ao 25 de Abril; que ainda sonha com um regresso às colónias e que prefere a bastonada ao diálogo. A mesma direita que defende a política do genocídio em Israel, a perseguição do ICE aos imigrantes nos Estados Unidos e que agora ficou órfã de Bolsonaro, começa a tremer e dá sinal de nervosismo.
Há quem esteja sentado na cadeira da democracia eleitoral e tenha pavor da democracia participativa. Aliás, têm-na tratado como uma coisa do tipo “os cães ladram, a caravana passa”. Os tempos dão sinais de mudança, aqui não há cães e a caravana pode ver a marcha interrompida.
Tal como o tempo da justiça (investigação, processo e julgamento) ou o tempo do jornalismo (informação, cruzar fontes, notícia), a política também tem um tempo, mas o problema é que não tem todo o tempo do mundo para resolver problemas que se arrastam há décadas e que exigem solução urgente. As pessoas também têm um tempo e não podem passar a vida à espera.
Ver os jovens na rua, dizendo que querem ser parte e não apenas as mãos que colocam votos na urna, que arrastam os mais velhos para a caminhada e que forçam os partidos políticos tradicionais a tomar posição, é algo que me deixa profundamente feliz. E sem medo do futuro.
Pinhal Novo, 1 de Novembro de 2026
01h00
jmr
