
11 de Setembro de 2001. Aceitemos a versão oficial e deixemos de lado as teorias que a contrariam. As Torres Gémeas foram atacadas por dois aviões desviados e sob controlo de operacionais da Al Qaeda. As Torres ruíram. Morreram cerca de 3 000 pessoas e muitos milhares ficaram feridas. Um outro avião atingiu o Pentágono e outro caiu em campo aberto na Pensilvânia. O presidente George W. Bush declarou “guerra ao terror”. Osama Bin Laden só seria capturado e morto pelos Estados Unidos quase 10 anos depois. Passaram 25 anos, mas Khalid Sheikh Mohammed, acusado de ser o mentor dos ataques e preso em Guantánamo, ainda não foi julgado: o julgamento deve começar em Junho de 2028. A “guerra ao terror” parece que continua. 25 anos depois, as imagens e o trauma de uma grande potência atacada no seu próprio território, persistem.
25 anos depois, convém recordar alguns aspectos porque a Al Qaeda e os Estados Unidos constituem um bom exemplo das piruetas da história em função do interesse dos envolvidos.
Bin Laden
Osama Bin Laden foi um bom aliado dos Estados Unidos para combater a presença soviética no Afeganistão, mas quando os interesses divergiram e a Arábia Saudita (país de origem de Bin Laden) permitiu tropas norte-americanas no país que alberga as cidades mais santas para o Islão (Meca e Medina), a aliança descarrilou. Osama Bin Laden considerava a Península Arábica terra sagrada do Islão onde a presença de exércitos não muçulmanos era considerada uma grave ofensa. Faltava mais de uma década para os ataques do 11 de Setembro de 2001 e os Estados Unidos estiveram sempre no ponto de mira da organização.
Ahmed Al Sharaa
A Al Qaeda foi criada no ano anterior à retirada soviética do Afeganistão e, em 2004, surge a primeira “filial”, no Iraque, para responder à invasão (Estados Unidos e Reino Unido) de 2003. É do Iraque que irá sair Ahmed Al Sharaa, depois de anos na prisão, para a Síria, já após o início da revolta contra Bashar Al Assad, onde funda a Front Al Nusra com apoio da liderança da AL Qaeda. Recusa aliar-se à organização Estado Islâmico que, aliás, combate ferozmente, e depois de acabar com a Front Al Nusra e anunciar o corte com a Al Qaeda, mantém os seus combatentes, aos quais junta outros grupos islamistas e funda o Hayat Tahrir Al Sham, à frente do qual entra vitorioso em Damasco a 8 de dezembro de 2024.

Resumidamente, é este o percurso do homem cuja cabeça valia um prémio (entretanto retirado) de 10 milhões de dólares, atribuído pelos Estados Unidos. É este o homem que Donald Trump encontrou pela primeira vez (Maio de 2025) na Arábia Saudita, na presença do príncipe-herdeiro Mohammed Bin Salman, e receberia na Casa Branca, seis meses depois, para oferecer um perfume “Victory 45-47”, produto, claro, do universo Trump. Aliás, ofereceu-lhe o perfume e borrifou-o de imediato com a fragância. Depois enviou-lhe mais dois frascos para Damasco.
Nesse primeiro encontro em Riade, Trump (citado pela Agência France Press) disse de Al Sharaa: “um jovem forte e atraente (ou sedutor, conforme a tradução). Um homem duro!”. Citado pela Reuters, Trump disse que “(Al Sharaa) tem potencial. Ele é um verdadeiro líder”.
Depois de receber os perfumes em Damasco, Al Sharaa respondeu no X alguns dias depois: “Algumas reuniões deixam uma impressão; a nossa, aparentemente, deixou uma fragrância. Obrigado, Sr. Presidente Donald Trump, por sua generosidade e por completar este presente precioso. Que o espírito daquela reunião continue a moldar uma relação mais forte entre a Síria e os Estados Unidos”. Ficou enterrado o machado de guerra.
Os bons e os maus
Não cabe aqui, agora, analisar se Ahmed Al Sharaa era mesmo o “terrorista” que merecia ter a cabeça a prémio e, admitindo que tenha sido, se o deixou de ser.
É preciso ter em conta que as dinâmicas do Médio Oriente fogem à grelha de regras e hábitos do chamado ocidente. Tudo isso pode estar certo ou errado, mas recusar admitir essa realidade é correr o risco de análise enviesada e conclusões erradas. O Médio Oriente, no último século, transformou-se num vulcão, especialmente violento depois da invasão do Iraque em 2003.
O que está em causa, 25 anos depois da Al Qaeda atacar os Estados Unidos, é que a reaproximação agora protagonizada entre Donald Trump e Ahmed Al Sharaa significa que os “bons” não são eternamente “bons” e os “maus” não são eternamente “maus”. Tudo depende da conveniência e dos interesses do momento.
Na década de 80 do século passado, os Estados Unidos apoiaram Bin Laden para combater e travar a então União Soviética no Afeganistão; agora, na Síria, os Estados Unidos apoiam Ahmed Al Sharaa para travar eventuais aproximações e influências do Irão e da Rússia. Mudam-se os tempos, mudam os amigos. Afinal, tem sido essa a história do mundo e das guerras. A de alianças que nascem e morrem consoante a utilidade para os poderes envolvidos.
Donald Trump está a fazer o que melhor corresponde aos seus interesses do momento, na Síria e na região. Al Sharaa, segue estratégia semelhante porque precisa de reconhecimento internacional. Ser ou não ser terrorista deixa de ser uma questão quando outros interesses se levantam.
Neste dia 11 de Setembro, o que falta saber é aquilo que sentem os norte-americanos que saíram à rua para festejar a morte de Osama Bin Laden e, posteriormente, foram confrontados com um homem que pertenceu à mesma Al Qaeda, actual presidente da Síria, a ser recebido na Casa Branca, e a ser presenteado com um perfume “Victory”.
Última nota – os ataques do 11 de Setembro nos Estados Unidos, tiveram ainda um outro efeito: pesquisando nos motores de busca por 11 de Setembro, o ataque da Al Qaeda “apaga” o golpe de estado no Chile, também a 11 de Setembro, mas em 1973. Um golpe fascista, patrocinado e financiado pelos Estados Unidos, que derrubou o regime democrático e o presidente Salvador Allende, abrindo a porta a 17 anos de ditadura militar.
Pinhal Novo, 11 de Setembro de 2026
03h00
jmr
